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Nos 80 anos da morte de Freud, olhar se volta à criança

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O psicanalista Sigmund Freud morreu há 80 anos
Psicanalista defende que foco da análise agora deveria ser tratar ainda na infância; desafio, diz médico, é unir psicanálise, psiquiatria e neurociência

A morte de Sigmund Freud completa 80 anos nesta segunda-feira (23), e o primeiro livro do “pai da psicanálise” com interpretações sobre o inconsciente tem mais de um século de existência. O tempo, no entanto, não fez mal à sua obra: psicanalistas garantem que, apesar das transformações nas últimas décadas, o legado de Freud não enfraqueceu. Ao contrário, está ganhando fôlego.

No centro desse debate está a infância – como nas teorias freudianas, que veem nos primeiros anos de vida a semente dos problemas da vida adulta. “Estamos conseguindo entender que situações traumáticas afetam o DNA”, diz Kalil Duailibi, professor de psiquiatria da Universidade de Santo Amaro (Unisa) e pesquisador do tema. 

Estresse crônico (como abuso e negligência) é capaz até de diminuir a resposta de adultos a antidepressivos, conforme mostra um estudo de 2016 realizado com mais de 700 pessoas.

A conclusão foi que aquelas pessoas que sofreram traumas entre 4 e 7 anos tinham chance quase duas vezes menor de responder bem ao tratamento. Pesquisas também associam traumas infantis à diminuição do hipocampo, área do cérebro relacionada à memória e que também é afetada pela depressão.

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Nesse cenário, Dualibi defende a união entre psicanálise, psiquiatria e neurociência. Ele brinca que, antes da ascensão da neurociência, havia uma psiquiatria “sem cérebro”.

Depois dela, praticou-se uma psiquiatria “sem alma” (que delegava aos remédios a solução para os transtornos mentais). Agora, ele acredita na proximidade de um equilíbrio: “Vejo uma retomada na busca por psicoterapia, com uso de remédio quando é necessário”, diz.

Para Ignácio Paim, diretor científico da Federação Brasileira de Psicanálise, a tendência é que psicanalistas olhem com cada vez mais atenção para o tratamento na infância. 

“A grande temática contemporânea são os traumas da infância. A psicanálise vai trabalhar de forma cada vez mais intensa as relações precoces, de pais e filhos”, afirma Paim. 

A presidente da Associação Mineira de Psicanálise, Gisele Parreira, reflete que o entendimento sobre os efeitos de uma criação problemática deveria, inclusive, inspirar políticas públicas. 

“Essas noções poderiam nortear ações para dar cobertura protetora a mães pelo primeiro ou segundo ano dos filhos, por exemplo. Seria uma atitude preventiva para a saúde mental. Nosso sistema de saúde pensa em tratar a doença, e não a situação em geral para que não haja doença”, afirma Gisele.

“Essa ideia do cuidado na infância é uma contribuição que a psicanálise trouxe e é aceita pela ciência, mas a sociedade ainda não acordou”, diz a psicanalista. 

Polarização

Se tivesse começado a publicar em 2019, Sigmund Freud seria considerado tão polêmico quanto foi no início do século XX, acredita Ignácio Paim, diretor científico da Federação Brasileira de Psicanálise. “Desde que surgiu, a psicanálise vai na contramão da cultura, porque a ela cabe interrogar”, analisa. 

A polarização política, por exemplo, não escaparia à análise de Freud – de fato, não escapou. “Essas polarizações já estavam em um conceito de 1930: os homens se destroem pelo narcisismo, pelas pequenas diferenças. A lógica é que, se o outro é judeu e eu não, ele não serviria por ser judeu, então vou exterminá-lo”, completa Paim.

Ele lembra ainda que a psicanálise é essencialmente contrária a ditaduras e à repressão da liberdade – não à toa, seus livros foram queimados pelo exército nazista. “A psicanálise jamais poderá ser aliada a regimes ditatoriais, porque trabalha para que os sujeitos sejam mais livres e tenham mais escolhas”. 

Ele também reforça como ela é importante na superação de preconceitos: “Se alguém fica incomodado com uma pessoa homossexual, tem que se perguntar ‘Por que isso me incomoda? Falaram que é errado, mas por quê?’”. Ele explica que a psicanálise reflete como o incômodo atribuído a ações de outras pessoas pode ter origem em quem se sente incomodado. 

A presidente da Associação Mineira de Psicanálise, Gisele Parreira, destaca que obras como “O Mal-Estar na Civilização”, de 1930, que descreve o embate entre os impulsos individuais e a vida em sociedade, são perfeitas para o presente.

“É para este momento, esta inversão de valores, para a crise na sociedade como um todo. A gente vê tudo isso acontecendo, e eu penso que Freud está atualíssimo”, diz.

Frases

“Sigmund Freud abriu o mar Vermelho do que a neurociência está comprovando.”

Gisele Parreira
Presidente da Associação Mineira de Psicanálise 

“A psicanálise pergunta ao sujeito: ‘Quem sou eu? Qual é o meu desejo?’. Ela quer que o sujeito viva melhor.”

Ignácio Paim
Diretor científico da Federação Brasileira de Psicanálise

O Tempo. 22.9.2019.

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