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“Só a filosofia para tornar o mundo um pouco melhor”

A beleza da boa discussão filosófica está no fato de que premissas, argumentos e reflexões devem ser publicamente abertos ao exame crítico e à discordância refletida. Diferente da experiência religiosa, por exemplo, que se apoia na decisão existencial de uma vida interior capaz de aceitar os dados da revelação sagrada, a atitude filosófica se fundamenta no árduo, constante e paciente trabalho do diálogo refletido em comunidade, do confronto racional e do embate vivo de crenças. Resumindo, a filosofia se torna uma atividade “política” por excelência.

Historicamente, há uma forte conexão entre o nascimento da filosofia e o nascimento da polis democrática na Grécia Antiga. A filosofia nasceu em meio à “crise da soberania”, como explica Jean Pierre Vernant, onde houve “uma extraordinária preeminência da palavra sobre todos os outros instrumentos do poder”. E “palavra”, aqui, não mais como “o valor atribuído aos ‘ditos’ do rei quando pronuncia soberanamente” uma lei, não mais como “o termo ritual, a fórmula justa” de um ambiente litúrgico. A “palavra”, no contexto do nascimento da polis democrática, nasceu como “debate contraditório, a discussão, a argumentação”. Não se trata de mera coincidência a filosofia nascer na Grécia e não na Pérsia ou no Egito.

Política significa, antes de tudo, o poder da discussão, do confronto de ideias e do diálogo constante, do exercício tênue e persistente da razão. Óbvio que me refiro aqui à política no sentido de vida que se realiza em comunidades democráticas formadas por seres racionais, passionais e livres, e não no sentido de pura expressão do poder como exercício do domínio bruto do mais forte em relação ao mais fraco. Só tiranos são tarados pela política como relação de poder, só eles vivem pela consagração da força e pela glória de serem cultuados por uma multidão de gente submissa, pois só eles querem o poder custe a alma que custar.

Nessa atmosfera saturada por inabaláveis certezas políticas, só o exercício filosófico pode ajudar o mundo a se tornar um pouco melhor.

Filósofos – pelo menos os da tradição que eu admiro –, pelo contrário, contentam-se em cultivar a liberdade interior e alguns pequenos prazeres do mundo. Sabem também que a política é a profissão mais trágica e perigosa do mundo. Pensar na morte como exercício espiritual liberta muito mais do que sonhar com o poder. Tirania é escravidão; escravidão no sentido de quem manda e de quem obedece.

Quando reconhecemos os limites de se viver em sociedade essencialmente pluralista, torna-se inevitável saber conviver com pessoas que pensam e agem em conflito com nossas expectativas, que desprezam o nosso perfil moral e atacam nossas crenças religiosas. Melhor assim. Forçar o contrário mediante o uso de forças coercitivas do Estado é politicamente perverso. Se o Estado moderno tem uma função, não é a de ser consagrado pela soberania edificante de uma religião específica. Em termos morais e até religiosos, melhor deixar as pessoas resolveram suas desavenças livremente. E a filosofia tem uma função primordial nisso.

O fato é que não dá para realizar um exame crítico público acerca da validade de premissas estabelecidas pela experiência religiosa. O acesso à experiência religiosa de outra pessoa é necessariamente “mediado” pelo conjunto simbólico transmitido por testemunhos orais ou textuais acumulados ao longo de uma determinada tradição histórica. Movimentar-se no interior de uma comunidade de fé é diferente de se movimentar no exercício da reflexão filosófica. Não são atividades contraditórias, porém são distintas. Com diz São João Paulo II, “a fé e a razão (fides et ratio) constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade”.

Não acho que a fé seja um problema de “foro íntimo” que deva ficar limitado à minha vida privada. Há um caráter público da vida religiosa que não pode ser silenciado por nenhuma força política.

Confesso ser uma pessoa profundamente religiosa — devoto de Santo Agostinho, São Bento e Santa Catarina. Eu defendo o direito inalienável de poder anunciar publicamente minha fé no evangelho do Nosso Senhor Jesus Cristo. Noutras palavras, não acho que a fé seja um problema de “foro íntimo” que deva ficar limitado à minha vida privada. Há um caráter público da vida religiosa que não pode ser silenciado por nenhuma força política. Contudo, não quero o apoio do Estado moderno, esse monstrengo soberano, devorador de almas, o pequeno deus mortal dos gananciosos, apropriando-se de uma religião específica para chamar de sua. Estado e Igreja estão muito bem separados do jeito que estão, pois o que o próprio Deus separou os homens não devem unir.

Toda vez que o Estado se intrometeu nisso, o resultado foi catastrófico. Há um duplo sentido na experiência social da fé: adesão e renúncia. Adesão a Cristo e renúncia ao príncipe do mundo. Como fiéis, devemos participar (digo, nós, os crentes) como membros do “povo de Deus” pela fé. A fé em um Deus que morreu todo estropiado na Cruz, um Deus soberano que se fez miserável neste mundo para reinar lá no alto. O Estado, cidade dos homens movida pelo amor próprio, ganância e egoísmo, é resultado de uma tentação fugaz e perigosa quando fala em nome de valores eternos.

O caso da filosofia é diferente. Em termos de experiência pública secular, nada mais mundano do que o exercício filosófico, por isso nada mais adequado à polis democrática do que a promoção do debate filosófico. A filosofia só faz sentido enquanto exame crítico que se movimenta no confronto permanente de ideias. Nessa atmosfera saturada por inabaláveis certezas políticas, só o exercício filosófico pode ajudar o mundo a se tornar um pouco melhor – nunca suficiente para nossa redenção, que espero vir apenas lá do alto, mas necessário para frear a fé cega no Estado e seus apóstolos.

Por Francisco Razzo. Gazeta do Povo. 11.9.2019.

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