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Como a organização se relaciona com a depressão

por Thais Godinho

Eu achei importante escrever este post para contar um pouco da minha história sobre esse assunto e descrever como aprender a ser uma pessoa organizada me ajudou a lidar com a depressão (e ainda ajuda muito).

Vale dizer que não sou médica, então este post é um relato pessoal. Se estiver sentindo sintomas de depressão, procure ajuda.

A depressão é uma doença. Não é simplesmente falta de vontade, desânimo ou sensações do tipo, apesar de essas sensações estarem presentes em um quadro depressivo. A depressão é uma doença como qualquer outra. Quando a gente tem pneumonia, por exemplo, vai receber um tratamento adequado. Não adianta dizer para a pessoa enferma “tenha força de vontade e suba essas escadas!”. Se ela estiver com o pulmão comprometido, não vai ter condições de fazê-lo. Com a depressão, é a mesma coisa. Afeta a mente, mas afeta o corpo também. É uma questão química, junto com a mental. Por isso que o tratamento para a depressão, de modo geral, para casos menos graves, é medicação + terapia. Porque você vai cuidar do corpo e da mente ao mesmo tempo.

Eu tive a minha primeira crise de ansiedade quando era criança, por volta dos 7 ou 8 anos. Eu acordava de noite gritando, sufocando, com a sensação de que estava sendo “amassada” por uma pedra gigante (era como eu conseguia descrever na época, com as referências que eu tinha). Hoje, imagino que tenham a ver com brigas que meus pais tinham na época, e eles acabaram se separando quando eu tinha entre 9 e 10 anos. Na adolescência, esse quadro continuou em ocasiões específicas, gerando desmaios – na escola, pegando metrô, coisas assim. Já adulta, trabalhando e fazendo faculdade, a sobrecarga dessas duas atividades + cansaço do dia a dia, de dormir tarde, acordar cedo, ter que trabalhar e estudar, me levaram a uma labirintite aguda por conta do estresse, e essa ansiedade só aumentou naquele momento.

Foi apenas na vida adulta que eu recebi o diagnóstico de TAG (Transtorno de Ansiedade Generalizada) e de depressão, mas o diagnóstico também se estende a esses quadros da minha infância e da adolescência. Hoje eu sei por que me sentia daquele jeito e consigo me compreender melhor como ser humano.

Ter passado por esse episódio mais drástico da labirintite na vida adulta me fez ter um interesse enorme em produtividade e organização pessoal, e foi quando eu criei o blog para compartilhar os meus aprendizados. Eu aprendi que a organização me ajudava a reduzir a ansiedade, pois eu conseguia controlar aquilo que era passível de controle, como prazos no trabalho, vencimento de contas, entre outros. Eu também percebi que ter uma rotina era bom para mim. Toda vez que eu me submetia a condições de vida (principalmente de trabalho) sem essa rotina, eu ficava pior. Por isso, sempre que preciso passar por situações diferentes das habituais hoje em dia (como em uma viagem a trabalho, por exemplo), eu procuro manter a minha rotina o mais próxima possível daquela que tenho em casa – sono, alimentação, atividade física, meditação – porque sei que me faz bem. Não é uma “prisão”. É libertador, na verdade. Porque me sinto bem e sei que, com essa parte, não preciso me “preocupar”.

Não, eu não tenho depressão porque sou uma pessoa organizada. Eu já tinha o diagnóstico antes, vem da infância. Aprender a me organizar me ajudou a lidar com a depressão e com a vida de uma maneira mais leve.

(SÓ PARA REFORÇAR, PORQUE JÁ OUVI ISSO. SIM, ACREDITE.)

Desenvolver esse conceito de uma produtividade compassiva me ajudou a entender onde em me situo dentro do sistema capitalista totalizante que vai sim precarizar o trabalho e vai sim conduzir empresas e trabalhadores sempre à sobrecarga. Logo, não vou ficar me cobrando soluções que não sistêmicas, mas a produtividade compassiva me ajuda como técnica de sobrevivência. Existo neste mundo, dependo do meu trabalho, trabalho com outras pessoas que também dependem dos seus trabalhos, e convivo com família e amigos no mesmo quadro – logo, esse olhar para dentro permite que eu sobreviva dentro das melhores condições possíveis e impacte os outros ao meu redor positivamente com a minha experiência. Se eu me cuido, sou uma mãe melhor, por exemplo. É isso.

