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Afinal, o que é populismo?

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Se a esquerda na América Latina gera políticas de desenvolvimento capitalista, gerando paz social e democrática, e os políticos liberais que atacam o populismo fazem retórica motivacional, mas no final quebram o país e fazem o povo ir para rua protestar, gerando greves e mobilizações, fica a questão: não seria a direita liberal na verdade os populistas, que prometem, não cumprem e geram o aumento do esquerdismo?

A definição do termo populismo para Gino Germani é a “revolução das expectativas e inspirações ligadas a ascensão de uma nova classe que passa a pensar de uma maneira independente”. Já para Octávio Ianni o populismo tem uma ligação específica e histórica, da formação das oligarquias nos países latinos. Em Ianni, o diferencial é que a formação dos Estados Nacionais em países da América Latina, no século XIX exerceu para ele o papel de principal elemento da formação do dito populismo, mas também em países de grande índice populacional, como Alemanha e Rússia e EUA, só foi possível através da mobilização das massas populares dentro do processo político, onde são inclusas enquanto força motora do processo, mas ficando de fora do grupo que governará e determinar os rumos do país.

Já em Ernest Laclau traz a ideia de que o populismo é visto como forma linguística e analisa o discurso e a retórica populista, que busca justamente desqualificar a política através de uma noção anacrônica de “pós-política”, onde os políticos seriam todos mentirosos e buscariam sempre enganar o povo em detrimento de garantir seus direitos e do seu grupo de interesse e ao qual protege, seja a elite ou burguesia. É nessa vereda que Thomas Frank vai criar o conceito de “populismo de mercado”, onde analisa como esse discursos foi utilizado pela mídia, mas também por muitos políticos, que ao longo dos anos 90, deixa de analisar os riscos e benefícios de um mundo dividido pela ideologia e pela guerra fria, para tomar uma atitude apologética em relação ao capitalismo de mercado e a economia de sistema mundo, horas a elogiando e horas focando em pontos secundários para esconder problemas financeiros, crises e a concentração de renda e riqueza no capitalismo neoliberal: tudo passa a ser culpa da classe política e da suposta “falta de gestão” dos políticos. Por isso muitos políticos modernos buscam se definir como “gestores” e não políticos.

Quando Mauricio Macri foi eleito presidente da Argentina, em 22 de novembro de 2015, dizia em seu discurso que começava um “inicio de mudança de época”. A manchete da Globo News dizia “Eleição marca o fim de 12 anos do kirchnerismo”. Entretanto, o âncora do jornal, Erick Bang, ressaltou: “Mas parece que como a Christina(Kirchner), Macri também gosta de dançar no palanque”. As notícias destacaram o figurino de Macri, ressaltando sua informalidade. Mas seu discurso já retórica de distinção populista:

“Quero agradecer aos argentinos que saem todos os dias para trabalhar, que acreditam no trabalho e não na mania de tirar vantagem”,

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Dancinha de Macri durante sua vitória em 2015

Reforçando assim a lógica do “nós e eles” e não de uma eleição feita pela voto da maioria. E continua: “Um tempo que não pode deter-se em revanches ou ajustes de contas”. As notícias também destacavam que o fato de Macri ser um candidato supostamente de fora da oposição bipartidária que sempre marcou as eleições da Argentina, fortalecendo a ideia de “presidente civil”, de “gestor” e etc. Macri defendia em sua posse a abertura de investimentos dos mercados estrangeiros, aumento da exportação agropecuária e o combate contra o crime organizado. Macri é filho de um conhecido empresário nascido na Itália, Franco Macri.

A mãe de Franco Macri e avô de Mauricio, eram de uma família de apoiadores do fascismo italiano de Benito Mussolini. Mauricio Macri começou sua carreira trabalhando nas empresas do pai, porém seu próprio pai era muito crítico as posições do filho, o que o levou a pedir demissão da empresa da família. Em 1995, podemos ver um reforçam o populismo de Macri, quando foi eleito presidente do clube de futebol argentino: o Boca Juniors, transformando o clube em um símbolo de marketing esportivo, muito popular com as massas. Aproveitou sua popularidade conquistada com o futebol para se lançar na política.

Sua coalizão é o “Canbiemos” , que se define republicana e de centro, mas tendendo mais ao liberalismo soft. Macri não gosta de ter contato físico com o público, e seus discursos parecem vir de livros de autoajuda, com caráter retórico e psicologista bem forte. Sua principal proposta e plataforma de governo era a “Disputa Cambial”, que propôs a banda cambial, abrir a economia, combate a desvalorização da moeda argentina em relação ao dólar, acreditando que essa deve ser fixada pelo mercado, liberar importações, eliminar retenções sobre as exportações agrícolas, pagar os fundos especulativos para voltar a agradar os mercados e chegar a “pobreza zero”, mas eliminando subsídios de luz, aguá e gás. Também defendeu o afastamento da aproximação com a China e a Rússia, realizada nos governos Kirchner, prometendo fixar nas estratégias de relação com Estados Unidos e Grã-Bretanha, assim como deixar de lado a questão dos direitos humanos.

Resultado? A Argentina quebrou e seu último ano de governo foi marcada por uma profunda crise, que foi contida com programa de turismo a baixo custo feito principalmente para brasileiros conhecerem a Argentina. Apesar de ser dizer um civil de fora, a contradição é que o governo de Macri lembra muito o período de Hipólito Yrigoyen, da União Cívica Radical(partido que contraditoriamente é membro da Internacional Socialista, que faz parte o PDT) que governou a Argentina durante a Primeira Guerra Mundial. Sua política de neutralidade em plena guerra, fez com que os índices de exportação no país caíssem radicalmente, sendo retomada apenas depois da guerra. A contradição é que o liberalismo, a forte repressão e autoritarismo do período do governo de Yrigoyen foi marcado pela mobilização popular em busca de direito, como greves e a revolta dos estudantes, conhecida como a Reforma Universitária de Córdoba. Já o governo de Juan Domingo Perón, do Partido Justicialista, mesmo dos Kirchner, aumentou o emprego, o crescimento econômico e a igualdade social; nacionalizando ferrovias e bancos e companhias elétricas, cessando as revoltas populares e aumentando o capitalismo no país. Estabeleceu políticas trabalhistas como salário mínimo, férias, aposentadoria e etc, fazendo que muitos especialistas o comparem ao presidente brasileiro Getúlio Vargas.

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Peron e Evita

Voltando aos nossos tempos, quando Macri foi eleito até mesmo Cristina Kirchner reconheceu sua vitória e ligou desejando sorte. Entretanto agora, em 2019, ao tentar a reeleição Macri perdeu para Alberto Fernandez do Partido Justicialista, que teve como vice de chapa a ex-presidente Cristina. O presidente brasileiro Jair Bolsonaro, amigo de Macri e defensor suas políticas de austeridade, por sua vez se recusou a ligar para Fernandez reconhecendo sua vitória e afirmando que não mandará representantes a sua posse. Se a esquerda na América Latina gera políticas de desenvolvimento capitalista, gerando paz social e democrática, e os políticos liberais que atacam o populismo fazem retórica motivacional, mas no final quebram o país e fazem o povo ir para rua protestar, gerando greves e mobilizações, fica a questão: não seria a direita liberal na verdade os populistas, que prometem, não cumprem e geram o aumento do esquerdismo? Fica a reflexão…

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Bolsonaro e Macri, com o boné da CBF

Por Matheus Bastos. Obvious.

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