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Memórias da Mercantilização do Ensino Superior: a consolidação da universidade flexível

Por Charles Santiago

Recentemente, recebi dos correios um presente já muito aguardado: a obra do professor e amigo, Fabio Mansano, Fabão, como é afetuosamente conhecido, uma personalidade rara, comprometida com a educação, com a cidadania e com os direitos humanos. Um educador que, semelhante a Freire, tem transformado, com seu jeito peculiar, no interior da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, a vida de muitos sertanejos.

Nos últimos meses, tenho me ocupado com a burocracia da vida acadêmica, com novos estudos, relacionados com o doutoramento em filosofia política e projetos pessoais, dos quais avulto anotações filosóficas do livro sapiencial, o Eclesiastes. Ideação que se realiza com a Revista Factótum Cultural, parceria com o audaz amigo nietzschiano, Neemias Prudente, editor-chefe desse belo instrumento de comunicação.

O presente, obra de sensibilidade rara, chegou em um bom momento, pois no turbilhão das atividades descritas, prisioneiro da rotina, foi possível, em um dado momento, esquecer de tudo e dedicar-me às sabenças educacionais e sociológicas, pesquisa acadêmica do professor Fábio Mansano. Para Mario Quintana, “a saudade é o que faz parar o tempo”, este que parecia não parar, com a obra, Memórias da Mercantilização do Ensino Superior, além de delinear um retrato histórico do ensino superior brasileiro, trouxe-me à tona vivências educacionais – lembranças de ouvir e ver um intelectual inquieto tecer, na práxis, melhores condições para trabalhadoras e trabalhadores da educação, sobretudo, aqueles dos rincões baianos, homens e mulheres que auspiciavam dias melhores. 

A ocasião de leitura da obra teve o seu sabor: memorar um tempo de militância e de aprendizado ao lado de Fábio, contrariando os versos de Belchior, “o passado não é uma roupa que não nos serve mais”; pelo contrário, Quintana é mais assertivo, “o passado não reconhece o seu lugar: estar sempre no presente”, alentando os nossos dias frios. O tempo, no seu tempo, deu-me tempo de reviver um bom tempo: o tempo de vivências e sabenças com Fabão.

O professor Fábio é um mestre cervantino, enxerga o que ninguém mais observa, ousado, como Quixote: acredita que é possível, em terras esquecidas, transformar matutos em doutores, sonho nobre, realizável quando se acredita,  semelhante ao velho De La Mancha, “sonhar o sonho impossível, sofrer a angústia implacável, pisar onde os bravos não ousam e reparar o mal irreparável”.

E para além dessas lembranças, histórias de um paulista arretado, convertido ao cuscuz nordestino, a obra dialogou comigo, mais do que isso, de forma imagética, apresentou as falácias do ensino superior brasileiro, seus gargalos e, no conjunto do debate, o fracasso das instituições superiores contemporâneas.

É um trabalho de fôlego, persegue o método marxiano, o materialismo histórico, como todo bom trabalho acadêmico. Mas, é preciso dizer, o acadêmico não pode ser sinônimo de professoral, exegético, correto politicamente. Ah, não. O trabalho de Fabão é, nos termos de Milton Santos, emancipatório, caminha com seus leitores, fazendo frente o academicismo viciado, em que professores escrevem para colegas, o clube dos amigos. O presente lido, um bom livro, faz ciência, mas colocando as mãos na massa.   

O texto, inclusive, pode ser lido em um bom boteco, aqueles que a gente passa horas a fio, debatendo, construindo travessias… Longe de ser um trabalho fácil. O manuscrito é complexo, polêmico, mas não é arrogante, metido em palavras difíceis e cheio de estrangeirismos, pelo contrário, é brasileiro, lê-lo é tocar em nervos, já que seu conteúdo versa sobre a casa da ciência, cujos  malogrados atalhos  ganhara da nossa classe política.

É certo que, com uma leitura cuidadosa, o foliar das páginas traduz a malandragem do sistema educacional brasileiro, os engodos da retórica fácil e, acima de tudo, a operação do sistema capitalista e sua ordem neoliberal, com sanhas de flexibilização, empreendedorismo e tantos outros palavrórios.

No quesito política, é digno de nota: o professor Fábio é um progressista, mas não passa pano para ideologias partidárias, pelo contrário, a ideologia é uma categoria importante no seu debate conceitual. A pesquisa que faz é séria: uma análise da educação superior brasileira e, com dignidade intelectual, dá a César o que é de César. No capítulo cinco, por exemplo, faz um diagnóstico da mercantilização no governo  Lula e não poupa críticas, pelo contrário, apresenta semelhança com o governo  FHC, tão criticado pela esquerda universitária.

Poderia dizer que se trata de um achado, mas, seria loucura de minha parte, já que o autor, agora doutor, resultado desse trabalho, faz um diagnóstico histórico e memorial de uma trajetória perversa, a mercantilização do ensino brasileiro. Para tanto, esboça, ao longo dos capítulos, discussões que permeiam a reforma do Estado, os rumos da mercantilização, o protagonismo do Banco Mundial, a visão empresarial no interior das universidades e tantos outros debates.

Por tudo isso, quero aqui, não mais como amigo de Fábio, mas como professor pesquisador, doutor em educação, recomendar para todo estudante, docente, pesquisador e público que anseia pelo debate educacional – mais especificamente, aquele que recorta o ensino superior brasileiro – o livro de Fábio Mansano: professor pesquisador da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia. Um expediente gracioso nos detalhes, rico nas abordagens e preciso nas conclusões.

Charles Santiago é filósofo, professor e escritor. Colunista da Factótum Cultural. Autor do livro Filosofia de Boteco: no reverso das ilusões.

DETALHES DO LIVRO

Título: Memórias da Mercantilização do Ensino Superior: a consolidação da universidade flexível

Autor:  Fábio Mansano de Mello

Ano de Edição: 2022

Número de Páginas: 252

Editora: Edições UESB

Idioma: Português

Descrição: A obra analise os impactos da flexibilização do Ensino Superior brasileiro. Os reflexos da mercantilização do setor, tais como: a precarização do trabalho e o mito da “democracia universitária”, revelados à luz das memórias materializadas nos documentos.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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