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Como ensinar Filosofia?

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A reflexão das condições de transmissibilidade da Filosofia

A Filosofia enquanto disciplina da educação básica vive constantemente em crise no Brasil. Não só pelos motivos de sempre, como sua utilidade para a vida prática do estudante, principalmente dentro da visão pragmática em nossa sociedade da educação preparadora do ser para o mercado ou, com um pouco mais de clareza, a construção deste ser enquanto produto de consumo ou matéria-prima de uma sociedade que precisa fazer dinheiro.

Naturalmente, muito antes da consideração dessa sua crise “institucional” que gera a pergunta básica, objeto de estudo de grandes mestres – para que serve a filosofia? – existe a crise local, dela mesma, que por sua própria natureza se instala, principalmente na reflexão dos professores. 

Até que ponto a Filosofia se enquadra como disciplina, na visão de um produto a ser entregue a seus alunos?

Quais são os conteúdos fundamentais para a sua compreensão?

Qual é a forma de avaliar sua apreensão?

Enfim, qual é o seu produto final?

Uma grande contribuição vem do pesquisador professor Celso F. Favaretto no artigo Sobre o ensino de Filosofia. Ali o autor não só tece considerações da crise, mas contribui na reflexão, posicionando a Filosofia no contexto das disciplinas, sem, contudo, nivelar seu ensino à práxis das demais na grade. Considera que o trabalho do professor está em selecionar o recorte dos conteúdos na história da Filosofia ou em obras de filósofos, com o objetivo de construir com os alunos o que chamou de uma linguagem de segurança, como uma ferramenta segura para ser seu ponto de partida na compreensão do mundo, para impedir que ele seja presa fácil de retóricas contaminadas de opiniões falaciosas ou quaisquer outros artifícios de convencimento. 

No trabalho chamado exercício operatório, com textos filosóficos ou não (podem ser matérias jornalísticas, de política, de arte, etc.), com uma leitura filosófica, cabendo ao professor transformar a aula num laboratório de exercício intelectual.

Despertar o interesse do aluno para o conhecimento dessas ferramentas é o desafio inicial. 

Numa sociedade em que as coisas tendem a chegar cada vez mais prontas para o consumo, inclusive os conteúdos intelectuais, a partir das ferramentas de busca da internet, ensinar a análise e compreensão de termos, identificar teorias, ideologias abaixo da superfície, discursos fáceis e o silogismo dos ingênuos sempre fascina os jovens. 

Para isso, o professor precisa penetrar cada vez mais o universo de seus alunos, aproximando os exercícios operatórios da sua realidade, sem deixar que sua aula venha a se tornar um local de debate exclusivamente de experiências. A experiência, segundo Favaretto, deve ser o pontapé inicial que propiciará ao professor caminhar pelas várias hipóteses do entendimento, ajudando seus alunos a articular pontos relevantes, impor relações, inscrever signos, etc., para transitar entre a experiência individual e a representação social. 

Na experiência prática do dia a dia tenho percebido que o professor de Filosofia tende mais ao sucesso, no sentido de encantamento e envolvimento dos alunos, com o trabalho em projetos pedagógicos que articulem o exercício intelectual na elaboração de debates, colóquios e seminários que construam um produto conjunto dos alunos com a escola na maior interdisciplinaridade possível.

Enfim, não trazer um objeto pronto para seus alunos, mas se dispor a construir com eles elaborações necessárias e úteis ao rompimento das cavernas contemporâneas, para que a Filosofia cumpra seu papel de representar “o esforço da razão em compreender o mundo e orientar a ação”. É um caminho para o ensino da Filosofia na educação básica.

Everaldo Barreto é professor de Filosofia

Século Diário. 11.10.2019.

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