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Exorcismo: entenda como funciona ritual que divide opiniões na Igreja Católica

Padre Vanilson da Silva, último exorcista do Distrito Federal, foi proibido de atuar pela Arquidiocese de Brasília — Foto: Facebook/Reprodução

Discussão sobre prática voltou à tona depois que último padre exorcista do DF foi proibido de atuar; Arquidiocese de Brasília diz que vai escolher novo sacerdote. Conforme CNBB, prática pode afastar espíritos malignos.

Uma polêmica envolvendo um padre do Distrito Federal reacendeu o debate sobre a prática do exorcismo na Igreja Católica. Segundo a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), o ato do exorcismo se vale de rituais, palavras e oráculos e é baseado em ensinamentos da Igreja, para expulsar espíritos malignos – das pessoas, lugares e objetos que são supostamente possuídos ou atormentados por eles.

O ritual divide opiniões na religião e, para atuar com a prática, o sacerdote precisa ter autorização. Nesta semana, o padre Vanilson da Silvaúltimo exorcista da capital federal, disse ter sido proibido de atuar pela Arquidiocese de Brasília.

Em nota, a entidade confirmou o afastamento e disse que vai nomear um novo padre apto a realizar exorcismos. No entanto, nenhuma das partes explicou o motivo da mudança (veja mais abaixo).

Segundo o professor do departamento de Ciência da Religião da PUC-SP, Edin Abumanssur, “[O ritual] não é uma coisa absurda dentro da Igreja Católica”. Ele explica que a prática segue normas, mas que há padres que não concordam com o exorcismo. Um dos motivos pode ser a discordância do que seria uma possessão no conceito da igreja.

“O próprio ritual dá margem para que a ideia da possessão seja compreendida como uma questão psiquiátrica”, diz Edin Abumanssur.

O professor acredita que o exorcismo é mais alvo de polêmica entre grupos específicos. “É um tabu em um meio mais intelectualizado, segmentos mais afluentes, que dão outra interpretação”, diz ele.

‘Último recurso’

'Superlua' é vista através da silhueta de uma cruz de uma igreja em Havana, Cuba — Foto: Reuters
‘Superlua’ é vista através da silhueta de uma cruz de uma igreja em Havana, Cuba — Foto: Reuters

Para o professor, o exorcismo deve passar por um protocolo rígido e ser considerado apenas como último recurso. “O padre tem que ter muita certeza, deve ter analisado exames psiquiátricos antes de realizar o exorcismo.”

Caso seja praticado, Abumanssur destaca que o ritual deve ser discreto, na presença apenas de familiares.

Para o professor, historicamente, o exorcismo é uma forma que as pessoas encontraram para lidar com a dor e o sofrimento. Ele afirma ainda que a prática não é exclusiva da crença cristã, sendo que rituais semelhantes são encontrados em outras culturas.

Mudanças na Igreja Católica

Em 1999, a Igreja Católica fez a primeira grande atualização nas regras sobre exorcismo desde 1614, distinguindo a possessão demoníaca de doenças físicas e psicológicas. Uma cartilha, lançada em 2017, recomenda que cada bispo nomeie um padre, em sua diocese, para esta função. A recomendação é feita com base no Direito Canônico, conjunto de leis que regula a Igreja.

Em 2018, o Vaticano abriu as portas para um curso anual de exorcismo, em meio a uma demanda crescente de comunidades católicas ao redor do mundo. Cerca de 250 padres, de 50 países, participaram para, entre outras coisas, aprender a identificar uma “possessão demoníaca”, ouvir testemunhos de colegas e conhecer os rituais para a “expulsão de demônios”.

Um ano antes, o Papa Francisco havia dito para sacerdotes que a maioria dos transtornos são de porte “psicológico” e que, portanto, devem ser curados “através da colaboração sadia com as humanidades”. No entanto, o papa reconheceu que certos problemas espirituais podem necessitar de exorcistas.

Proibição do ritual no DF

Na última quinta-feira (10), o padre Vanilson da Silva, que atuava na Associação Padre Júlio Negrizzolo, na região de São Sebastião, no Distrito Federal, divulgou um comunicado aos fiéis. No texto, o religioso informou ter sido proibido de atuar, mas não citou o motivo que levou à medida.

Ele disse apenas que as reuniões que culminaram na decisão foram realizadas sem a presença dele.

“Me senti violentamente desrespeitado. Eu, como objeto das reuniões, nunca fui ouvido”, disse no texto.

Após a polêmica, a Arquidiocese de Brasília afirmou, em nota, que “as tratativas foram iniciadas para melhor discernir tanto o bem do referido sacerdote como do Povo de Deus”. No entanto, também não esclareceu o motivo para o afastamento e a nomeação de um novo sacerdote.

Segundo a arquidiocese, cabe ao arcebispo Dom Paulo Cezar Costa “discernir e orientar a condução pastoral”. Veja íntegra da nota abaixo:

“A Arquidiocese de Brasília, zelosa pelo bem do Povo de Deus e de seu cuidado pastoral, esclarece que por motivos justos iniciou tratativas com o superior da Congregação do Santíssimo Redentor de Goias, o Rev. Pe. André Ricardo de Melo, C.Ss.R. responsável pelo Pe. Vanilson Sousa Silva, C.Ss.R., atualmente Vigário da Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro – Lago Sul. As tratativas foram iniciadas para melhor discernir tanto o bem do referido sacerdote como do Povo de Deus assistido pelo mesmo em nossa amada Arquidiocese de Brasília.

Na gravidade de suas responsabilidades, é próprio do Arcebispo discernir e orientar a condução pastoral do Povo de Deus e ao Provincial, superior do Pe. Vanilson, também orientar o que cabe à vida do referido religioso. Pedimos a todo o Povo de Deus a confiança e a solicitude para com o discernimento da Igreja, expresso por suas autoridades, que no zelo pastoral querem, sobretudo, corresponder ao amor a Cristo e à Igreja, fazendo-se próximos de todos, tanto do Pe. Vanilson como de todo o Povo de Deus.

Convém destacar, também, que todos os sacerdotes, pela natureza de seu ministério e configuração a Cristo, possuem faculdade para atender o Povo de Deus em suas necessidades espirituais. Contudo, em breve será oportunamente nomeado outro sacerdote para a função de exorcista, referência significativa para esta cura pastoral específica.

Nada mais para o momento.

Gabinete Episcopal”

G1. 17.2.2022.

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