Segunda-feira é um dia perigoso para pensar.

A pessoa acorda cedo, lembra que precisa trabalhar, toma um café meio fraco, olha para a vida e, sem perceber, começa a fazer perguntas que normalmente só aparecem depois da terceira cerveja — ou depois de pagar o boleto do cartão.

Outro dia eu estava sentado num boteco quando ouvi uma frase que provavelmente vale mais do que muitos tratados de filosofia.

Um sujeito levantou o copo, pensou um pouco e disse:

— Eu não tenho problema com o álcool. Eu tenho problema com a vida. O álcool é só uma forma de fugir dela.

A mesa ficou em silêncio por alguns segundos.

Não porque alguém discordasse.
Mas porque todo mundo ali parecia ter entendido exatamente o que ele quis dizer.

Foi então que outro homem da mesa resolveu aprofundar a questão, como fazem os grandes pensadores da humanidade — principalmente depois da segunda cerveja.

— E qual é exatamente o problema com a vida?

O primeiro respondeu com a serenidade de quem já fez as pazes com o caos do universo:

— Simples. Deus provavelmente não existe, a vida não tem sentido nenhum e a maioria da humanidade vive sofrendo desde que o mundo começou.

Ninguém achou exagero.

Se alguém olhar para a história da humanidade com um mínimo de honestidade, vai encontrar guerras, doenças, injustiças, tragédias, exaustão e boletos vencendo todo mês. Não é exatamente o tipo de cenário que inspira otimismo metafísico.

Foi então que uma senhora da mesa — claramente a intelectual do grupo — resolveu trazer a filosofia para o debate.

— Isso aí já foi dito antes. O tal do Nietzsche falou que Deus morreu.

— Pois é — respondeu o homem do copo — e pelo jeito ninguém avisou o mundo que era para melhorar depois disso.

Outro entrou na conversa:

— Tem também um filósofo que dizia que a vida é basicamente sofrimento.

— Quem?

— Schopenhauer.

— Ah… esse aí claramente nunca tentou resolver nada em repartição pública.

Risadas.

— E tem aquele francês que dizia que o universo é absurdo.

— Camus.

— Isso.

O homem do copo pensou um pouco.

— Faz sentido. Já tentou entender as mulheres?

Mais risadas.

Foi então que o sujeito mais quieto da mesa levantou o copo e disse:

— Olha… se tem alguém que entenderia essa conversa toda, era o Bukowski.

Todos concordaram.

Porque se existe um filósofo não oficial da vida bagunçada, das noites longas e das perguntas sem resposta, esse alguém foi Bukowski.

Ele provavelmente ouviria aquela conversa, daria um gole no copo e diria algo simples:

— A vida é dura. O mundo é estranho. E todo mundo está só tentando sobreviver.

Nesse momento o garçom passou pela mesa.

— Mais uma?

Os quatro responderam quase ao mesmo tempo:

— Claro.

E foi aí que percebi uma coisa curiosa.

Talvez aquela mesa de bar tivesse chegado mais perto da verdade do que muitos seminários acadêmicos.

Não resolveram o problema de Deus.
Não descobriram o sentido da vida.
E certamente não acabaram com o sofrimento do mundo.

Mas chegaram a uma conclusão bastante honesta:

ninguém entende muito bem o que está acontecendo no universo.

Nesse momento alguém da mesa olhou para mim e perguntou:

— E você aí, que ficou quieto esse tempo todo… o que acha disso tudo?

Pensei alguns segundos, dei um gole na cerveja e respondi:

— Olha… se a vida realmente não tem sentido nenhum… pelo menos inventaram o boteco. Relaxem e riam, fi.

A mesa inteira caiu na risada.

E por alguns minutos ninguém falou de Deus, nem de filosofia, nem do sofrimento do mundo.

A gente só ficou ali rindo, tomando cerveja e vivendo.

O que, pensando bem, talvez seja a filosofia mais honesta que existe para uma segunda-feira.


Enquanto eu ouvia aquela aula improvisada de filosofia de boteco, pensei que os gregos antigos provavelmente se sentiriam bem naquela mesa. No fundo, estoicos, cínicos e epicuristas também estavam tentando responder às mesmas perguntas sobre a vida, o sofrimento e o sentido de tudo isso. Foi justamente refletindo sobre essas ideias que escrevi Filosofia Helenística com Humor, um livro onde tento mostrar que, às vezes, a filosofia pode ajudar — e outras vezes pelo menos nos fazer rir da confusão que é existir.


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E não se esqueça: Sábado, nossa coluna “Escrever para Não Enlouquecer” fala sério — mas só porque o universo exige equilíbrio. Segunda a gente volta com humor para os dias difíceis.

Neemias Moretti Prudente é escritor, advogado, professor, filósofo míscômico e editor-chefe do Factótum Cultural.

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