ou: como Rebecca Brown, Mastral e a guerra espiritual quase me transformaram num exorcista de mim mesmo.

Teve uma época — início dos anos 2000 — em que eu não tinha medo de barata, boletos ou fim do mundo.
Meu medo era demônio infiltrado na igreja.

Sim.
Eu era evangélico raiz. Daquele tipo que jejua, vigia, ora em línguas, prega na rua, repreende espírito territorial e dorme com a Bíblia aberta como se fosse um detector espiritual de movimento.

Qualquer dor na alma era ataque espiritual. Qualquer pensamento estranho era seta do inimigo. Qualquer crise existencial vinha direto do inferno, com carimbo e assinatura.

E aí caíram nas minhas mãos os livros da Rebecca Brown e do Daniel Mastral.

Pronto.
A sanidade pediu exoneração sem aviso prévio.

Aquilo não era leitura.
Era Netflix espiritual sem classificação indicativaGuerra psicológica em nome de Zeus.

De repente, o mundo ficou cheio de satanistas de alto escalão, seitas secretas, pactos em tudo quanto é lugar e demônios especializados. Especializados mesmo. Tinha demônio para ansiedade, para tristeza, para sexo (íncubos e súcubos), para dúvida e, se bobear, até para boletos atrasados.

Segundo os livros, o inferno funcionava melhor que muita multinacional brasileira:
hierarquia clara, cargos bem definidos, treinamento rigoroso, logística impecável e foco em resultados bem definidos. Conspirações espirituais que fariam inveja à CIA. Um verdadeiro LinkedIn demoníaco.

Eu lia fascinado.
E quanto mais lia, mais achava que estava “entendendo o mundo”, que estava despertando.

Me sentia quase um agente secreto espiritual. Achava que estava “discernindo”, quando na verdade estava só ficando paranoico com verniz religioso. Comecei a olhar as pessoas no culto tentando adivinhar:
— Esse aí tem cara de oprimido…
— Aquele ali, definitivamente, é infiltrado.

A teoria da conspiração é confortável

A teoria da conspiração tem esse charme irresistível: ela resolve tudo.

– Está ansioso? Demônio.
– Está triste? Demônio.
– Está confuso? Demônio especialista em confusão.
– Está com trauma? Demônio hereditário de terceira geração. Se possível, um bem específico, com nome difícil e atuação estratégica. Isso poupa a gente do trabalho chato de olhar para dentro.

É reconfortante achar que o problema não é você.
Que não é sua história.
Que não é sua dor.
Que não é sua infância.
Que não é seu vazio.

É o inferno. Sempre o inferno. E pronto. Problema terceirizado para o além.

E eu, jovem, sensível, espiritualizado e já carregando um caminhão de dores não resolvidas, comprei o pacote completo.

Eu não queria terapia.
Eu queria guerra espiritual.

O humor começa quando a maturidade chega

Hoje, olhando para trás (e depois de pagar o preço), eu rio.
Mas rio com carinho e consciência.

Porque eu lembro de mim mesmo analisando pessoas no culto, pensando:
“Esse aí… tem cara de demônio disfarçado”.

Lembro de orar com medo.
Lembro de dormir alerta.
Lembro de interpretar pensamentos como ataques espirituais.
Lembro de achar que estava num campo de batalha cósmico, quando na verdade estava só… cansado de existir.

A maturidade faz isso:
ela transforma trauma em memória
e medo em material de crônica.

Rebecca Brown e Mastral não eram vilões

Com o tempo, percebi algo importante:
esses autores não eram monstros.
Eram espelhos distorcidos.

Gente ferida, intensa, imaginativa, tentando explicar o próprio caos interno com linguagem religiosa épica.
O problema não é sentir o invisível.
O problema é confundir sombra psicológica com entidade metafísica.

Eles não inventaram o medo.
Eles só deram nome, rosto e organograma para ele.

E nós acreditamos — porque queríamos acreditar.

Mas nisso tudo existe algo profundamente irresponsável — e aqui vai a crítica que precisa ser feita — na forma como Rebecca Brown e Mastral romantizaram o sofrimento psíquico, transformando dor humana em espetáculo espiritual.

Eles não ensinaram libertação.
Ensinaram medo com narrativa épica.

Criaram mundos tão detalhados que mais pareciam universos de fantasia sombria.
histórias tão exageradas, tão cinematográficas, que parecem roteiro rejeitado de filme B gospel.

Só esqueceram de avisar que muita gente sensível, fragilizada ou em busca de sentido não lê aquilo como metáfora — lê como realidade literal. E isso cobra um preço alto.

Resultado? Fé misturada com pânico. Espiritualidade com ansiedade. E uma galera achando que precisava de exorcismo quando, na verdade, precisava de abraço e terapia.

Não é espiritualidade quando a fé vira paranoia.
Não é discernimento quando tudo vira demônio.
Não é profundidade quando a explicação é sempre externa.

O mais irônico é que esses livros falavam menos sobre o inferno e mais sobre quem os escreveu. Trauma virou teologia. Dor virou doutrina. Sombra virou entidade.

E o leitor, coitado, entrou na guerra achando que era soldado espiritual, lutando contra monstros enquanto ignora as próprias feridas, quando na verdade era só um ser humano cansado tentando sobreviver.

A grande virada

Hoje eu rio. Rio de mim mesmo. Rio daquela versão que achava que estava numa batalha cósmica, quando estava apenas tentando entender a própria existência.

A virada aconteceu quando eu entendi algo simples e libertador:

👉 a maior guerra espiritual que eu enfrentei nunca foi contra demônios.
👉 Foi contra mim mesmo.

Contra a dor que eu não queria sentir.
Contra a história que eu não queria lembrar.
Contra a vulnerabilidade que eu não sabia acolher.

Quando parei de lutar contra o “mal invisível”, comecei finalmente a cuidar do humano visível.

E isso, ironicamente, foi o gesto mais espiritual que já fiz.

Epílogo (porque toda crônica precisa fechar bonito)

Rebecca Brown e Mastral marcaram época.
Marcaram a minha também.

Não como mestres da verdade,
mas como capítulos de uma fase – intensa, confusa, quase enlouquecedora.

Hoje, agradeço pelo aprendizado, mas não romantizo o estrago.

Porque se aprendi algo com tudo isso é simples e libertador:

Quando a gente não olha para dentro, inventa demônios fora.
Quando a gente olha para dentro, os demônios viram feridas pedindo cuidado.

E isso, convenhamos,
assusta menos
— e cura bem mais.

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E não se esqueça: segunda, nossa coluna “Escrever para Não Enlouquecer” traz humor para os dias difíceis. Sábado a gente fala sério — mas só porque o universo exige equilíbrio.

Neemias Moretti Prudente é escritor, advogado, filósofo, professor, místico, cômico e editor-chefe do Factótum Cultural.

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