
Comportamento tem nome inspirado no clássico de Oscar Wilde
No livro O Retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde narra a história de um homem hedonista e narcisista, tão preocupado com a manutenção da sua juventude que fica fascinado com a imortalização de seu retrato ainda jovem. Ele expressa o desejo de que o retrato envelheça em seu lugar – e é isso o que acontece, permitindo que o personagem continue a perseguir seus prazeres e paixões da flor da idade.
O personagem é tão marcante na literatura e na psicologia que acabou influenciando o nome de um fenômeno cultural e social: a Síndrome de Dorian Gray. Ela é caracterizada por um orgulho masculino extremo com sua aparência e dificuldades em lidar com a maturidade do envelhecimento.
A Síndrome de Dorian Gray é caracterizada por diversos sintomas que se sobrepõem, combinando-se com diagnósticos de dismorfofobia, traços narcisistas e a imaturidade de um desenvolvimento interrompido, frequentemente identificado em parafilias – um distúrbio caracterizado por práticas sexuais socialmente não aceitas.
Para preservar o viço da juventude, estes homens tendem a consumir cosméticos, realizar cirurgias plásticas ou procedimentos estéticos, além de consumir drogas contra impotência sexual. Provavelmente tudo o que o próprio Dorian Gray teria feito com as modernidades disponíveis hoje.
História e causas da Síndrome de Dorian Gray
A primeira vez em que este termo foi utilizado ocorreu em um simpósio sobre a busca irreal dos homens pela juventude eterna e a perfeição física. Intitulado The Dorian Gray Syndrome: Psychodynamic Need for Hair growth restorers and others “fountains of youth” [A Síndrome de Dorian Gray: A necessidade psicodinâmica de restauradores de crescimento capilar e outras “fontes da juventude” foi apresentado em 2001, quando os primeiros estudos deste fenômeno foram conduzidos.
Esta síndrome específica surge a partir do encontro e sobreposição de noções clínicas de transtorno de personalidade narcisista, dismorfofobia e parafilia. Em termos psicodinâmicos, o homem com Síndrome de Dorian Gray apresenta as seguintes características:
Tendências narcisistas: a idealização da beleza eterna;
Desenvolvimento interrompido: uma incapacidade de amadurecer psicologicamente;
Adoção de um “estilo de vida médico”: restauração capilar, uso de drogas (principalmente para impotência, perda de peso e estabilizadores de humor), procedimentos estéticos e cirurgias plásticas para se manter jovem.

Sintomas e consequências psicológicas
Quer saber se você (ou um amigo) tem a tal da Síndrome de Dorian Gray? Fique atento aos seguintes sinais:
Sintomas de dismorfofobia: ter uma obsessão e acreditar que o seu corpo ou uma parte dele tem falhas graves e que precisa de medidas drásticas para escondê-las ou corrigi-las.
Desenvolvimento interrompido: aqui estamos falando do desenvolvimento psicológico, de alguém que nunca conseguiu superar determinada fase da vida, como a adolescência ou os primeiros anos da vida adulta. No Brasil há um termo popular conhecido como “adultescente”. É diferente da Síndrome de Peter Pan, na qual o indivíduo estaciona na infância.
Fazer ou ter feito uso de pelo menos dois destes produtos ou serviços estéticos: restauração de crescimento capilar, drogas para perda de peso, drogas para combater a impotência sexual, antidepressivos sem uma recomendação psiquiátrica, procedimentos estéticos, cirurgia plástica.
Casos mais graves da Síndrome de Dorian Gray podem levar a deformações causadas pelo excesso de intervenções estéticas, intoxicação pelo uso indevido de drogas, depressão e até mesmo crises suicidas. Nestes casos, o acompanhamento psicológico, e em alguns casos psiquiátrico, é recomendado para o tratamento adequado.
Em uma sociedade tão obcecada com aparências e a juventude eterna, é provável que este fenômeno se torne cada vez mais comum. Entender o nosso ciclo de vida, aceitar e abraçar a inevitabilidade do envelhecimento é o primeiro passo para não cair em uma obsessão que não tem um desfecho lá muito bom. Oscar Wilde já nos avisou disso.






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