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O Xamã, o Sábio Poeta e o Filósofo

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A filosofia, em suas origens mais recônditas, pode ser apreendida como ausência, uma vez que esta philia, pressupõe, de um ou de outro modo, a busca — ou desejo — por algo que já não se detém: a sabedoria.

O XAMÃ

Há um quê de essencial nas ligações entre palavra e realidade, no âmbito das sociedades arcaicas, ou seja, naquelas em que o mito se mantém vivo. As narrativas míticas, desempenham várias funções que, em última análise, possibilitam ao homem dar sentido ao mundo — e à própria existência. O mito traz em seu tecido discursivo o que genuinamente é, na medida em que dá conta do real, de seus primórdios e de sua manutenção. Os grandes feitos dos Entes Sobrenaturais no âmago do sagrado — o Tempo Primordial — instauram o mundo tal qual ele se apresenta. Deste modo, o reviver do mito ab origine é vital, na medida em que reatualizá-lo é permitir que a dimensão beatífica dos primórdios se coloque em meio ao profano, recriando assim o cosmo como da primeira vez. Retomar as narrativas é o que implica, necessariamente, conhecê-las é a forma de perscrutar a origem das coisas, apreendendo não apenas como elas vieram a ser, mas também onde podem ser encontradas e assimiladas em sua excelsitude.

Neste âmbito, põe-se a importância da tradição oral, uma vez que reviver o mito passa estritamente por narrá-lo magicamente. É a palavra que, plena em sacralidade, é capaz de mover o tempo instaurando os primórdios, tornando-se o real, reconciliando o homem com a plenitude primeva. Uma vez engendrada em um todo ritualístico, a palavra tem o dom de fazer o cosmo ser, ciclicamente sempre que o mito é narrado, em uma rememoração que abre a perspectiva intemporal para tudo o que indefectivelmente é. O mito é solidário, pois, da ontologia. Destarte, o poder mágico da palavra é criador, subsumindo em seus próprios meandros o princípio uma ’αρχή (arkhé) e o ser.

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A palavra, constituída de poder, faz-se a própria dimensão do sagrado — o qual é tornado manifesto no mundo — e se instaura como fundamentadora  ontológica  da realidade. Contextualizado desta maneira o discurso, este não é constituído por meros símbolos: há uma identidade essencial entre o narrado e o que ele designa: brota uma coincidência perfeita entre a palavra e a coisa, o que decorre de uma radical superação das tensões entre “signo” e “designado”. Falar, contar as histórias sagradas, é criar, recriar o cosmo tal qual o realizado na origem. Disto se depreende que no processo de reatualização mítica há uma participação capital da palavra como instrumento para este devir  é através dela que o mundo se refaz, magicamente.

A quem pertence a primazia desta palavra-real, que “salta” das origens e instaura o sagrado em meio ao profano? Ao xamã, aquele que é capaz de sondar as dimensões pretéritas, voando por entre as “fibras” do não-tempo e bebendo no vertedouro da realidade. O xamã não explica — ou narra — ele torna o real. Lógos e realidade são uma e a mesma coisa — se é cantada a dança da chuva, eis que chove; se é narrada a origem da moléstia, esta é debelada e o enfermo se salva. Não se estabelece a pergunta entre as relações do discurso com a realidade, de tal modo que não faz sentido se colocar o problema da verdade. A palavra mítico-arcaica nada diz sobre o que é; ela, simplesmente, é.

O SÁBIO POETA

Se as civilizações arcaicas constituíram xamãs, os gregos “fomentaram” sábios. A sabedoria, assim como as narrativas míticas, são genuínos fenômenos da cultura, constitutivas do modo segundo o qual o povo se inscreve em sua realidade. A filosofia pré-socrática emerge em um mundo de sábios, um berço de poetas. Estes são os homens que sabem, detentores de ’αληθέια (alethéia), proclamadores da verdade. Homero, o grande educador da Grécia, sintetiza toda uma tradição de arautos da sabedoria, ou mestres da verdade, uma vez que seu canto traz o veraz de um tempo originário, divino e heróico. Seus olhos se voltam para as dimensões pretéritas, os grandes feitos de outrora. O vate possui a capacidade de receber uma revelação do passado, perscrutando-o com clareza, o que lhe permite proclamar algo acerca daquilo que é mirado, uma narrativa sobre o genuíno real, configurando-se assim uma operação no âmbito da verdade. À visão do poeta é necessária a reminiscência  a ’ανάμνησις (recordação) , ou seja, colocar-se sob os auspícios da deusa Μνημοσύνη (Memória), filha de Urano e Gaia, mãe das Musas (Μοűσαι). A memória poética é, assim, uma dádiva.

