Brasil, o país que obriga você a beber duas cervejas: uma para brindar e outra para suportar.

Todo ano ele chega.
Pontual como boleto, inevitável como sogra e barulhento como obra às sete da manhã: o Carnaval, a única instituição que funciona neste país.

De repente, o Brasil vira um grande acordo coletivo tácito:
ninguém resolve nada, ninguém pensa muito, ninguém lembra do amanhã — porque amanhã só existe depois da quarta-feira de cinzas, quando o rim volta a funcionar e a dignidade reaparece no achados e perdidos.

O sujeito passou o ano inteiro reclamando do salário, do governo, do preço do arroz, do vizinho e do cachorro do vizinho.
Chega fevereiro, ele veste uma fantasia de abacate psicodélico, bota glitter até no CPF e grita:

“É ISSO AÍ, PORRA!”

Isso o quê, meu fi?
Não sabemos. Mas seguimos.

O Carnaval é esse fenômeno sociológico curioso em que o brasileiro esquece que está endividado para lembrar que tem um corpo.
Às vezes um corpo cansado, às vezes um corpo traumatizado, mas ainda assim um corpo — e isso, convenhamos, já é alguma coisa.

Há quem diga que o Carnaval aliena.
Mentira. Alienado o brasileiro já está o resto do ano, tentando entender o extrato bancário como se fosse hieróglifo egípcio.
O Carnaval só suspende o sofrimento por prazo determinado, tipo Netflix da miséria.

E os moralistas aparecem, claro.
Sempre aparecem.

São os mesmos que falam “o povo é alienado” enquanto digitam isso no celular parcelado em 24 vezes, financiado por um banco que patrocina camarote VIP.

Aquela turma que nunca foi feliz, mas exige sobriedade alheia.
Gente que odeia Carnaval não por consciência política, mas porque nunca foi convidada pra festa nenhuma — nem metaforicamente.

Eles dizem:
— “Enquanto você dança, eles roubam!”

Meu zamigo…
Eles roubam na terça, na quarta, na sexta e no domingo de Páscoa. Eles roubam enquanto você trabalha, enquanto você dorme, enquanto você protesta e enquanto você posta textão.
Se dançar fosse o problema, a Suíça estaria falida.

O Carnaval não impede a revolução.
A ausência de projeto coletivo é que impede.
Mas isso dá mais trabalho de explicar do que gritar “fora tudo” com uma cerveja quente na mão.

No fundo, o Carnaval é honesto.
Ele não promete nada.
Não vende salvação, não oferece coaching, não diz que vai mudar sua vida.
É anestesia coletiva.
E, às vezes, anestesia é o que impede a amputação da alma.

Ele só diz:
— “Vem. O mundo é pesado. Vamos fingir juntos que ele não é. Só hoje. E se não estiver, a gente rebola mais forte”.

Porque a vida aqui não é leve.
É boleto com juros, é ônibus lotado, é promessa de campanha reciclada com nova embalagem.
Se o brasileiro não tivesse inventado o Carnaval, já tinha inventado um motim.

E há algo profundamente subversivo nisso tudo.

O cara que passou o ano inteiro sendo invisível, vira rei por uma noite.
A mulher que carrega o mundo nas costas, vira deusa na avenida.
O tímido vira exagero.
O reprimido vira fantasia.
O careta vira purpurina.

É uma inversão de papéis tão escandalosa que até a lógica tira férias.

Mas também tem verdade dura.

Tem gente que gasta o que não tem para parecer o que não é diante de pessoas que não se importam.
Tem gente que bebe para esquecer e acorda lembrando pior.
Tem gente que confunde liberdade com autossabotagem patrocinada.

Carnaval não é santo.
É espelho.

Ele mostra o melhor e o pior com a mesma iluminação neon.

E talvez o Brasil ainda exista justamente por isso:
porque entre uma tragédia e outra, a gente inventa música, suor, beijo errado e riso exagerado.

E no meio disso tudo, os moralistas gritam:
“Você está feliz por quê?”

Eu devolvo:
E você está amargo por quê?

Alegria não é ignorância.
É resistência primitiva.

O brasileiro ri porque se não rir, surta.
Dança porque se parar, desaba.
Beija porque amanhã talvez falte coragem.

Depois acaba.
Quarta-feira de cinzas chega.
A fantasia vai pra gaveta.
A maquiagem escorre.
O glitter migra misteriosamente para lugares que a ciência ainda não explica.
E o país volta ao normal, modo sobrevivência — que, convenhamos, já é bastante anormal.

O problema não é o Carnaval.
O problema é querer que quatro dias resolvam um ano inteiro de descaso.
O problema é que a gente espera que ele resolva o que a política, a educação e a coragem coletiva nunca enfrentaram.

Carnaval é válvula.
Não é solução.
Mas a lucidez também cansa.

Mas enquanto isso não muda,
me passa a cerveja, ajeita a máscara
e me deixa rir um pouco.

A bateria toca,
O bloco passa,
E o povo insiste em existir.

E existir, neste país, já é um ato revolucionário disfarçado de samba.

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Neemias Moretti Prudente é escritor, advogado, professor, filósofo míscômico e editor-chefe do Factótum Cultural.

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