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O contrato secreto de Freud

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Na passada segunda-feira assinalaram-se 80 anos da morte de um dos mais influentes pensadores do século XX, o médico austríaco Sigmund Freud. Os primeiros sinais da doença, provocada pela sua predileção por charutos, tinham-se revelado em 1917 mas só em 1923 o tumor no palato se tornou demasiado sério para continuar a ser ignorado. Segundo o seu biógrafo Peter Gay, quando recebeu a visita do seu médico, Freud avisou-o: «Prepare-se para ver algo de que o senhor não vai gostar».

Daí em diante, teve de ser sujeito a várias intervenções cirúrgicas e ficou com a fala afetada permanentemente, mas nem assim prescindiu do hábito de fumar charutos. Graças aos cuidados de que o rodeavam os médicos seus amigos e à sua personalidade estoica, viveria ainda mais 16 anos.

Não foram fáceis os seus últimos tempos. Com a anexação da Áustria pela Alemanha de Hitler, em 1938, a sua casa foi por mais de uma vez revistada por oficiais nazis. Quando o assédio se tornou intolerável, e graças aos esforços do seu amigo inglês Ernest Jones, Freud deixou a cidade onde tinha vivido perto de 80 anos e mudou-se para Londres com um único fito – «morrer em liberdade».

Chegado à capital inglesa nos inícios de junho de 1938, a sua aura de celebridade atraiu uma «horda de caçadores de autógrafos, tolos, loucos». «Pela primeira vez e tarde na vida, tenho sentido o que significa a fama», queixou-se. Uma das visitas que recebeu em casa foi do casal Leonard e Virginia Woolf. A escritora descreveu-o sem piedade como «um homem muito velho, encolhido e contorcido: com olhos brilhantes de macaco».

Aos 83 anos, a doença tornava-se cada vez mais penosa e patente, mas Freud aceitava-a corajosamente e sem uma queixa, prescindindo dos analgésicos. Em agosto de 1939, até o seu cão, um chow-chow, começou a evitá-lo. Era o sinal de que o fim estava muito próximo.

Até que, a 22 de setembro, ‘acionou’ o contrato secreto que tinha firmado com o seu médico muitos anos antes. No dia em que o seu corpo falhasse a tal ponto que sentisse que a vida já não valia a pena, ser-lhe-ia administrada uma dose que lhe induzisse o sono eterno. No dia 23 recebeu a dose derradeira. «Os que conheceram o horror dos sofrimentos que suportou, sofrimentos que atingiram um ponto de intensidade indescritível nestes últimos meses, devem sentir um grande alívio», disse o seu amigo e discípulo Ernest Jones na oração fúnebre. «Seria impossível desejar que vivesse um só dia mais enquanto a sua vida estava reduzida a uma única agonia pessoal».

As palavras encontram-se transcritas no terceiro e último volume da extensa biografia de Freud que Jones começou a escrever em 1946. Um mestre não podia desejar melhor homenagem.

Por José Cabrita Saraiva. Sapo. 30.9.2019.

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