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Aqui começam a ser demarcáveis digressões em relação às sociedades arcaicas. O mito na Grécia manteve algumas características destas últimas, como a primazia dos grandes feitos e uma certa importância do Tempo Mágico. Por outro lado, na Hélade dos séculos VIII a VI a.C., as narrativas já haviam perdido a característica arcaica de manifestação do sagrado em meio ao profano: os poetas já não poderiam estar presentes no tempo primordial da origem, ao contrário do ocorrido nas culturas nas quais o mito se mantém vivo. Entre os helenos o panorama é díspar: revelam o sagrado pela inspiração  desde a criação do mundo, como na Teogonia , sem que o aedo, durante a prática de um ritual, possa viver os grandes feitos do princípio. O que entra em jogo é apenas a lembrança e não mais o vôo xamânico às épocas primevas, exteriores ao próprio tempo ordinário.

Mas é preciso reconhecer que este não é o único problema: se por um lado as origens perderam sua preeminência, por outro a potência restituidora deste sagrado — a palavra mítico-arcaica — não desempenha um papel de força criadora do real. Assim pois que o vaticínio do aedo não é capaz de engendrar o ser: ele narra os grandes feitos, suas palavras se referem a uma realidade pretérita, obviamente inquestionável, instaurando a verdade, uma dádiva das Musas ao poeta, tornando-o um sábio, aquele que sabe. O vate conta — e canta — os grandes feitos: por sua memória, tornada potência em seus vocábulos, todo o ocorrido é trazido à luz — histórias de deuses e homens. Sua palavra é mágico-religiosa. Uma verdade não acessível ao comum dos mortais — transparece, se desvela, referindo-se ao manifesto. Palavra e real se ligam pela verdade, não são mais unívocas, havendo, outrossim, uma via dupla que não se questiona. O poeta, um sábio, diz sobre o real o que ele realmente é, sem no entanto dizer a realidade — proferindo “coisas” —, prerrogativa intangível do xamã. Se a palavra distinguida do real, em um primeiro momento ainda se refere ipsis litteris a este — havendo assim sentido em se falar na verdade —, há todo um processo de esmaecimento da poesia, o qual passa por Hesíodo — para quem as Musas podem falar mentiras ou verdades —, “desabrochando” em Simônides de Céos, rapsodo helênico do século VI a.C. que criou poemas em troca de pagamento, desvirtuando completamente o caráter divino e inspirado da poesia. Esta nova conjuntura acabou por culminar com o esvaziamento da palavra mágico-religiosa — neste mundo ambíguo da mitologia grega — estabelecendo-se a definitiva cisão e a possibilidade de se interrogar sobre as ligações da palavra com a realidade. Neste novo âmbito, quem requer a primazia da verdade? Entra em cena um terceiro “ator”: o filósofo.

