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Arte e filosofia

Davi, de Michelangelo.
Davi, de Michelangelo.| Foto: Wikimedia Commons

Quando me chamam de artista, respondo que sou arteiro. Poderia até, com boa vontade, dizer-me artesão. Afinal eu faço arte, é bem verdade. Várias artes, até: escrevo, toco alguns instrumentos, desenho… Mas o que é que me faria ser realmente um artista? A pergunta me parece um tanto ou quanto parecida com outra, que também me dá uma certa gastura: quem é filósofo? Eu sou professor de filosofia, e escrevo umas coisinhas aqui e ali. Mas pra filósofo, a meu ver, faltaria ainda comer muito feijão.

Ao contrário do que dizem os dicionários, a arte não é a técnica. A arte verdadeira é achar o Davi que estava oculto dentro de uma enorme pedra de mármore e, como Michelangelo (inegavelmente um artista), meramente tirar a pedra extra. O trabalho de retirar o que não é Davi é um trabalho manual, um trabalho braçal que em última instância poderia em tese até ser terceirizado. Uma técnica, por certo, é necessária. Mas sem achar o Davi ali, de que adianta saber tirar a pedra do jeito que se quer? A técnica, ou, antes, a falta de técnica é apenas um obstáculo para o artista. Dominar a técnica é simplesmente retirar o obstáculo; não é fazer arte. Há músicos com técnica virtuosística, mas que não são verdadeiros artistas. E há outros que só conseguem fazer poucos movimentos, mas que inegavelmente o são. Um João Gilberto, por exemplo, com sua voz pequena, conseguia “achar o Davi ali embaixo”, e acaba sendo infinitamente superior a um Milton Nascimento, com sua voz de anjo.

Já na filosofia a questão é um pouco parecida. Dizem alguns que a inteligência é a capacidade de estabelecer correlações que os outros não veem. Essas correlações, na verdade, são invisíveis para os demais como o Davi me seria invisível debaixo do mármore. Temos aí uma questão filosófica, aliás: o Davi estava realmente escondido ali, ou foi Michelangelo que o “inventou”? Aristóteles diria que estava, sim, em potência. Ele não estaria em outra pedra, cuja composição e cuja forma dos veios talvez não permitisse sua “extração” pelo artista; já naquela pedra ele estava. E o mesmo ocorre com as correlações que a nossa inteligência descobre: elas já estavam ali, nós é que não a víamos. O filósofo, assim, é um pouco como o músico, o escultor, ou quem mais for, descobrindo o que sempre esteve ali. Ligando as “notas” de uma maneira que estava perfeitamente prevista por todos os tratados, mas que ninguém jamais ligara.

E é este o problema da falsa arte, da má arte e da má (ou falsa) filosofia: são meras invenções. Platão dizia que a arte é sempre uma imitação dum Belo que existe apenas no mundo das ideias; toda arte é cópia. Pra piorar, toda arte é cópia duma outra cópia, na medida em que a hipnotizante beleza da Moça com Brinco de Pérola, por exemplo, da famosa tela de Vermeer, já seria por sua vez uma cópia da mulher ideal, da beleza feminina ideal. Só a música não seria cópia de cópia (isso porque no tempo dele ainda não haviam inventado o sampler). A má arte, como a má filosofia, para logo ali – ao contrário da arte verdadeira, da filosofia verdadeira, não há Davi algum escondido debaixo do excesso de mármore.

A verdadeira arte, como a verdadeira filosofia, consiste numa busca de um transcendental

Um palhacinho chorando (ou um menininho chorando – ambos os quadros são famosos e famosamente cafonas) para na empatia que provoca. Não vai um milímetro além, não aponta para nada doutro, não copia um Belo ideal. É simplesmente uma máquina de provocar empatia barata. De uma certa forma, não há diferença alguma entre o palhacinho triste e a (tristemente) célebre “instalação” artística My Bed, de Tracey Emin. Esta pseudo-arte consistia em uma cama imunda na qual a artista, num momento de depressão, passara quatro dias direto. Foi vendida por mais de dois milhões e meio de libras. Mas para onde a cama da moça aponta? Para lugar nenhum. Nem na moça ela chega.

