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O paradoxo do hedonismo, parte um: alegria e felicidade

Por Charles Santiago

No capítulo um do livro Eclesiastes, o Qoheleth descreve a miserabilidade existencial, no contexto da vida mundana. Já vimos que, com um olhar aligeirado, acontecem, nas primeiras páginas do texto sapiencial, meditações filosóficas: (Ec 1:4) “geração vai e geração vem; mas a terra permanece para sempre”, um quadro teórico do eterno retorno, o cosmos que, infinitamente, repete movimentos finitos.

Nietzsche, no Assim falou Zaratustra, depois de passar dez anos na solidão de sua montanha, contempla o sol e diz o seguinte: “por isso, é preciso que eu baixe às profundezas, como fazes tu à noite, quando desapareces atrás do mar, levando ainda a luz ao mundo ínfero, ó astro opulento”. Essa, para o filósofo, não seria uma tarefa fácil: descer a montanha e falar aos homens. Por isso, pede proteção ao astro rei: “abençoa a taça que quer transbordar”; fazer surgir o além-homem.

O Qoheleth, no segundo capítulo do Eclesiastes, versa: “Disse comigo: Vamos! Eu te provarei com alegria; goza, pois, a felicidade; mas também isso era vaidade”. Ação que se assemelha ao Zaratustra, de Nietzsche, distribuir suas sabenças, falar os homens sobre as inutilidades do humano, demasiadamente humano. 

O mestre da literatura sapiencial prepara os caminhos para sua empreitada, arrazoar ao coração dos mais moços. O propósito capital é, sobretudo nesse segundo capítulo, fazer as primeiras abordagens do paradoxo hedonista.

No capítulo dois, na assertiva acima apresentada, o debate circunscreve o que se denomina alegria, felicidade e vaidade. A citação apresenta variações verbais: “eu te provarei”, convencimento, no futuro. Até o final do sermão, diz o mestre, vocês serão convencidos de que a vida é transitória, que determinados prazeres são somente ilusões. Mas, diz ele, com alegria, goza!

“Era vaidade”, no passado, conclusivo. A tarefa do manuscrito bíblico é: o mestre fará uma exposição de suas vivências para, na assembleia, exortar a juventude sobre o que é bom, justo e aprovável. Também, ao final do discurso, será revelado que ele, o rei de Jerusalém, o mais rico e sábio entre todos os homens, depois de se empanturrar de tudo que o mundo pode abonar, constatou que isso era vaidade, efêmero… A primeira conclusão do capítulo é definida nos seguintes termos (Ec 2:2): “o riso é loucura e a alegria de nada vale”.

A vida é um drama humano, e rir, por si só, é uma frivolidade, já que a existência é tédio, como nas palavras de Umberto Eco: “o riso é a fraqueza, a corrupção, a insipidez da nossa carne”.

De que vale ser alegre? É como nas letras do poeta, na benção do samba, “é melhor ser alegre do que triste […], mas para fazer samba com beleza é preciso um bocado de tristeza”.  Ou, nos versos do filósofo Schopenhauer, “há apenas um erro inato, e este é o de que nós existimos para sermos felizes”.

Pois bem, uma vez acautelado o cenário teórico, o mestre trata de apresentar um conjunto de vivências, desnuda um caminho já trilhado, com as seguintes sentenças: “dei-me ao vinho, empreendi grandes obras, cultivei jardins, fiz açudes, tive muitos empregados, amontoei ouro e prata, provei-me das delícias do sexo, conquistei sabedoria” – “nada neguei aos meus olhos”. Cada sentença, bem observada, compreende o seu valor simbólico e sua graça histórica, só é preciso ver.

O mestre faz um relato, narra sua caminhada de prazeres e, ao final de toda ela, diz ele que a vida, abundantemente em prazeres, não decifrou seus dilemas, foi como correr atrás do vento. A vida passa depressa, é preciso considerar o tempo, aquele que cada um tem. Luxúria, álcool, fama, riqueza são ilusões que tentam satisfazer o sofrimento e o tédio que consomem a vida humana. Schopenhauer interpretou esse sentimento da seguinte maneira: “Todo esforço nasce da carência, do descontentamento com o próprio estado e é, portanto, sofrimento pelo tempo que não é satisfeito; nenhuma satisfação, todavia, é duradoura, mas antes é sempre um ponto de partida para um novo esforço”.

Depois disso, análise pormenorizada de cada prazer saboreado e sua relação com a vaidade, o mestre se aplica em considerar a sabedoria, a tolice e a loucura. Reconhece a importância da sabedoria, seu valor no mundo, mas, debaixo do sol, pensa consigo: morre o sábio e o tolo. Do que adianta? Pergunta o Qoheleth!  A conclusão é: vaidade, tudo é vaidade, já que, depois da morte, não haverá memória, sequer para o sábio. Leitura que encontra seu eco em Nietzsche: “houve eternidades em que ele não estava presente; quando ele tiver passado mais uma vez, nada terá ocorrido”.

Aqui, o tipo de sabedoria é a do mundo, conhecimento que é processado cotidianamente: acordos linguísticos. Esse tipo de saber, nos escritos nietzschianos, é “instrumento auxiliar aos mais infelizes, frágeis e evanescentes dos seres, para conservá-los um minuto na existência”.

Por tudo isso, a leitura   do Eclesiastes, deve ser, filosoficamente, assombrosa: os olhos precisam estar sempre arregalados, pois, para além de uma intencionalidade, existe uma perspectiva no escrito que será revelado, por completo, ao seu final, já que o texto apresenta dois personagens que se ajeitam e falam no manuscrito: o narrador, aqui considerado como autor, e o mestre, aquele que ensina. No entanto, essa será uma ideia trabalhada ao final de todo o livro sapiencial, um texto com a síntese geral do escrito bíblico: intencionalidades e perspectivas.

Por último, considerando o projeto em curso, de comentar capítulo por capítulo o Eclesiastes, deixo para a semana seguinte a discussão conceitual de trabalho, último ponto do capítulo dois, evitando que o texto fique demasiado cansativo. Mas, sopesando o debate, ficam os versos de Qoheleth: “que proveito eu tive em ser sábio?”. Talvez, de Nietzsche, venha a resposta, “em algum remoto recanto do universo, que se deságua fulgurantemente em inumeráveis sistemas solares, havia uma vez um astro, no qual animais astuciosos inventaram o conhecimento. Foi de fato um minuto sublime, porém hipócrita, uma vez que os astuciosos morreram no minuto seguinte”.

Charles Santiago é filósofo, professor e escritor. Colunista da Factótum Cultural. Autor do livro Rasgos de Política, Educación y Cultura en Brasil.

 Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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