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Escrevendo e tecendo a existência: matando o que não serve mais

Por Liliam Beatris Kingerski

“Pensei o quanto desconfortável é ser trancado do lado de fora;

e pensei o quanto é pior, talvez, ser trancado no lado de dentro.”

Virginia Woolf

Enquanto escrevo, o pensamento vai sempre além das palavras…é como se me perdesse entre elas…

Mas nem sempre as palavras surgem com tanta facilidade,  por vezes a escrita simplesmente não flui ou não nos sentimos muito bem para escrever e expor aquilo o que pensamos…

Por um momento lembro Clarice, quando diz: Perder-se também é caminho![1]

E foi numa noite dessas, que angustiada, sem saber o que escrever e como preencher o papel em branco, que se encontrava à minha frente sobre a mesa, e em meio a uma conversa agradável nas redes sociais, que surge esse escrito…

Penso no quanto a escrita é o grito, que por vezes não conseguimos dar…esse grito que agora, ecoa em minhas palavras aqui rabiscadas…

É assim que escrevo…ao som de Radiohead… procurando o meu lugar,  pois muitas vezes, me sinto como se não pertencesse a determinados espaços. Enquanto o texto vai criando contorno, modifico os parágrafos e as palavras, alguns complementos são necessários, é quase que como tecer com retalhos uma vestimenta adequada; mas esta precisa de ajustes, para que sirva perfeitamente a quem a procurar e dela necessitar.

A história mostra que as mulheres lutaram por um espaço na literatura; escrever não era considerado “coisa de mulher com opinião própria”; mulher tinha que concordar, ser meiga e amável até no papel, além de ser boas esposas e mães perfeitas, funções ainda romantizadas em nossa sociedade atual.

Escrevendo percebo, esse é o meu lugar, é aqui a escrever sobre o que me angustia, sobre o que também me deixa decepcionada com relação à sociedade, sobre as opressões e violências, que finalmente me encontro. A escrita tem que fazer parte desse movimento que chamamos de vida, além de me tornar alguém melhor nesse mundo de violências que não param de acontecer.

As obras de Virginia Woolf sempre me atraíram, por tratarem de temas, que mesmo após tanto tempo, continuam necessários; não demorei para me identificar com o que ela escrevia; talvez suas obras fossem sobre as mulheres que, mesmo apesar dos obstáculos, escreviam; talvez fosse sobre matar os fantasmas que existiam e ainda existem entre as mulheres e a escrita….afinal…como escrever, enquanto se precisa cuidar dos filhos, ou limpar a casa?…. talvez ela escrevesse sobre ela mesma …

Assim, eu escrevo agora…tentando afastar de mim a rotina cotidiana que me aprisiona…pois quando escrevo, vou longe!

Virginia fala sobre matar o Anjo do Lar[2],  afinal, as mulheres ainda possuem muitas funções.

Enquanto escrevia, ela sentia a presença deste fantasma a assombrá-la, e corajosa, Virgínia o enfrentou:  “Se eu não a matasse, ela me mataria. Arrancaria o coração da minha escrita.”[3]

Tento lembrar do que faço todos os dias;  enquanto que por vezes,minha vida segue quase que num ritmo automático, os meus dias começam quando toca o despertador, e já são 7:15 hs; levanto e me organizo para ir trabalhar, depois disso, desperto a minha filha, troco a sua roupa e em seguida tenho que levar ela até a avó; é lá que ficará até eu voltar do meu trabalho, ao meio-dia; Quando retorno, almoço com ela, e levo-a  para a escola; em seguida vou para o meu trabalho novamente; depois passo na escola buscar a minha filha, para levar ela para a avó dela e lá ela ficará até eu encerrar o terceiro turno do meu trabalho, quando passo pegá-la e levar para a casa novamente.

Como gostaria de chegar em casa e deitar no sofá para ler um livro que tenho vontade…ou simplesmente “parar”, sem ter nada para fazer! mas lembro que tenho que colocar a roupa para lavar e organizar a casa. 

E quando dou por mim, o dia já está chegando ao fim novamente, e minha filha ainda quer brincar; sinto não poder fazer sempre tudo o que quero… parar tudo o que tenho para fazer para escrever ou simplesmente brincar com minha filha.

Como dizia Virginia, temos que matar o Anjo do Lar, o fantasma da mulher e seus atributos de esposa e mãe, que tanto nos impedem de fazer o queremos:

“Era ela que costumava aparecer entre mim e o papel enquanto eu fazia  as resenhas. Era ela que me incomodava, tomava meu tempo e me atormentava tanto que no fim matei essa mulher.”[4]

Penso no quanto, todas nós, mulheres que trabalham, estudam, têm que cuidar da casa e dos filhos, e que fazem isso sozinhas, têm que enfrentar… penso que tenho que matar esse fantasma que me perseguem, na busca por ser eu mesma.

Virginia descreve esse fantasma:

Ela era extremamente simpática. Imensamente encantadora. Totalmente altruísta. Excelentes nas difíceis artes do convívio familiar. Sacrificava-se todos os dias…seu feitio era nunca ter opinião ou vontade própria, e preferia sempre concordar com as opiniões e vontades dos outros.”[5]

Sejamos fortes e independentes! escrever em meio a toda essa rotina não é algo fácil; deixar de lado, ou conciliar isso é um grande desafio; matar nossos fantasmas é um processo, precisamos matar todos os dias as coisas que nos incomodam, retirar de nossas vidas aquilo que nos faz mal, nos libertar do que ainda nos impede de ser  quem realmente somos e de fazer o que queremos!


[1] LISPECTOR, C. A Cidade Sitiada. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

[2] O Anjo do Lar (The Angel in the House) é um poema narrativo de Coventry Patmore publicado pela primeira vez em 1854 e se expandiu até 1862.

[3] WOOLF,  V. Profissões  para  mulheres  e  outros  artigos  feministas .  Trad.  Denise Bottmann. Porto Alegre: L&PM, 2012.

[4]  WOOLF,  V. Profissões  para  mulheres  e  outros  artigos  feministas .  Trad.  Denise Bottmann. Porto Alegre: L&PM, 2012.

[5]  WOOLF,  V. Profissões  para  mulheres  e  outros  artigos  feministas .  Trad.  Denise Bottmann. Porto Alegre: L&PM, 2012.

Liliam Beatris Kingerski é professora de filosofia. Graduada em Filosofia, História e Sociologia, com pós-graduação em Política e Sociedade, História e Sociedade. Mestranda do programa PROF-FILO da UNESPAR. Pesquisadora da Filosofia Feminista, apaixonada por escritas de mulheres e Filosofia. Colunista do Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

2 comentários em “Escrevendo e tecendo a existência: matando o que não serve mais Deixe um comentário

    • Obrigada pela leitura! Bom saber que tem pessoas que se identificam com o que escrevemos…sinal de que não estamos só nessa caminhada ❤️

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