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História mostra que Brasil não esteve à beira do comunismo nos anos 1960

Bolsonaro durante a abertura da Assembleia Geral da ONU, em Nova York, onde falou sobre o Brasil à beira do comunismo - AFP
Bolsonaro durante a abertura da Assembleia Geral da ONU, em Nova York, onde falou sobre o Brasil à beira do comunismo

Já se falou muitas vezes que o golpe militar de 1964 foi dado para evitar que o Brasil virasse um “nova Cuba”. E que o presidente deposto à época, João Goulart, planejava mudar o regime capitalista para o comunista em aliança com líderes internacionais de esquerda.

Entretanto, não há respaldo na história do país que justifique essa teoria, exceto uma versão difundida à época da ditadura para que o governo se mantivesse no poder.

O presidente Jair Bolsonaro disse em discurso na ONU (Organização das Nações Unidas) que, “nos anos 60, agentes cubanos foram enviados a diversos países para colaborar com a implementação de ditaduras”. “Há poucas décadas tentaram mudar o regime brasileiro e de outros países da América Latina. Foram derrotados”, continuou.

Relatos e documentos históricos colhidos pelo UOL mostram que nunca houve qualquer possibilidade real de revolução comunista ou mudança de regime nos anos 1960, seja por falta de apoio popular, de organização e de grande participação em grupos de esquerda radical ou mesmo pela repressão violenta do Estado.

Uma das versões sempre apresentadas –e confirmadas por militares à época da ditadura– era a de que o presidente João Goulart estaria guinando o país ao comunismo, o que foi contestado por todos os especialistas ouvidos pelo UOL assim como seu filho. “As pessoas na América Latina não são inclinadas ao comunismo. Justiça social não é algo marxista ou comunista”, disse o presidente deposto em entrevista em 1967.

Em conversa com o UOL, João Goulart Filho disse que Jango “nunca foi comunista”. Ele conta que, após a crise de 1961 (com a renúncia de Jânio Quadros), Jango apresentou o plano de metas para a implantação das “reformas de base”. O principal ponto era a efetivação reforma agrária. Como o tema tinha resistência grande de forças políticas conservadoras, Jango acabou se aproximando de alas da esquerda.

“Eram medidas necessárias ao desenvolvimento do empresariado estritamente nacional, com a economia voltada ao mercado interno, protegendo as nossas estatais estratégicas”, conta.

Foi a partir daí que veio a reação dos grandes latifundiários. “Eles usavam a terra não como instrumento de produção ao serviço da questão social, mas apenas como ativos do seu balanço empresarial”, diz.

A ideia de seu pai era realizar uma reforma agrária que distribuiria, na época, 1 milhão de títulos de propriedade “nos moldes das reformas agrárias feitas nos EUA e no México no século 19”.

“A reforma agrária era o pesadelo das elites rurais brasileiras, que não paravam de afirmar, caluniar, denegrir o governo classificando-o de ‘comunista’. A reforma agrária de Jango era uma reforma capitalista”, diz, negando o tom socialista das propostas.

Havia ameaça pós-1964?

Documentos confidenciais do Exército já mostravam que a “ameaça” comunista não se tratava de uma ameaça real. Um informe do SNI (Serviço Nacional de Informações) datado de 9 de outubro de 1964 traz um extenso relato avaliando o comunismo no mundo e admite, entre outros pontos, que “o comunismo internacional perdeu o sentido revolucionário na Europa Ocidental e desgasta-se, dia a dia, nos países da Cortina de Ferro”.

“Cortina de Ferro” era o termo que definia a divisão da Europa Ocidental, capitalista, do Leste Europeu, onde estava a URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, hoje majoritariamente território russo).

No mesmo documento, os militares deixam claro que o “comunismo internacional tem sérias preocupações com o processo de Revolução Brasileira”. O termo revolução, no caso, é usado como substituto de golpe de 1964.

Trecho de documento que cita o perigo do comunismo na América do Sul - Reprodução
Trecho de documento que cita o perigo do comunismo na América do Sul
Imagem: Reprodução.

No texto, os militares analisam que não há clima para a instalação do comunismo por conta das contradições “por demais violentas” do Brasil, afirmando que o povo não aceitaria “pacificamente as influências externas”.

Cita, entre outros pontos, que o nordestino é “integrado à terra, não admitindo modificações”, e que a região amazônica “está praticamente despovoada”.

Historiador: “Nunca houve ameaça aos militares”

Na opinião do historiador e professor da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) Carlos Fico, que há anos estuda o tema, em nenhum momento da história do país houve possibilidade da implantação do comunismo. “Todos os grupos eram desorganizados, muito frágeis. Não havia base, nem apoio popular para a busca dessa implantação”, explica.

O historiador cita que, desde a Revolução Cubana, em 1959, grupos da esquerda e comunistas tentaram em vários países implantar o regime, mas o Brasil não foi um em que isso tenha ocorrido de fato. “Antes do golpe de 1964, essas tentativas foram muito tímidas no Brasil, não houve significativa adesão à opção pela luta armada”, afirma.

