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Dias de luto, dias de luta

Por Gisele Souza Gonçalves

Revivia o que passara, coisas tristes, triste mesmo! Algumas alegres num tempo de esperanças. Foi justamente a esperança que ele procurou. Procurou a esperança bem lá no fundo do coração e só escutou a batida seca e dura do órgão. Eta coração velho! Quando iria terminar tudo aquilo? Seria agora?

Conceição Evaristo, em “Becos da Memória”.

Em um dos meus textos, publicado em janeiro deste ano, escrevi sobre as lembranças que tenho da minha tia avó. Foi uma escrita que me fez lembrar de tantas coisas boas e me encheu de saudades. Eu estava, naquele período, pensando em pessoas que se foram e que marcaram nossas vidas tão maravilhosamente. Não imaginava que, menos de dois meses depois, outras duas pessoas que marcaram minha infância e toda a vida também deixariam lembranças e saudades. O luto nos assombra e nos transforma, nos leva a sensações e sentimentos que nunca pensamos ter.

A pandemia trouxe um luto pelo luto dos outros e mais o luto que é meu. Luto é também luta: por deixar os sentimentos falarem dentro de nós; por levantar da cama quando se quer ficar; por chorar sempre que necessário sem mais importar com o que os outros dizem. Luto é luta!

Ler é sempre um conforto, no luto não seria diferente. E entre as leituras deste período, algumas me fizeram perceber que a morte assombra a todas e todos, traz inquietações e questionamentos. Ser forte nem sempre é possível.

As palavras de Chimamanda, em “Notas sobre o luto”, me abraçaram e me fizeram pensar em quanto não sabemos o que dizer para acolher um enlutado e, por vezes, falamos o que não ajuda. Estamos todas e todos aprendendo, eu sei; mas, como algumas palavras nos afligem muito mais do que confortam! Foi bom ler essas palavras e identificar essa humanidade que a dor traz à tona:

Que fácil fazer um sermão sobre o caráter definitivo da morte quando na verdade é justamente o caráter definitivo da morte que é a fonte de aflição. Eu hoje me envergonho das palavras que já disse a amigos enlutados. “Encontre paz nas suas lembranças”, eu costumava dizer. Ter um amor arrancado, sobretudo quando isso é inesperado, e depois ouvir que se deve recorrer às lembranças. Em vez de virem me acudir, minhas lembranças trazem eloquentes pontadas de dor que dizem: “É isso que você nunca mais vai ter” (ADICHIE, 2021, p. 38, grifos da autora).

E depois de ouvir tantas palavras – de conforto na perspectiva do outro e, talvez, de vazio na nossa – os dias passam e as pessoas seguem suas vidas enquanto o enlutado tenta fingir seguir. Mia Couto soube bem expressar um dos sentimentos do luto: “A cicatriz tão longe de uma ferida tão dentro: a ausente permanência de quem morreu” (COUTO, 2003, p.15). Você nem precisa de foto, vídeo ou recordações alheias: quem se foi deixa em tudo sua presença, porque a nossa mente não se esquece do que aconteceu por nenhum dia.

Os pensamentos vão e vêm: lembranças; suposições de como seria o agora se o passado fosse diferente; projeções de como seria o amanhã com aqueles que amamos perto de nós. Buscamos continuar e, de repente, vem aquela dor no peito que confirma tudo o que houve. Como reagir? Com luta. Viver é lutar, resistir é lutar, sentir é lutar. É na fraqueza que reconheço a força que tenho por assumir essa tristeza e essa revolta. É no amor que me ensinaram que encontro a força. Eu sigo, mas não esqueço; sentir amor, dor e indignação é próprio da humanidade, aos que se permitem sentir, bem-vindos à luta.

Referências

ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Notas sobre o luto/Chimamanda Ngozi Adichie; tradução Fernanda Abreu. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2021.

COUTO, Mia. Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra/ Mia Couto. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

EVARISTO, Conceição. Becos da Memória/ Conceição Evaristo. 3ª ed. Rio de Janeiro: Pallas, 2017.

Gisele de Souza Gonçalves. Professora e Doutoranda pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE). Mãe. Colunista do Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

5 comentários em “Dias de luto, dias de luta Deixe um comentário

  1. Lindas lembranças gi
    Iremos carregar pra sempre que amamos
    Nosso corações 💕
    Vamos que vamos
    Vida continua!!
    PARABÉNS VC E DE MAIS
    MINHA ESCRITORA FAVORITA!

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  2. Lindas lembranças gi
    Iremos carregar pra sempre que amamos
    Nosso corações 💕
    Vamos que vamos
    Vida continua!!
    PARABÉNS VC E DE MAIS
    MINHA ESCRITORA FAVORITA!

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