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Preparo, espera e conversas: aceita um pedaço de bolo?

por Gisele Souza Gonçalves

Coisa que toda pessoa poderia ter é a oportunidade de fazer um bolo.

Sempre gostei de bolo, fofo e cheiroso, saboroso e bonito. Tem cores, formas e sabores diferentes, acho bem diverso o universo dos bolos.

Quando preparo um, o momento mais lindo é quando as cores dos líquidos se misturam aos pós. Em espiral vai se juntando tudo e harmonicamente as cores se mesclam formando outra. Não tenho batedeira. Vou olhando de cima o movimento do fuê orquestrado pela minha mão. É também o momento preferido da minha filha. Ela gosta de pôr a farinha e também de mexer, então fica sempre alternando as duas ações. Eu gosto de olhar a cena.  

A etapa final, antes de assar, é a que eu sempre fico mais atenta: coloco o fermento e fico olhando se a mudança aparece, tento adivinhar o quanto ele irá crescer. Alerta de ansiedade: e se não crescer? Se eu esquecer que está no forno? Se ninguém gostar? Porém, o que mais me incomoda é quando eu não gosto. Eu fico à beira do forno observando se ele se molda ao que espero (Ah! As expectativas…).

Gosto de quando ele deixa de ser aquele creme e começa a criar a textura de bolo. Aprecio as transições. Relaciono o tempo em que o coloquei no forno e como ele está reagindo.

Eu gostaria mesmo de ter aprendido a cuidar de mim e de minhas etapas como faço com o bolo. Todavia, estou aprendendo bastante sobre isso. Nunca é tarde.

O bolo é muito “a gente”, essa complexa humanidade. Precisa de ingredientes para se compor, precisa de atenção e tentativas de acerto. Precisa ser esperado.

Quando fica pronto, com aquele cheiro, involuntariamente eu dou um sorriso. Eu e minha filha temos nossa comemoração quando ele fica como o esperado: é como um ritual.

Enquanto um bolo se constrói, contamos histórias sobre comidas e sobre quem aprecia e apreciava nossos bolos, tortas e cucas. É um misto de lembranças, saudade, animação, risos e amor.

Nós relembramos e imitamos como ela (minha filha) falava quando era bebê: “queo bo”; quando minha saudosa tia ficava alegre ao receber nossa receita: “ai, Gi, a tia adora seu bolo”; meu pai quando ofereço um bolo: “ê bolo bom”; relembro a fala de uma amiga que vive sempre em meu coração: “Gica, faz uma cuca pra pofe!” (ela amava o jeito que minha filha a chamava quando era pequenina: “pofe”, e sempre a imitava carinhosamente).

Assim vou lembrando de pessoas e bolos, vozes e expressões que o paladar já proporcionou. Eu ainda gosto de presenciar essas expressões que mostram do que um bolo é capaz. Talvez o bolo não seja tão maravilhoso, quem sabe seja o preparo, a espera ou o receber que o faça tão especial.

 A vida é uma mistura de coisas e uma espera por coisas boas, nem sempre temos o que esperamos, nem sempre o bolo fica macio e saboroso; mas o processo faz muito por quem está nele.

Muitas vezes, o bolo desencadeia bagunça na pia, sujeira no forno, canseira no braço, decepção; outras, uma boa sensação. Como a vida, ele é um processo. A vida cansa também, mas pode ser saborosa. Esta é a minha animação.

Vou tirar mais um bolo do forno. Espero que tenhamos bons processos a experimentar.

Gisele Souza Gonçalves. Professora e Doutoranda pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE). Mãe. Colunista do Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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