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A filosofia de The Good Place: os conceitos de moral abordados na série

 (Divulgação/Netflix)

Antes de embarcar na quarta temporada, aqueça o cérebro e relembre os principais ensinamentos morais da série.

Ninguém imaginava que uma sitcom que fala sobre filosofia, ética e moral se tornaria uma das séries mais engraçadas do momento, mas The Good Place chegou à sua quarta temporada fazendo exatamente isso.

Aproveitando que a série é lançada em um estilo mais “vintage” (só um episódio é liberado por semana), dá tempo de relembrar alguns dos conceitos filosóficos e morais complexos que já fizeram parte do roteiro da série.

Imperativo categórico

 (Divulgação/Netflix)

Immanuel Kant é o queridinho de Chidi. É por isso que, durante toda sua vida, o professor de filosofia tentou seguir fielmente o imperativo categórico. De acordo com este conceito kantiano, há uma única regra que define se uma ação é moralmente justificável: a conduta de alguém só pode ser correta se aquela ação puder ser replicada por qualquer pessoa, em qualquer situação, e ainda assim ser considerada positiva.

Em outras palavras, Kant afirma que devemos agir como se cada uma de nossas ações pudesse ser regra para todo mundo. Segundo este pensamento, por exemplo, não existiria mentira justificável: se uma específica pode ser muito ruim, então todas o são. Roubar? Mesma coisa. No imperativo categórico, se algo pode ser errado, sempre será considerado imoral e jamais poderia ser justificado, independente da situação.

Bem, agora imagine que você viva na Alemanha nazista. Uma família de judeus pede para se esconder no seu porão e você prontamente oferece refúgio. Logo em seguida, um agente do governo bate na sua porta e pergunta se você está escondendo algum perseguido político. De acordo com a ética de Kant, não interessa. Agir moralmente quer dizer que você deve sempre falar a verdade – mesmo que isso resulte na morte da família.

São exatamente esses dilemas que perseguem Chidi o tempo inteiro. Uma das consequências disso é a indecisão absurda que o professor sente o tempo inteiro. Sem nunca ter certeza se suas escolhas serão 100% corretas e exemplares em 100% dos cenários… Ele acaba não escolhendo nada, nunca.

Além disso, o personagem é constantemente perturbado pela ideia de mentir. O sétimo episódio da primeira temporada mostra flashbacks de quando ele ainda estava vivo e passou por uma situação complicada. Seu colega de trabalho comprou um par de botas de cowboy extremamente chamativas e horríveis. Para não magoar seus sentimentos, Chidi elogiou as botas, o que fez com que o colega o presenteasse com um par idêntico – e a bola de neve que se desenvolve a partir de aí é verdadeiramente infernal para alguém tão rigidamente apegado à moral de Kant.

Merecimento

 (Divulgação/Netflix)

Em determinado ponto da série, os personagens tem a chance de voltar ao mundo real e mudar suas ações. Eleanor, que nunca havia feito nada que não fosse para ela mesma, tenta finalmente se tornar uma pessoa boa. Durante seis meses ela se compromete com boas ações, mas sente que seu esforço não é recompensado.

Michael diagnostica o sentimento de Eleanor como o desejo por uma recompensa moral — ou, como ele gosta de falar, uma “sobremesa” moral. Esse é o pensamento de que as pessoas boas merecem ser recompensadas de alguma forma, como um tipo de karma. Esse conceito é abordado há tempos por diversos filósofos e não-filósofos, desde Platão até pensadores mais modernos.

No entanto, nem sempre a vida funciona dessa forma. Na série, a “sobremesa” seria passar o resto da eternidade no Lugar Bom, mas isso também vem sendo desconstruído ao longo dos episódios. Mesmo fazendo o bem ao longo de toda a vida, os personagens ainda não conseguem pontos o suficiente para escapar do Lugar Ruim, quebrando a crença idealizada por milhares e milhares de narrativas de que a vida é justa o tempo todo.

Utilitarismo

 (Divulgação/Netflix)

Esse é o conceito moral que mais parece fazer sentido para grande parte das pessoas. No utilitarismo, o conceito de certo e errado não está na ação em si, como pensava Kant – e sim nos seus efeitos. É uma elaboração mais aprofundada da ideia de que “os fins justificam os meios”. Nesse sentido, um comportamento só poderia ser julgado como moral ou imoral depois que suas consequências aparecessem.

O utilitarismo foi proposto pelos filósofos Jeremy Bentham e John Stuart Mill no século 19. Para eles, uma ação é considerada boa quando promove o bem ou felicidade – ao máximo de pessoas possível. Se, mesmo que bem intencionada, uma pessoa acaba provocando o mal, sua ação pode ser considerada imoral.

Faz sentido, não é? A princípio sim — até você assistir ao oitavo episódio da terceira temporada da série. Esse é o momento em que Michael e Janet conhecem Doug Forcett, o ser humano que descobriu o sistema de pontos do “pós-vida” e viveu a vida mais exemplar de todas. 

Ele dedicou toda sua existência ao utilitarismo puro, sempre agindo em favor do bem maior. Ele só come rabanete e lentilha para preservar o meio ambiente, testa cosméticos voluntariamente em sua própria pele para salvar os animais cobaias, e faz um funeral para cada lesma em que ele pisa acidentalmente.

Tudo isso torna a sua própria vida um inferno. Ele é altruísta ao extremo, e acaba não aproveitando os benefícios pessoais de fazer bem ao próximo. Se esse estilo de vida fosse adotado como regra absoluta por todo mundo, acabaria provocando muito mais sofrimento do que bem-estar. 

No livro Tribos Morais, o professor de psicologia Joshua Greene, de Harvard, argumenta que é muito mais fácil convencer alguém a fazer boas ações quando a felicidade do indivíduo é preservada. Abdicar totalmente da felicidade individual em detrimento do bem maior é um exemplo que poucas pessoas estariam dispostas a seguir.

Dilema do bonde

(Divulgação/Netflix)

 Esse é mais um experimento do que um conceito em si. Quem assistiu à primeira temporada de The Good Place com certeza lembra da cena icônica em que Chidi passa repetidas vezes pelo seu pior pesadelo: ser obrigado a tomar uma decisão no experimento do bonde.

O experimento é o seguinte: uma locomotiva desgovernada vem na direção de cinco pessoas que estão nos trilhos do trem. Não há tempo de fugir. A única maneira de salvar o grupo é puxando uma alavanca que muda a direção do trem, mas isso acabaria resultando na morte de outra pessoa (uma só) que está nos outros trilhos. Você puxaria a alavanca?

Antes de queimar os miolos tentando resolver o problema, saiba que não existe uma decisão certa ou errada. O dilema foi apresentado em 1967 pela filósofa Philippa Foot. Ele é uma boa maneira de mostrar que adotar o utilitarismo não é tão simples assim. Segundo a filosofia utilitária, o correto seria puxar a alavanca e matar apenas uma pessoa ao invés de cinco.

Se o problema ainda não parece desconcertante o suficiente, vamos mudar o cenário. Cinco pessoas precisam de um transplante urgente de órgãos. Se elas não receberem o transplante imediatamente, não há dúvidas de que irão morrer. Existe a possibilidade de matar uma pessoa completamente saudável para a retirada dos órgãos e salvar as outras cinco. Nesse caso, qual seria a sua decisão? O dilema ainda permanece o mesmo: sacrificar uma pessoa em detrimento de cinco. Só que dessa vez é ainda mais difícil pensar em uma solução.

A série só mostra como a filosofia — assim como a vida — é bem mais complicada do que parece.

Superinteressante. 30.9.2019.

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