Não sei se é correto dizer que a depressão é quase como uma doença crônica, mas o fato é que ninguém se cura de uma depressão. Ela é um quadro que existe para quem tem, e ponto. Você vai aprender a conviver com ela. Vai ter momentos melhores e momentos piores, em que ela vai te pesar mais. O tratamento, o autoconhecimento, tudo isso vai te ajudar a identificar seus gatilhos, seus momentos, e as providências que precisa tomar quando não estiver tão bem.

Uma pessoa com um quadro debilitante de depressão encontra dificuldade nas pequenas coisas do dia a dia. Levantar da cama é cansativo – você se sente uma toalha molhada, pesada. Não dá vontade de fazer nada. Não tem por que tomar banho, limpar a casa ou fazer qualquer outra atividade que não seja descansar, dormir, olhar para o nada. E tudo é lento, incrivelmente lento. Quando você vê, já é de noite e você precisa enfrentar outra noite com sono difícil (muitas pessoas com depressão têm insônia ou sono “picado”), para chegar ao mesmo ponto de ser difícil de acordar no dia seguinte.

Quando uma pessoa com depressão está assim, qualquer atividade que ela conseguir fazer no dia, por mais trivial que seja, é uma pequena vitória, porque essas atividades todas demandam um esforço tremendo que ela não consegue alocar. Exemplo: separar os documentos para o imposto de renda. Nossa, ela pode ter uma pasta ali com tudo guardado ao longo do ano, mas até pegar essa pasta parece uma colina imensa que ela tem que subir. Agora: imagina se não tiver a pasta? Pior ainda. Por isso que a organização ajuda. Naqueles momentos em que você está bem, você cuida das coisas para facilitar quando não estiver tão bem. E, quando não estiver tão bem, você sabe que precisa descansar, dar-se esse tempo, vai fazer as coisas de maneira mais devagar e por aí vai. Você se compreende. Vê a coisa toda de uma maneira mais pragmática. Consegue, depois de um tempo, separar a depressão de você. Você não é a depressão. Você tem depressão. É uma diferenciação importante.

É muito comum também uma pessoa com depressão se apegar a pequenas coisinhas do dia a dia que trazem pequenos prazeres na rotina, e que são um primeiro degrau para começarem a se sentir melhor. Para mim, por exemplo, são meus livros, desenhar, pintar, compôr músicas, tocar piano, violão etc. Para outras pessoas, é cozinhar. Para outras, é fazer as unhas. Sabe? Cada um com seus pequenos prazeres. Infelizmente, alguns descambam para vícios, então tem que ter cuidado. Mas o fato é que fazer essas pequenas coisas é uma pequena vitória para quem está passando por uma fase difícil da depressão. Então não seja aquela pessoa que fala “aff, você só lê” ou “como uma pessoa depressiva tá com a mão sempre feita” ou ainda “quem tem depressão não vai viajar”, coisas desse tipo. São comentários que denotam ignorância, falta de empatia e um tom de julgamento completamente desnecessários, que não ajudam quem ouve nem quem comenta.

Ter aprendido a me organizar e desenvolver esse conceito que hoje consigo denominar como produtividade compassiva foram essenciais para mim. Eles não substituem (obviamente) o tratamento adequado para a depressão, assim como acontece com qualquer outra doença que depende de tratamento apropriado, mas ajudam, complementam, e muito, no dia a dia. Porque a vida continua acontecendo mesmo quando você não tá muito legal. E a organização das coisas e esse olhar compassivo para dentro, entendendo como está o seu nível de energia e se respeitando, fazendo o possível, foram essenciais para mim – e ainda são – em momentos mais difíceis.

Espero que este relato pessoal tenha sido útil de alguma maneira para ajudar quem tem depressão e também para quem convive com pessoas próximas que tenham.

Ficam ainda algumas recomendações de leituras que me ajudaram e que indico para saber mais:

Obrigada por ler até aqui. ❤ Fique bem.

Meu nome é Thais Godinho e eu estou aqui para te inspirar a ter uma rotina mais tranquila através da organização pessoal.

Vida Organizada. 5.3.2022.

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