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Metaverso: nosso futuro sombrio

Por Álefe Nícolas dos Santos de Carvalho

Startups brasileiras apostam no metaverso - Revista Oeste

Eles criarão espaços de convivência social, jogos e entretenimento que ofereçam experiências que só podem ser definidas com uma palavra: viciantes. Esse é o primeiro passo das grandes empresas de tecnologia para introduzir na humanidade uma nova cyber-realidade. Diferente da realidade não digital, na cyber-realidade do Metaverso você pode fazer o que quiser, quando e como quiser. E é esse sentimento de liberdade em face das incontáveis possibilidades que vai gerar o fator viciante na equação do Metaverso. Afinal, por que passar seu tempo de lazer no mundo real, onde você não pode voar, ir de Paris para Tóquio em um instante ou ver um show do Lil Nas X no Roblox? Claro, o mundo digital ao qual já temos acesso, a internet, é também muito viciante. Mas o Metaverso será milhares de vezes mais viciante do que a internet, devido ao seu caráter imersivo.

Depois de te viciar nas ferramentas de entretenimento do Metaverso, as grandes empresas de tecnologia digitalizarão o espaço de trabalho. Cada vez mais se tornará comum não sair para trabalhar, mas sim, trabalhar de casa. Como um Home Office, só que você vai estar presente no ambiente de trabalho. Virtualmente.  Um professor vai dar aula numa sala de aula virtual, um médico atenderá seus pacientes num consultório virtual, essa é a tendência. As profissões que precisam ser realizadas pessoalmente começarão a diminuir, sendo substituídas por máquinas. Logo, a grande maioria da população trabalhará no Metaverso, e os serviços de diferentes empresas se integrarão, formando um ambiente interligado, vasto e inescapável.

Uma vez que você passe seu tempo de lazer e de trabalho no Metaverso… Não existirão muitos motivos para sair dele. Afirmo tranquilamente que em poucas décadas a maioria das pessoas passará mais tempo conectada no Metaverso do que desconectada.

“E o que há de errado nisso? Se as pessoas querem viver no Metaverso, que vivam”, pode pensar nesse momento o meu leitor mais desavisado. Para este questionamento, respondo que é necessário analisar as implicações de uma vida intensamente conectada a uma cyber-realidade controlada por empresas:

-Sua privacidade simplesmente deixará de existir. Sim, as empresas de tecnologia já roubam grande parte de suas informações e as vendem, e sim, o Facebook já sabe tudo sobre sua vida online. Porém, esse nível de controle de nossos dados será ainda mais ampliado com o Metaverso, na medida em que cada expressão de contentamento ou descontentamento poderá ser captada e armazenada. Todas as suas ações dentro dessa cyber-realidade estarão sendo espionadas, sem exceção.

-“Mas qual é o problema das empresas saberem tudo sobre mim?” você pode estar pensando. É simples: isso dá para estas empresas uma capacidade de manipulação sobre sua mente. Por exemplo, se 50 anos atrás uma marca de tênis lançasse um modelo direcionado ao público jovem, essa marca faria uma pesquisa de mercado, analisando quais as tendências entre os jovens, e então elaboraria uma campanha publicitária que reunisse os interesses do público alvo. Entretanto, se esta mesma marca for lançar um modelo para o público jovem daqui a 50 anos, ela pode comprar as informações sobre você, jovem leitor (informações estas que estão todas armazenadas nos servidores das empresas que integram o Metaverso), e direcionar anúncios específicos, anunciando exatamente tudo que você sempre quis num tênis. Assustador? Pois é isso que já está acontecendo atualmente (não apenas com marcas, mas com política; campanha que elegeu Trump fez exatamente isso para virar votos de indecisos), e que acontecerá com uma intensidade muito maior dentro do Metaverso. Pare por um minuto, leitor, e imagine todas as consequências políticas e sociais disso.

-Tudo sobre você, armazenado num servidor. É questão de tempo até que países autoritários tentem usar desse banco de dados para expandir seu controle sobre sua população. Por exemplo, o governo Russo terá todas as informações de qualquer pessoa que desafie a autoridade de Putin no Metaverso. Os Estados Unidos poderão expandir ainda mais a atuação de seu serviço secreto no exterior, ampliando ainda mais sua interferência em outros países.

– Essas informações detidas pelas instituições sobre nós serão usadas para ampliar nossa bolha digital.  Se você pertence ao espectro político X, o Metaverso lhe mostrará apenas notícias que confirmem suas crenças, te conectará apenas com pessoas que concordem com você e te sugestirá conteúdos que condizam com seu posicionamento. O problema de radicalização que a internet já possui aumentará ainda mais, em proporções incalculáveis. Para um usuário do Metaverso, será como se não existisse outro posicionamento válido senão o seu, afinal, ele não tem contato com nenhuma verdade senão a sua.

-E por fim, o mais grave dos problemas. O Metaverso será viciante, intenso e prazeroso. Ele oferecerá tudo que você precisa para se sentir livre, quando na verdade, está te prendendo a uma realidade ilusória e manipulada. Ele confirmará todas as suas opiniões, irá te sugerir um entretenimento específico para satisfazer sua personalidade, e oferecerá possibilidades de fazer o que você gostaria de fazer no mundo real, mas não pode. Com tudo isso, o Metaverso busca te deixar cada vez mais dependente da cyber-realidade. Afinal, quanto mais tempo você passa nela, mais dinheiro e mais poder você concede àqueles que te controlam.

No pior dos casos, que temo que tenda a se realizar, o cidadão médio do futuro vai viver a maior parte do seu dia trabalhando e se divertindo no Metaverso (fora da cyber-realidade, ele se sentirá deprimido e em abstinência da euforia que sente quando todos seus desejos são realizados no mundo virtual), e as empresas de tecnologias coletarão todas as informações sobre a vida privada de cada um dos usuários. Essas empresas e governos serão capazes de manipular a opinião pública a seu favor através de conteúdos direcionadas a cada perfil de usuário, que acreditará cegamente em tudo que uma mídia comprada lhe disser. Na realidade não virtual, quem não tiver dinheiro para se juntar ao Metaverso viverá na miséria, sem empregos formais, esquecidos, invisíveis.

No melhor dos casos? Acho que já passamos há muito tempo de supor que existe um melhor dos casos. Só vamos torcer para que daqui a 100 anos não estejamos num mundo distópico, com o cérebro conectado numa máquina, sendo alimentados por um tubo, consumindo uma infinidade de conteúdo e entretenimento no Metaverso que nos distraia da mediocridade que uma existência virtual acarreta.

Álefe Nícolas dos Santos de Carvalho, Estudante do terceiro ano do Ensino Médio e escritor jornalístico.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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