Quando não há mais nada a buscar, o caminho não se abre — ele se dissolve.

Depois da busca, resta caminhar.

Há um momento pouco falado na jornada espiritual.
Um ponto em que não surgem mais visões inéditas, nem revelações arrebatadoras, nem a sensação de “ir além”.

Não é queda.
Não é fracasso.
É platô.

Tenho percebido isso nas minhas últimas consagrações de ayahuasca:
não há mais espetáculo interno.
Há apenas consciência no momento presente.
Todo o resto — imagens, narrativas, explicações — aparece como o que sempre foi: criação da mente.

E isso muda tudo.
Mas não do jeito que se vende por aí.

Quando a experiência chega ao limite

Vivemos numa cultura que confunde profundidade com intensidade.
Se não há algo novo ou extraordinário acontecendo, supomos que estagnamos.
Mas talvez seja o oposto: amadurecimento.

Toda experiência tem forma.
E toda forma é limite.

Enquanto há alguém dizendo “estou tendo uma experiência”, existe um centro observador.
Enquanto existe um centro, há separação.
E onde há separação, há teto.

No início do caminho, experiências profundas são necessárias — quebram defesas, ampliam a percepção.
Mas chega um ponto em que não há mais novidade real.
Os símbolos se repetem.
A experiência se satura.

O platô não surge porque algo deu errado.
Ele surge porque a experiência cumpriu sua função.

O eterno presente não é um estado elevado

O que resta no platô não é êxtase nem iluminação permanente.
É algo quase decepcionante de tão simples: presença.

Consciência aqui.
Agora.
Sem narrativa.

O pensamento continua surgindo, mas perde o estatuto de verdade absoluta.
O tempo psicológico revela-se como construção.

Nada precisa acontecer para que tudo esteja inteiro.

E isso frustra muita gente.
Porque não gera história.
Não gera identidade espiritual.
Não gera palco.

Isso não transforma ninguém em “ser de luz”

Aqui está o ponto raramente dito.

Entender o platô, reconhecer o presente ou tocar o vazio não transforma ninguém automaticamente.
Não apaga traumas.
Não reorganiza padrões.
Não elimina recaídas.

Consciência não substitui estrutura psíquica.
Insight não cura condicionamento.
Lucidez não anula a vida concreta.

É possível ver tudo isso com clareza —
e ainda assim cair, errar, repetir padrões.

Isso não invalida o que foi visto.
Apenas revela algo essencial: ver não é o mesmo que integrar.

Quando fui tentar entender o que estava acontecendo comigo

Diante disso, fui tentar entender se esse ponto já havia sido atravessado antes.
E havia.

Jiddu Krishnamurti dizia que, quando a mente chega a tudo o que pode alcançar, qualquer movimento além disso é ilusão.
Ramana Maharshi afirmava que práticas e experiências são úteis até certo ponto — depois, tornam-se distrações sutis.
Nisargadatta Maharaj foi direto: tudo o que pode ser experimentado é limitado; o último apego é à própria consciência.
No Zen, esse estágio é chamado de caverna do vazio.
E Meister Eckhart descreveu esse momento como a última noite — quando até a experiência de Deus se esgota.

O que me chamou atenção não foi a teoria, mas a convergência:
o que eu vivia não era exceção nem falha.
Era um ponto conhecido — onde a experiência termina e a busca perde sentido.

Talvez não seja sobre ir além

Talvez maturidade espiritual não seja viver em estado elevado,
mas conseguir habitar a vida comum sem precisar fugir dela.

A vida continua igual:
há dor, prazer, erro, desejo, recaída.

A diferença é sutil — e decisiva:
não há mais alguém tentando se salvar da vida o tempo todo.

Isso não é iluminação.
É humanidade sem fantasia.

Talvez não seja sobre avançar.
Talvez seja sobre parar de exigir que a consciência faça o trabalho que só a vida cotidiana pode fazer.

E isso, paradoxalmente, é liberdade.

Talvez não haja mais nada a buscar. O que resta é incorporar — e se curar, no ritmo possível da vida.

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Neemias Moretti Prudente é escritor, advogado, professor, filósofo míscômico e editor-chefe do Factótum Cultural.

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