Escrever Para Não Enlouquecer – Por Neemias

Esses dias uma palavra ficou martelando na minha cabeça:
serenidade.
A culpa foi do presidente da Ordem dos Advogados do Brasil no Paraná, Luiz Fernando Pereira.
Em uma entrevista, ao ser perguntado sobre o maior conselho de vida que já recebeu, respondeu:
O maior conselho que recebi, sempre reiterado pelo meu pai, era: serenidade, meu filho. Ele achava que eu era muito explosivo, e o tempo foi me tornando mais parecido com esse conselho.
Aquilo ficou ecoando em mim.
Talvez porque eu também tenha certa tendência ao “modo explosão”. Não no sentido cinematográfico. Ninguém sai andando em câmera lenta enquanto algo explode atrás de mim. Embora emocionalmente, às vezes, pareça.
Sou acelerado.
Ansioso.
Penso rápido.
Falo rápido.
Às vezes rápido demais.
Tem gente que acorda com o som dos pássaros.
Eu acordo como um grupo de WhatsApp sem administrador. Todo mundo fala ao mesmo tempo, surgem discussões imaginárias, memórias constrangedoras de 2009 e pensamentos aleatórios às 6h12 da manhã do tipo:
“Mas e se a vida for uma simulação?”
E nem escovei os dentes ainda.
Por isso aquela palavra ficou ressoando.
Serenidade.
E o pior:
eu sempre admirei pessoas serenas.
Aquelas criaturas calmas. Pessoas que respiram antes de responder. Que conseguem ouvir críticas sem imediatamente imaginar uma discussão, uma vingança filosófica ou uma fuga espiritual para o Himalaia.
Essas pessoas existem.
Inclusive, ironicamente, julguei errado uma delas.
Curiosamente, quando conheci o presidente Pereira em um evento da OAB/PR durante a campanha de 2024, minha primeira impressão foi pensar:
“sereno demais para esse cargo.”
Mais uma vez julguei o livro pela capa.
Votei nele naquele ano e, depois, acompanhando seu trabalho, percebi algo importante:
serenidade não é fraqueza.
Na verdade, muitas vezes é justamente o contrário.
Porque manter serenidade em meio a pressão, conflitos, vaidades, urgências e ansiedade talvez exija mais força do que gritar.
Especialmente na advocacia.
Se a pessoa não tomar cuidado, vira um Camaro emocional sem freio descendo a Serra do Rio do Rastro.
Vivemos numa época em que todo mundo reage antes de pensar. As pessoas querem responder imediatamente, opinar imediatamente, atacar imediatamente. O algoritmo recompensa explosão emocional como se serenidade fosse defeito de fabricação.
E talvez seja justamente por isso que ela tenha se tornado tão rara.
Eu mesmo durante muito tempo achei que ser sereno era virar uma estátua budista humana. Uma espécie de monge premium desbloqueado após anos sem boleto e sem rede social.
Hoje acho diferente. Comecei a perceber que serenidade não significa ausência de emoção.
Talvez signifique apenas criar alguns segundos entre o impulso e a reação.
Cinco segundos já salvam casamentos, amizades, audiências e comentários no Instagram.
E isso muda tudo.
Os gregos antigos já falavam sobre isso.
Os filósofos helenísticos usavam a palavra ataraxia para falar sobre tranquilidade da alma. Não era ausência de problemas, mas a capacidade de não ser destruído internamente por cada turbulência da vida.
No fundo, talvez serenidade seja exatamente isso:
aprender a governar a si mesmo antes de tentar governar o mundo.
E confesso:
ainda estou aprendendo.
Às vezes minha mente continua parecendo um documentário da Netflix narrado por alguém que tomou café demais.
Mas sigo tentando.
Aliás, achei genial quando, perguntado se acreditava em Jesus Cristo, respondeu ser “agnóstico… graças a Deus”.
Talvez aí exista outro traço da serenidade:
a capacidade de tratar até temas profundos com leveza, inteligência e humanidade.
Inclusive, essas reflexões aparecem bastante no meu livro Filosofia Helenística com Humor: Um Guia Leve e Divertido Para Viver Com Mais Sentido (Amazon / UICLAP), onde tento traduzir os ensinamentos dos filósofos gregos para a vida moderna com humor, leveza e aplicações práticas.
Porque talvez os gregos já soubessem algo que estamos esquecendo:
num mundo viciado em velocidade, a serenidade pode ser uma das formas mais sofisticadas de inteligência.
E agora descobri outra coisa curiosa:
café com uma pitada de cacau de manhã parece ajudar na serenidade.
Mas isso é outra história, graças a Zeus…
📖 E não deixe de ler nosso conteúdo anterior:
E não se esqueça: Sábado, nossa coluna “Escrever para Não Enlouquecer” fala sério — mas só porque o universo exige equilíbrio. Segunda a gente volta com humor para os dias difíceis.

⚡ Neemias Moretti Prudente, sereno em construção.





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