Os pensamentos simplesmente aparecem na nossa cabeça.

Você não agenda um pensamento para às 03h57 de uma segunda-feira.
Ele chega.
Senta.
E ainda acha que manda na casa.

Gostamos de acreditar que pensamos os pensamentos.
Mas, na prática, muitas vezes parece que os pensamentos é que pensam a gente.

Foi aí que comecei a desconfiar de uma coisa:
talvez exista um algoritmo muito mais antigo que o do Instagram.

Eu chamo isso de orgoritmo.

Todo mundo odeia os algoritmos das redes sociais.
“Manipulam”, “controlam”, “sabem demais”.

Mas sejamos justos: quando o algoritmo do Instagram apareceu, a vida já rodava em modo automático fazia milênios.
O algoritmo só chegou atrasado — e com Wi-Fi.

Antes dele já existia o orgoritmo:
genética, família, infância, traumas, cultura, escola, religião, capitalismo, boletos e aquele parente que estragou o Natal de 1998.

Você acha que escolheu seus gostos?
Não escolheu nem o DNA, quem dirá o gosto musical.

E tem mais uma notícia estranha:
talvez nem seus pensamentos sejam exatamente seus.

A gente gosta de dizer que “pensou” alguma coisa.
Mas, sejamos honestos: o pensamento simplesmente aparece.

Você está tomando café…
ou uma cerveja
e puf — surge uma ideia.
Depois outra.
Depois mais uma.

Você não fabricou aquilo numa oficina mental.
Você recebeu.

Nikola Tesla dizia algo ainda mais provocador:

“Meu cérebro é apenas um receptor. No Universo existe um núcleo do qual obtemos conhecimento, força e inspiração.”

Ou seja: talvez a mente humana seja menos um criador e mais um rádio cósmico com problemas de sintonia.

Isso explicaria muita coisa.
Inclusive algumas opiniões na internet.

No fundo, o algoritmo digital só copiou o modelo do universo:
repetição, padrão, previsibilidade… e uma pitada de caos para continuarmos acreditando que mandamos em alguma coisa.

Você planejou uma vida.
A vida executou outra.
E ainda chamou isso de “processo de amadurecimento”.

A virada acontece quando o personagem percebe que é personagem.
Não para sair do jogo — isso é fantasia —
mas para jogar com menos desespero.

Curiosamente, o próprio algoritmo ajuda nisso.
Ele exagera tudo: comparação, estímulo, informação, ansiedade.
Até que o ego cansa.

E quando cansa… algo desperta.

Nada místico demais.
Só uma lucidez silenciosa que sussurra:

“Talvez eu não precise controlar tudo.”

Se o orgoritmo da vida já está rodando desde antes do Wi-Fi,
talvez a única liberdade real seja não levar o roteiro tão a sério.

Porque, convenhamos:
se somos personagens

rir do algoritmo do universo
é o mínimo de autonomia que ainda nos resta.

Talvez o problema não seja o algoritmo das redes.
O problema é descobrir que a vida inteira sempre rodou em modo algoritmo.

Curiosamente, os filósofos helenísticos já refletiam sobre controle, destino e tranquilidade da mente muito antes do Wi-Fi existir. Talvez por isso eu esteja explorando essas ideias — com um pouco de humor — no meu livro sobre Filosofia Helenística com Humor: Um Guia Leve e Divertido Para Viver Com Mais Sentido [Amazon / UICLAP]

📖 Não deixe de ler nosso conteúdo anterior:

E não se esqueça: Sábado, nossa coluna “Escrever para Não Enlouquecer” fala sério — mas só porque o universo exige equilíbrio. Segunda a gente volta com humor para os dias difíceis.

Neemias Moretti Prudente é escritor, advogado, professor, filósofo míscômico e editor-chefe do Factótum Cultural.

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