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O assujeitamento feliz ao fascismo

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Visionário, Huxley construiu um romance onde as sombrias possibilidades de um futuro totalitário (penso aqui nas críticas da Escola de Frankfurt e no conceito de “gaiola de ouro” do sociólogo Max Weber) — que estavam apenas em leve gestação na sua época — se transformam em traços dominantes da sociedade global com gerenciamento técnico-científico e sem caráter brutal repressivo (esta é uma diferença com “1984” de G. Orwel), pois as castas se assujeitam alegremente a dominação. “Sabem” que o melhor é viver em Novo Mundo ao invés de arriscar algo novo.

“Admirável Mundo Novo” (Aldous Huxley. Tradução Lino Vallandro, Vidal Serrano. – 22a ed. – São Paulo: Globo, 2014) é uma expressão de selvagem alegria e terror diante de uma nova ordem social-política onde a alta tecnologia aliou-se ao behaviorismo para a formatação de uma estrutura social hierarquizada em castas (alfas, betas e a massa de imbecis ípsilons) onde a felicidade passou a ser a única finalidade dos indivíduos condicionados como “admirável gado novo” e reproduzidos artificialmente, sem pais ou mães.

Para que isso fosse possível, para que tal sociedade da alegria-prazer-trabalho fosse estruturada em todo o mundo (Londres era a capital deste império), todos os elementos subversivos e causadores de mal-estar ou questionamentos foram abolidos e censurados: a arte, a ciência e até a genuína religião. Os poucos que insistem em tais “desordens reflexivas” serão banidos para ilhas onde viverão exilados do mundo. Neste novo mundo de estabilidade social e felicidade perpétua, ainda há um “resto humano” que não foi assimilado — os “selvagens” — pois geraria altíssimos custos financeiros (pense nas favelas e periferias do mundo). Para que não perturbassem a paz do novo mundo, foram isolados por um muro — Trump leu este livro? — e vivem dentro de reservas como a de “Malpaís”.

O romance futurista de Aldous Huxley é de uma atualidade impressionante e nos questiona as fibras da alma (para quem ainda tem uma alma pensante!) através do inquieto psicólogo social Bernard Marx, da Venerável Fordeza de um gestor público como Mustapha Mond, da sensualidade rasa e vazia de Lenina Crowne, dos questionamentos de Helmholtz Watson ou da rebelião do mestiço selvagem John.

É uma crítica bem elaborada e literariamente direta a busca desenfreada de prazer, da beleza estética corporal (toda a feiura foi banida pelo higienismo social) e da felicidade (hedonismo) incentivados pela doentia sociedade de consumo do capitalismo fordista. Aliás, Ford é o novo Deus dessa sociedade. Oh Ford!

“Admirável mundo novo” é um tiro (mental) de fuzil na nossa mediocridade pós-moderna, ainda que escrito em 1931 e publicado em 1932, depois que o escritor vivenciou na Itália o fascismo. Visionário, Huxley construiu um romance onde as sombrias possibilidades de um futuro totalitário (penso aqui nas críticas da Escola de Frankfurt e no conceito de “gaiola de ouro” do sociólogo Max Weber) — que estavam apenas em leve gestação na sua época — se transformam em traços dominantes da sociedade global com gerenciamento técnico-científico e sem caráter brutal repressivo (esta é uma diferença com “1984” de G. Orwel), pois as castas se assujeitam alegremente a dominação. “Sabem” que o melhor é viver em Novo Mundo ao invés de arriscar algo novo. Nenhuma mudança social em centenas de anos d.F. (depois de Ford).

Note bem. Quando se menciona aqui “gerenciamento técnico-científico” é, na verdade, o fim da ciência como libertadora/indagadora fonte de pesquisas e sua transformação em dominação instrumental a serviço das castas superiores dos “alfas”, classe dominante no Novo Mundo. Da mesma forma que a arte foi transformada em reprodução despolitizada para o prazer humano (sem incômodos, sem questionamentos!) e a religião é apenas um “comprimido de soma” que bioquimicamente resolve qualquer pontinha de tristeza ou angústia que possa atravessar os controles pavlovianos-comportamentalistas — a hipnopedia — em que todas e todos estão condicionados em Novo Mundo. Nesse sentido, o capítulo Dezesseis é uma obra prima.

Sorria! Você é feliz na civilização. Não leia este livro perturbador ou poderá ser banido, ou ainda, acabará como um selvagem shakespeariano bebendo mostarda com água morna, trabalhando e cantando no seu eremitério.

Por Marcio Sales Saraiva. Obvious.

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