A verdadeira arte, como a verdadeira filosofia, consiste numa busca de um transcendental. Do Belo, da Verdade. O próprio Davi que se escondia, tímido, dentro do mármore, não era apenas o Davi. Na verdade, nem o Davi era; supostamente seria uma representação do famoso rei judeu, mas, convenhamos, quando se tem uma genitália masculina judaica de todo tamanho feita em mármore, o mínimo que se pode fazer para que ela seja fiel seria circuncidá-la. E isso o artista não fez. Mas mesmo assim o Davi é magnífico, muito mais magnífico que uma reprodução real. Isso porque ele aponta para algo muito maior que ele mesmo, muito maior que a genitália ou o prepúcio de um corpo físico que já se tornou pó há milênios. Ele aponta para o Belo. O Davi de Michelangelo é uma cópia da cópia do belo-homem ideal. Tão bem feita, que provavelmente chega o mais perto que se pode chegar. O artista, que preferia os homens às mulheres, nisso empregou toda a sua capacidade.

E o que dizer de quem, por exemplo, serra ao meio uma carcaça de porco e a imerge em resina transparente, como uma “obra de arte” que já tive o desprazer de ver (e cheirar, porque a resina rachou e – para a alegria do arteiro – começou a vazar chorume de porco apodrecendo)? Para onde aponta isso? Ora, a resposta é evidente. Aponta para o orgulho do artista, que nada tem a ver com o Belo. Aponta para seus problemas (que, como todo mal, na verdade são ausências: falta de amor, talvez). Exatamente como a cama desfeita de dois milhões e meio de libras, ou o palhacinho triste. Ficam ali. Não vão nem um milímetro que seja em direção ao Infinito.

Já a verdadeira arte vai além, como a verdadeira filosofia. Quando me surge um “filósofo” que cria todo um sistema mental perfeito, sem pontas soltas, mas que não tem relação alguma com a realidade, lamento dizer, mas não é filosofia o que ele faz: é um mero jogo de RPG. É o caso da imensa maioria das inúmeras “filosofias” modernas que, presas dentro da mente humana pelo erro inicial de Descartes (que achava que podia ter certeza de sua própria existência enquanto ser pensante, mas precisava de um deus ex machina para ter certeza da existência do próprio braço), constroem elaborados castelos mentais que não encostam no chão. Repito: isso não é filosofia, como não é arte o que não aponta para algo além do meramente humano. Já o filósofo limitado (como todos nós) que cria um sistema que em boa parte corresponde à realidade, a esse podemos sim dar o título de filósofo. É o caso, por exemplo (para tomarmos um exemplo que certamente suscita reações de todo tipo), de Olavo de Carvalho. Suas posições políticas, seus erros, sua relação com quem o contradiz e tudo o mais que se queira atirar contra ele não abala em absolutamente nada o fato de se tratar de um filósofo de verdade. Ele achou o Davi escondido. Já eu? Ai de mim. Quem sabe um dia? Quem sabe passarei de mero pensador (coisa que até o Gabriel se diz ser) a filósofo, de mero soprador de saxofone em artista?

