Escrever Para Não Enlouquecer – Por Neemias

“Às vezes o universo não te dá um animal para rugir. Te dá uma lagartixa para rir.”
Outro dia, conversava com um Txai sobre Animais de Poder. Ele me falava de onça, cobra, panda, bicho-preguiça misterioso – espíritos ancestrais, toda aquela galera mística de seres que aparecem em sonhos, rituais e visões para guiar a sua alma. E aí ele me perguntou: “E você, já encontrou o seu?”. Respondi que, de leve, sim, com a jiboia, a coruja e o carneiro. Mas nada muito profundo. A conversa foi ficando cada vez mais intensa, cheia de ancestralidade e daquela sensação de estarmos em torno de uma fogueira invisível, como guerreiros que recebem conselhos antigos.
À noite, depois dessa troca, o universo resolveu me dar uma resposta imediata. E não foi com trovão no céu, nem com visão transcendental. Foi simples: apareceu na parede do meu quarto, de ponta-cabeça, olhando fixo pra mim. Não era um jaguar flamejante, nem uma águia altiva, nem sequer um lobo uivante. Era uma lagartixa. Sim, meu Animal de Poder é a senhora lagartixa.
De início, confesso, quase pedi reembolso. Enquanto outros ganham águias, lobos e jaguares, eu recebo um bicho que se esconde atrás do guarda-roupa quando acendo a luz. Mas aí caiu a ficha: o Grande Espírito tem humor. E muito provavelmente ele sabia que era exatamente disso que eu precisava. A lagartixa estava ali, imóvel, me encarando como um mestre zen em miniatura, com aquela cara de quem diz: “Aceita, humano. Sou eu.”
E comecei a entender. A lagartixa, afinal, é sábia. Ela solta o rabo e segue a vida. Enquanto a gente passa anos preso a traumas e mágoas, ela desapega com uma facilidade budista. Ela vive com pouco: uma parede, uns mosquitinhos e já tá de boa. Enquanto nós precisamos de terapia, wi-fi e ainda reclamamos – dos boletos, é claro. É ninja espiritual, anda de ponta-cabeça, desafia a gravidade e desaparece no escuro. E no fundo, é até uma faxineira cósmica: devora mosquitos e, simbolicamente, energias ruins, limpando o ambiente enquanto a gente dorme.
Enquanto eu ria dessa ironia cósmica, lembrei do meu próprio texto aqui no Factótum, “O Dia em Que Fui Iniciado”. Lá eu já dizia que os sinais espirituais não costumam vir como esperamos. E essa lagartixa na parede é justamente a continuação dessa escola: iniciação silenciosa, quase cômica, no canto do meu quarto.
Talvez a águia veja de cima, mas a lagartixa enxerga no escuro. O leão pode rugir, mas a lagartixa se regenera. A serpente carrega o poder da cura, mas a lagartixa é aceita em qualquer casa sem causar medo. Cada uma com sua grandeza — e a minha veio em tamanho pequeno, mas com lições enormes.
No fim, percebi que meu Animal de Poder não é motivo de vergonha, mas de gratidão. A lagartixa me ensina que o poder está no mínimo, que soltar o que não serve é caminho de cura e que o silêncio pode ser tão sagrado quanto o rugido. Talvez o universo tenha me dado a lagartixa justamente para me ensinar a rir de mim mesmo.
E você? Já descobriu qual é o seu Animal de Poder? O que a lagartixa te diria se aparecesse hoje na parede do seu quarto?
E não se esqueça: Todo sábado, nossa coluna “Escrever para Não Enlouquecer” fala sério — mas só porque o universo exige equilíbrio. Segunda a gente volta com humor para os dias difíceis.
Haux!

⚡ Neemias Moretti Prudente é escritor, advogado, filósofo, professor e editor-chefe do Factótum Cultural. Se perdeu entre os livros, os filmes, os boletos e os rituais de Ayahuasca. Escreve para não enlouquecer — e às vezes enlouquece para escrever melhor.






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