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Fraude – O Destino Iminente dos Prodígios Escolares

Por Álefe Nícolas dos Santos de Carvalho

O que acontece com as crianças-prodígio quando elas crescem? - BBC News  Brasil

Que a educação brasileira é decadente é um consenso na sociedade. Inclusive, pode-se afirmar ainda que a decadência do sistema brasileiro de educação é a confirmação da máxima popular “Não há nada que não possa piorar”. Um tópico sempre muito discutido no Brasil é a precariedade das instituições educacionais, e os efeitos desta nos alunos: número de não letrados, contingente de analfabetos funcionais, quórum de evasões escolares. Todavia, o que deixa de ser discutido, talvez por realmente não ser tão grave, não obstante, ainda sim ser preocupante, são os efeitos prejudiciais à saúde mental dos estudantes supervalorizados em suas escolas.

Priorizemos em nossa análise os alunos das séries iniciais, que ainda não têm autonomia para rejeitar expectativas colocadas sobre si. Quando adentra-se o Ensino Fundamental I, com seis ou sete anos, o sistema educacional começa a fracassar. No geral, conforme os conteúdos introdutórios começam a ser apresentados, os escolares com facilidade a aprender começam a receber rótulos de seus professores, que logo são adotados por todos os outros companheiros: “esse aluno é inteligente”. Quando afirma-se que, entre uma turma de crianças de 6 anos, uma dessas é “mais”, “muito” ou “especialmente inteligente”, deixa-se implícito que os outros estudantes não estão no mesmo patamar intelectual, o que é uma mentira. Esses primeiros rótulos colocados são a primeira vez que o sujeito assimila a ideia de que não é como os outros, é diferente. Ele recebe uma atenção especial de seus educadores, por ser “inteligente”, e começa a compreender que existem expectativas mais altas sobre seu desempenho, e que tem tudo à perder: qualquer sinal de erro, falha ou mediocridade, pode fazê-lo perder toda essa atenção especial que recebe. Para uma criança, não há nada pior do que receber menos atenção.

Conforme o aluno envelhece, esse abismo imposto entre ele e “os outros” cresce. Apesar de, em muitos casos, as expectativas exteriores impostas sobre o sujeito diminuírem, a expectativa que o próprio estudante coloca sobre si mesmo tendem a aumentar conforme os desafios da vida, não apenas acadêmica, se tornam mais complexos. Inevitavelmente, em algum momento de nossas trajetórias, estamos todos sujeitos a cometer erros e demonstrar imperfeições. Esse Aluno-Prodígio, todavia, que ouviu e acreditou que é mais inteligente que todos os outros, não aceita que possa cometer falhas. Ele cresce para se tornar o adulto que não aceita que cometeu um equívoco no trânsito, ou ainda, não aceita que perdeu na pelada, ou mesmo não aceita que qualquer aspecto de sua vida que não dê certo seja sua responsabilidade.

Ademais, esse mesmo Aluno-Prodígio cria uma dependência enorme de validação de seus superiores. Ele acaba por tornar-se aquele funcionário que puxa o saco do chefe e trabalha muito mais do que precisava, simplesmente para ser considerado um bom subordinado por seu patrão; também faz doações exorbitantes para a instituição religiosa que frequenta, buscando afirmação de como generoso é; assim como não enxerga sentido em se esforçar em busca de um objetivo, caso não seja vangloriado quanto atingi-lo.

 Todos esses fatores são sintomas da Fraude. A Fraude não é em si o comportamento, mas a expectativa que o Aluno-Prodígio coloca sobre si mesmo pelo resto de sua vida. Quando criança, ele aprendeu que eram depositadas em seu desempenho altíssimas expectativas, e por isso, mesmo após deixar o ambiente escolar, continua projetando essas exorbitantes expectativas em si mesmo, e aí se encontra a Fraude. Quando um indivíduo se convence de que não pode falhar, de que tem um intelecto superior e de que, entre os bilhões de humanos, é de alguma forma especial, esta é a Fraude. É um enorme emaranhado de mentiras que ele conta para si mesmo, como uma rede de segurança, que o impedem de questionar o bem mais valioso que possui, sobre o qual seu caráter e personalidade foram edificados: a certeza de ser superior.

Álefe Nícolas dos Santos de Carvalho, Estudante do terceiro ano do Ensino Médio e escritor jornalístico.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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