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Ser mulher

por Ana Daniele Holovaty Amaral

Somente passando por determinadas situações é que conseguimos entender os
problemas culturais existentes na atual sociedade. O machismo por exemplo, está tão intrínseco no contexto social e cultural que apesar das pessoas negarem, se faz presente em todos os julgamentos éticos e morais, principalmente nos problemas vivenciados pelas mulheres.

Em pleno século XXI a idealização da felicidade da mulher passa pelo casamento e pela maternidade. O discurso anti machismo é somente da boca pra fora… Diante de uma separação a mulher sai prejudicada no sentido literal. O tempo que não é dedicado aos filhos é mal visto até mesmo pelos seus familiares. Se depender da sociedade, a mulher separada deve perder a feminilidade e se entregar a dor, a tristeza. Após a separação, a rotina feminina aumenta consideravelmente, pois a mulher além de cumprir com o trabalho fora e doméstico, cumpre com o papel social projetado, isto é, o que as pessoas esperam dela (a vitimização,fragilidade e submissão). Dessa forma, tudo o que for contrário a isso representa a decepção da sociedade em relação a essa mulher. Atividades do cotidiano como fazer compras, fazer atividade física têm que ser friamente calculadas para que jamais haja a possibilidade de diversão, de alegria, de prazer.

O prazer é claramente negado a mulher !!! Seja prazer físico, político, e cultural. Como exemplo podemos citar a manipulação do prazer feminino por instituições religiosas. Quando a Igreja Católica se posiciona contra o controle de natalidade, e politicamente dentro dessa instituição, somente destina os cargos de poder a um patriarcado institucional. Historicamente no Brasil, o papel social feminino é pré-determinado pelos homens, conforme aponta a autora Mary Del Priorie:

Na sociedade brasileira, as mulheres não foram e não são mais do que seus próprios corpos, corpos que são Terras desconhecidas, territórios impenetráveis e que foram durante séculos auscultados, mapeados, interrogados e decodificados pela imaginação masculina.”

A negação do prazer feminino é histórica! Já o sofrimento feminino é aceito socialmente. Uma mulher feliz e bem resolvida afronta os preceitos sociais. Se é mãe solo, se está sozinha ou se desvencilhou de um casamento onde não era feliz, todas as atitudes passam por julgamentos morais. Uma moral baseada nos padrões patriarcais cristãos. Essa moral não condena as ações masculinas com a mesma veemência que condena as ações femininas… O tempo dedicado aos filhos, o lazer, a atividade física nunca são questionadas para os homens. Ninguém pergunta ao homem separado quando sai para se divertir ou viajar com quem ficaram os filhos. No entanto para as mulheres essa é uma questão recorrente… Imagino o que minha avó passou quando se livrou de um relacionamento abusivo na década de 1940… A pressão social exigia um comportamento exemplar: se todas as ações femininas são julgadas, imagina as ações de uma mulher separada??? Nesse sentido ela somente se sentiu aceita quando casou-se novamente, assumindo uma família com seis enteados engravidando rapidamente.

Outra situação que podemos citar de exemplo é forma como as pessoas se incomodam com a posição da cantora pop Anitta… Apesar de eu não curtir o estilo musical da cantora, devo admitir que ela tem um poder de influência nos meios digitais principalmente e que no mínimo é uma excelente empresária… No entanto as pessoas ficam questionando sua vida pessoal… Em contrapartida, existem as mulheres que são colocadas como heroínas: geralmente depois de mortas… Danielas Perez, Dorotéia Stang, Heley de Abreu Silva Batista… mulheres que lutaram por alguma causa e sofreram… o sofrimento é algo que conta como positivo para as mulheres…

Nesse contexto, as próprias mulheres se culpabilizam constantemente por atos
que nem elas cometeram, ou que pelo menos nem são passíveis de culpa. Por culpa, as mulheres se colocam em situação de repetir as expectativas impostas pela sociedade e reforçar o machismo estrutural…

Quando se rompe essas estruturas preestabelecidas, as consequências são inevitáveis e cabe às mulheres , aos poucos, mudar essa concepção de mundo a partir da resistência, da união entre os pares, da politização e educação voltada para a mudança de mentalidade. É necessário romper determinados paradigmas, como afirma a cantora Pitty em sua música “Desconstruindo a Amélia”:

Disfarça e segue em frente
Todo dia até cansar (Uhu!)
E eis que de repente ela resolve então mudar
Vira a mesa, assume o jogo
Faz questão de se cuidar (Uhu!)
Nem serva, nem objeto
Já não quer ser o outro
Hoje ela é um também
…”

Não é fácil romper as estruturas preestabelecidas. Para isso é necessário uma coragem de olhar para o mundo de outra maneira. Cada atitude do cotidiano deve ser pensada antes de se tomar as decisões. Mas que esse olhar seja voltado para o bem estar feminino de forma literal e não somente um olhar voltado ao conforto social.

Ana Daniele Holovaty Amaral. Pós – Graduação em História e Sociedade pela UNESPAR.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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