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O medo, a coragem, o tempo e nós

Por Gisele Souza Gonçalves

Depois de um ano exaustivo e com muitas angústias, janeiro também nos trouxe novas preocupações, além de perdas. É incrível como sempre temos uma noção de que o ano acaba e com ele as dores. Com o tempo, vamos percebendo que isso são crendices e que o passado não será reestruturado com uma rápida virada de ano. Apesar de tudo, muitos de nós, começamos o ano com uma certa insistente esperança. Eu continuo acreditando que é preciso esperançar.

Em cada conflito, perda, decepção vamos compreendendo mais sobre o mundo, nós e os outros. Nem sempre são boas descobertas. É no sofrimento que percebemos quem está conosco (mesmo longe), com afetos e palavras que, pelo momento sensível pelo qual passamos, ficarão sempre na memória.

Continuo lendo sempre que possível, buscando nas leituras o abraço do saber, do pertencimento e a curiosidade pela vida. Entre as leituras que tenho feito, destaco a extraordinária bell hooks[1] que escreveu:

Desde os tempos de menina, livros têm me oferecido visões de novos mundos diferentes daquele com o qual eu tinha mais familiaridade. Como terras exóticas e estranhas, livros me proporcionam aventura, novas formas de pensar e de ser. Sobretudo, apresentaram uma diferente perspectiva, que quase sempre me forçava a sair da zona de conforto (HOOKS, 2020, p.9).

Ainda no mesmo livro, “E eu não sou uma mulher?”, bell hooks conta sobre como inicialmente se deu sua participação no movimento feminista:

Minha experiência como jovem negra não era reconhecida. Minha voz, assim como a de mulheres como eu, não era ouvida. Sobretudo, o movimento mostrou como eu me conhecia pouco e também como conhecia pouco meu espaço na sociedade. Enquanto não consegui fazer minha voz ser ouvida, não consegui pertencer verdadeiramente ao movimento. Antes de exigir que os outros me ouvissem, precisei ouvir a mim mesma, para descobrir minha identidade (HOOKS, 2020, p.10).

O que pretendo expressar a partir dos trechos de bell hooks é que a leitura nos propõe maneiras diferentes de pensar sobre algo, além de nos trazer elementos que nos fazem pensar sobre nossos processos. Como o fato de não sermos reconhecidos em um determinado espaço e só depois de um tempo entendermos o motivo, o que nos leva a avaliar este lugar e o que em nós não é aceito. Depois desse processo, é possível nos fortalecermos ainda mais legitimando quem somos ou nos afastando de determinados espaços. Todavia, independentemente da nossa escolha perante a situação, faremos um movimento interno para saber mais sobre nós e os outros, e se estes nos merecem ou ainda o que é necessário para que nos ouçam.

Neste caminho de busca e compreensão, provavelmente sentiremos medo entre outros sentimentos, muitas dúvidas aparecerão e fico animada e incomodada quando elas surgem, porém sei o quanto são necessárias. Paulo freire, em “Cartas a Cristina”, relata suas experiências infantis com o medo e deixa algo muito bonito para pensarmos:

O meu medo, contudo, não era maior do que eu. Começava a aprender que, embora manifestação de vida, era preciso estabelecer limites a meu medo. No fundo, experimentava as primeiras tentativas de educação de meu medo, sem o que não criamos a coragem (FREIRE, 2021, p.59).

O medo não precisa ser maior do que nós. A coragem de dizer o que sente ou ao menos assumir para si o que causa desconforto e buscar respostas é um ato corajoso e, possivelmente, pessoas fortes assumam o risco de entender que temos fraquezas e busquem compreendê-las. A vida tem me ensinado muito sobre fraquezas e é a partir delas que descubro a minha força numa relação contraditória que encontro em mim, afinal, somos humanas. Ter medo faz parte de nossos processos, mas enfrentá-los é um caminho que nos faz reconhecer nossa força muito mais do que imaginamos. O agora permite isso: perceber o quanto crescemos em relação ao antes para enfrentarmos os conflitos futuros que eu ainda luto por não antecipar na minha mente.

O medo do não pertencimento pode nos acompanhar por muito tempo, mas quando entendemos quem realmente somos, o medo maior é de não valorizarmos nossa identidade como merecemos. Que o medo não nos limite, mas sim nos desafie a buscar o nosso verdadeiro eu.

Referências

FREIRE, Paulo. Cartas a Cristina: reflexões sobre minha vida e minha práxis/ Paulo Freire; organização e notas de Ana Maria Araújo Freire. São Paulo: Paz e Terra, 2021.

HOOKS, bell. E eu não sou uma mulher?: mulheres negras e feminismo/bell hooks; tradução Bhuvi Libanio. 7ª ed. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2020.


[1] Escrito com letras minúsculas como a autora sempre usou.

Gisele Souza Gonçalves. Professora e Doutoranda pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE). Mãe. Colunista do Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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