Isso dependeria de eu achar o Davi escondido. O Belo, a Verdade. De ter o tirocínio, o discernimento, a capacidade quase sobrenatural de perceber algo que está realmente ali mas que não está à vista de mais ninguém, e (como alguém que acha um girassol num capinzal e o eleva acima das folhas que o tampavam) trazê-lo a público. Há sempre o perigo de ir um passo além, como o próprio Michelangelo fez ao dizer a outra estátua sua, o Moisés, assim que o concluiu, “parla!”, “fala!”. Pois o Moisés não fala, senão aos olhos. Fazer da arte ou da filosofia algo subsistente em si mesmo, como se não se tratasse apenas de um discernimento dum belo que aponta para o Belo, dum verdadeiro que aponta para a Verdade, é fechar o caminho. Aos demais, contudo, o caminho não está fechado. Um filósofo pode enlouquecer em sua filosofia (Diógenes seria um bom caso), um artista pode se perder em sua arte (e mandá-la “falar”, esquecendo-se e simultaneamente orgulhando-se demais daquilo ter saído de seu próprio trabalho manual), mas sua filosofia persiste, como persiste sua arte.

Já os produtores de “filosofias de vida” (hoje parece que se dizem coach, inglês para “ônibus” e “sofá”) ou de jogos de RPG acadêmicos, os pintores de buldogues jogando baralho e outras tristes imitações do pior que há na má arte e na má filosofia, estes se esqueceram do principal. Afinal, ser humano é ser chamado ao Infinito. Este Infinito está, duma certa forma, presente em toda arte digna deste nome, e é parcialmente descrito em toda filosofia minimamente verdadeira. A arte, seja como objeto de apreciação seja como algo que se faz, é sempre algo que eleva o homem, que o faz ir além. Além da cama suja (por mais cara que ela seja), além do urinol, do falso cachimbo que não ousa dizer o seu nome por saber-se mera imitação.

Ortega y Gasset apontou que a arte moderna de seu tempo (noventa anos atrás) era desumanizada, por buscar uma “arte” pura em que o humano não tinha lugar. Uma espécie de pulo, em que a bela moça com brinco de pérola não serve de modelo. Uma busca de copiar um Belo ideal sem intermediários (nisso, aliás, a estética zen japonesa tem muito a ensinar). Mas hoje até mesmo isso se perdeu. A cama milionária é justamente o que ficara no caminho: se Miró tentava reproduzir um Belo puro, sem intermediários, a cama é só o intermediário, sem buscar o belo. Talvez se nela estivesse a Maja de Goya, com ou sem roupas, a coisa ficasse mais próxima do Belo. Mas nem isso há.

São sintomas de uma sociedade doente, na verdade, ambas as buscas. Uma nega (como que a vendo como uma mera cópia a ser pulada) o valor do que vemos e tocamos, a outra dá-lhes um valor absurdo por razões puramente intelectuais (“ninguém vendeu uma cama desfeita com arte antes, eu fiz isso primeiro, então é arte de verdade: vejam, não há cópia aqui!”). Ora, pitombas, a emulação é a maior marca de admiração. Se não copiamos não fazemos. A criança copia seus pais, e o artista, por definição, há de copiar o Belo, especialmente o Belo tal qual o encontramos. Querer arte sem cópia é como querer filosofia sem lógica.

Mas tais são os fenômenos da decomposição duma sociedade. É bem como a decomposição dum cadáver, que dez minutos atrás estava vivo e funcionava de maneira ordeira, com milhões de fenômenos complexíssimos auxiliando-se uns aos outros. Bastou morrer, bastou o corpo perder a sua coerência interna (a que em filosofia chamamos “alma”, e que não tem nada a ver com o Gasparzinho), e pronto: os micro-organismos que digeriam a comida passam a digerir o estômago, as juntas se enrijecem, as células começam a se partir… E o que temos ali não é mais um ser vivo em funcionamento harmonioso, sim uma imensa confusão de seres microscópicos lutando uns com os outros. Quando uma sociedade perde sua coerência interna, o mesmo acontece. E então a arte, a filosofia e o que mais se quiser passa a ser apenas uma forma de canibalismo, de luta intestina, de celebração da célula em detrimento do que um dia fora um corpo. E o Davi, tadinho, ninguém mais o acha dentro da pedra. Fica lá, mudo.

Por Carlos Ramalhete. Gazeta do Povo. 10.10.2019.

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