“O golpe não veio para coibir uma tentativa efetiva de implantação do comunismo, muito menos o presidente João Goulart pode ser tido como comunista. Ele era no máximo um reformista”, diz, citando as reformas de base que eram o pilar do governo de Jango.

Fico afirma que, depois do golpe –especialmente após do Ato Institucional Número 5, de 1968–, as ações armadas da esquerda revolucionária cresceram, mas sem nunca chegar a ameaçar o poder militar.

Corpo de militante morto pelo Exército no Araguaia, no Pará - Arquivo Nacional
Corpo de militante morto pelo Exército no Araguaia, no Pará
Imagem: Arquivo Nacional.

“Elas eram muito desarticuladas, foram poucas, relativamente inexpressivas, embora sejam sempre muito lembradas. Então, até 1970, essas ações armadas não foram muito relevantes e foram rapidamente reprimidas pela ditadura de maneira brutal e clandestina”, afirma.

Fico ainda se lembra do maior grupo de guerrilha durante a ditadura, a do Araguaia, organizada pelo Partido Comunista do Brasil, no sul do Pará, no início dos anos 1970.

O movimento ficou restrito à região e acabou com a morte e desaparecimento de 62 militantes e camponeses. “A chamada guerrilha não deu em nada e também foi reprimida com brutalidade pelo Exército”, conta.

João Goulart e Maria Teresa Fontella Goulart, primeira-dama, recebem a primeira-dama do Paraguai em fevereiro de 1964 - Arquivo Nacional
João Goulart e Maria Teresa Fontella Goulart, primeira-dama, recebem a primeira-dama do Paraguai em fevereiro de 1964
Imagem: Arquivo Nacional

Por conta da brutalidade do caso, o Brasil foi condenado, em 2010, pela Corte Interamericana dos Direitos Humanos a investigar o caso e empenhar esforços para encontrar os restos mortais dos desaparecidos.

Para Lucas Paolo Vilalta, coordenador da área de Memória, Verdade e Justiça do Instituto Vladimir Herzog, na década de 1950 e início da década de 1960, o país passou por mudanças sociais e culturais que “soavam como transformação ameaçadora” para a classe média e a elite.

“Na época [pré-ditadura] havia artistas, intelectuais e operários comunistas organizados em partidos, que dialogavam com o que acontecia em outros países e que havia uma pressão social —de distintos setores— pela efetivação das reformas de base”, diz.

Ele afirma que, na época, houve uma percepção dessas classes mais abastadas de que havia uma política de distribuição agrária do país que “ameaçava o patrimonialismo brasileiro”.

“A própria pauta desenvolvimentista e a discussão sobre o uso da terra colocava as elites em alvoroço. Mas, com relação à iminência do comunismo em 1964, o que temos é um total despropósito”, diz.

Vilalta lembra que um dos argumentos lembrados é que o país tinha infiltrados da KGB (Serviço Secreto da extinta URSS) no país.

“Pesquisas mas recentes indicam que havia espiões da KGB. Isso não deveria ser uma novidade alarmante para ninguém, dado que o mundo estava dividido e polarizado. Agora há um problema gigantesco de escala ao extrapolar isto traduzindo essa presença como a comprovação fática de que havia um golpe comunista em curso que foi evitado por um contragolpe militar”, afirma.

“Limpeza” no Exército

Segundo a procuradora Eugênia Gonzaga, que foi presidente da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (criada em 1995), um dos detalhes marcantes da ditadura brasileira é que houve uma “limpeza” no Exército logo após o golpe, que retirou os militares que discordavam sobre a narrativa de que comunistas desejavam tomar o poder brasileiro. Com isso, diz, foi mais fácil fortalecer uma intensa propaganda contra o risco do comunismo.

“Entre 1964 e 1968, eles mandaram embora milhares de militares, inclusive de altas patentes. Quem não defendia essa visão era defenestrado. Quem está lá até hoje são as pessoas que defendem isso, como era a visão do [coronel Carlos Alberto Brilhante] Ustra e é a de Bolsonaro”, explica.

Durante depoimentos que ela acompanhou de militares na comissão —da qual ela fez parte entre 2014 e 2019)— e como procuradora, ela lembra ter ouvido muitos falarem da “ameaça do comunismo”. “Ouvi muito que o Brasil iria se transformar em uma imensa Cuba. Acho que incutiram isso na cabeça, e muitos ali acreditavam, se autojustificam com esse argumento até hoje”, relata.

Para a procuradora, a ascensão de Bolsonaro mostra como o Brasil não conseguiu lidar bem com as marcas da ditadura. “Um dos requisitos da justiça de transição é a educação interna das instituições que apoiaram o golpe, e o Brasil não conseguiu fazer isso. O Exército inclusive fez o contrário: deixou em seu quadro pessoas que apoiam essa visão de autoritarismo”, finaliza.

Discurso do Bolsonaro na ONU

Uol. Notícias. 1.10.2019.

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