O FILÓSOFO

No caudaloso processo de parturição da filosofia, a verdade, originária da memória e materializada na palavra, já não é mais o vaticínio inconteste do poeta, um homem da verdade. Se torna perceptível, entre os primeiros pré-socráticos, um tom de dúvida — e, por vezes, escárnio — em relação às palavras dos aedos. Tal panorama inovador e estranho em relação à poesia, abre a possibilidade de críticas ao mister destes sábios  algumas das quais muito contundentes , como as dirigidas a Homero e Hesíodo, nos fragmentos de Heráclito e Xenófanes. Os pré-socráticos impõem críticas aos expoentes máximos da poesia grega, acusando-os de faltar com a verdade e de serem “mentirosos”, ao atribuir aos deuses toda a sorte de falcatruas e maldades inerentes ao agir humano. Ato contínuo, coloca-se a seguinte questão: com que autoridade é erigida a crítica destes pensadores originários? Em verdade, pode-se compreender este panorama, na medida em que o discurso filosófico insinua-se por entre o “vácuo” outrora completamente preenchido pelas narrativas míticas helênicas. Neste âmbito surgem personagens “interessantes” como: Pitágoras de Samos, figura lendária que concebia a existência de uma alma racional, divina e imortal, capaz de se elevar e apreender a verdade — proposições matemáticas atingidas pela razão — refutando a possibilidade de conhecer através da experiência ordinária de todos os dias; Heráclito de Éfeso, permite trazer a verdade, eterna, como uma realidade objetiva que se basta —, manifesto em si mesmo e veiculado em fragmentos marcadamente oraculares; Parmênides de Eléia, que recebeu a verdade — ’αληθέια — da Deusa, tendo sua filosofia como uma dádiva, conhecimento revelado e intransgredível, tomando contornos característicos de um dogmatismo fervoroso; e Empédocles de Agrigento, com seu tom profético no poema As Purificações (Καθαρμοί), proclamando o que realmente importa e agindo como um homem divino.

Estes inspirados reclamam para si mesmos uma primazia sobre a verdade que é um denso fruto da inspiração — não é de estranhar que, para muitas tradições, sejam “tidos” também como sábios. Suas linguagens — no que restou de seus escritos — e muito das suas posturas, colocam-nos como homens especiais, possuidores de um saber incomum de origem revelada, quer da profundidade da alma — Pitágoras e Heráclito —, quer como produto da inspiração divina — Parmênides e Empédocles. Esta ascese relaciona-se à contemplação — ou apreensão — de uma verdade manifesta a iniciados, ou seja, àqueles que sabem, os sábios. Tal perspectiva expõe a face inspirada da filosofia, tornando estes pensadores muito afeitos ao poetas. Desta sorte, estes pré-socráticos podem ser apreendidos como um “estado intermediário” entre o sábio e o filósofo, em uma perspectiva na qual a palavra e o real dissociaram-se irremediavelmente, uma vez que aquela perde a eficácia consubstancial às sociedades arcaicas. As lídimas especulações de um Parmênides não são recebidas, sem esforço, como dádiva dos deuses: serão, outrossim, questionadas, atacadas e reformuladas, expondo-se a fragilidade das relações do discurso com aquilo que é. O λόγος do filósofo recai sobre a elaboração de um pensamento abstrato, laico e intrinsecamente discursivo, apresentando-se, em vários momentos, como claramente “dissociado” de uma realidade contra a qual deveria ser contraposto. Tal secularização discursiva parece ter sido capital para uma decisiva liberação da palavra-diálogo, status quo permissivo e necessário ao “aparecimento” da indagação filosófica. Em que medida? Na emergência de novas relações entre o real e a palavra, permitindo o surgimento da atitude típica do filosofar: a dúvida, a pergunta, a interrogação acerca do que se põe no manifesto.

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Tais são algumas das cores que compõem as origens da filosofia: as manifestações, os sintomas, de uma derrocada das estritas ligações entre λόγος e ύσις. De outro modo, ressente-se disso: alia-se uma tentativa de descrever — ou falar — sobre o real, mas com um discurso já combalido em relação à verdade — ainda que se pretenda a ela. A única certeza, a partir de então, é a perene incerteza sobre a conexão entre o que se diz e o que realmente é.O sonho é ver as formas invisíveis Da distância imprecisa, e, com sensíveis Movimentos da esperança e da vontade, Buscar na linha fria do horizonte A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte — Os beijos merecidos da Verdade. Fernando Pessoa

Referências:

CAMPBELL, J. Mitos, Sonhos e Religião. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001. p. 139.

SIQUEIRA-BATISTA, R. O espírito helênico: o poeta, o filósofo e o médico na Grécia antiga. Revista Brasileira de Filosofia, 52(212): 465-484, 2003.

Por Ricardo Ferreira. Obvious.

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