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Nise: entre a cura e a loucura

Por Liliam Beatris Kingerski

Nise da Silveira: a mulher que revolucionou o | Direitos Humanos

O que cura é a alegria,

o que cura é a falta de preconceito.

Nise da Silveira

Por que eu escrevo?

Cada vez que escrevo, é como se escrevesse sobre o mundo, afinal é a minha tradução do que vejo e sinto!

A escrita está intimamente ligada ao que sou, me vejo nela, mais do que isso, me sinto nela…quando escrevo penso que quem vai ler, vai levar algumas palavras ou pensamentos, vai pensar sobre si e sobre o tema que me fortalece, as mulheres!

Enquanto leio mulheres, pergunto: – O que as motivaram  a escrever?

Elas contam suas histórias, cheias de resistência, e através da escrita, elas lutam…lutam por um mundo melhor, lutam por seus direitos; as palavras se debatem contra as violências e clamam por serem ouvidas…essas mulheres vivem através da escrita!

Esse mês tentei escrever várias vezes, e as palavras insistiam em ficar apenas em minha mente; nem sempre a escrita é agradável e afável, ela também pode ser sinônimo de nossas tristezas…mas ainda assim, são a nossa forma de ver o mundo e de expressar o que sentimos!

Por vezes, me sinto só, mas a escrita me acompanha!

Um dia, assistindo a tv, me chamou a atenção o fato de que, alguns estudos sugerem, que as mulheres são mais diagnosticadas com problemas mentais.

Essa informação me faz lembrar que não foram poucas as vezes que vi mulheres serem chamadas de loucas!

Mas afinal:- o que é loucura? O que faz com que alguém seja assim denominada?

Por vezes, me pergunto, com tom de afirmação, se  ser louco é estar fora dos padrões  aceitos e impostos pela nossa sociedade.

Questiono ainda: -Mas haveria uma lógica  na loucura?

As perguntas parecem não cessar…

Esse mês busquei compreender um pouco de outra mulher, que mesmo sem ler muito a seu respeito, passei a admirar: Nise da Silveira (1905-1999)!

Possuímos o hábito de colocar os conhecimentos e pessoas “dentro de caixinhas”, como se tivéssemos uma necessidade disso; devemos olhar para o mundo e desconstruí-lo; comecemos por essa mulher, que não é considerada uma filósofa, por isso já me sinto à vontade para denominá-la como uma filósofa brasileira.

Mulher que estudou psicologia, medicina- vale a pena citar que foi a única mulher da turma na época, terapia ocupacional, artes, arquitetura, museologia, políticas públicas, ciências sociais, etc.

Aqui vale lembrar que continuamos a lutar contra o apagamento das mulheres na filosofia!

Nise escreveu “Cartas a Spinoza”; Livro composto por sete cartas escritas por Silveira destinadas ao filósofo Spinoza, e nelas ela  consegue tratar e entrelaçar sua vida com a biografia de Spinoza; Um texto pouco formal, um diálogos entre filósofos. Nise demonstra muito afeto pelo filósofo; escreve com verdadeiro carinho; e parece transparecer como a filosofia deveria ser, um diálogo apaixonado, cheio de descobertas e de emoção, sempre em busca de conhecimento!

Quando busquei compreender Nise, logo me veio à mente outro filósofo, Michel Foucault, conhecido como filósofo por estudar a respeito da loucura.

-Mas por que eu conhecia Foucault e não conhecia Nise?

Novamente me deparo com um filósofo, homem, reconhecido e uma mulher, que trata de temas semelhantes, desconhecida.

Fico a refletir:-Quais são os parâmetros utilizados para denominar filósofos e filósofas?

Insisto em conhecer melhor essa mulher:

Nise trabalhou em 1944 no Centro Psiquiátrico Nacional Pedro II, no Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro; ela era contra as técnicas psiquiátricas que considerava agressivas aos pacientes. No lugar das tradicionais técnicas utilizadas para cuidar dessas pessoas, às quais não admitia serem chamados de loucos, mas clientes, ela passou a utilizar a arte com a intenção de possibilitar aos doentes reatar seus vínculos com a realidade, revolucionando a Psiquiatria então praticada no país.

Nise percebeu e valorizou a humanidade;  fundou em 1952 O Museu da Imagem do inconsciente, no Rio de Janeiro, contendo obras de seus clientes; esse espaço foi destinado à preservação dos trabalhos produzidos no Engenho de Dentro, na tentativa de compreendê-los.

Nise fez parte do Partido Comunista, tendo sido expulsa por discordar de algumas ideias; ainda foi presa durante o governo de Getúlio Vargas:

“Em 1936,início da ditadura Vargas, uma enfermeira do hospital, percebendo na minha mesa, em meio a livros de psiquiatria, literatura, arte, livros sobre marxismo, que eu também estudava, denunciou-me à diretoria.Na mesma noite fui presa (…) Perdi o emprego e fiquei afastada do serviço público, obtido por concurso, durante oito anos, sob a alegação de pertencer a um círculo de ideias incompatíveis com a democracia. Eu tinha contato com o Partido Comunista, mas não era uma militante política ativa.”[1]

Essa pensadora foi maravilhosa, e com certeza incomodou muito com seu jeito crítico e diferente de ver o mundo: por ver seres humanos onde todos viam loucos; por ver sensibilidade, onde a maioria não enxergava sentimentos; ao seu olhar sem preconceito e exclusão! Ela se definia: uma pessoa rebelde, que se negou a apertar o agressivo botão do eletrochoque.[2]

Tentemos nos encontrar na loucura desse mundo!

Por mais mulheres como Nise!


[1] Trecho do livro “Nise da Silveira – caminhos de uma psiquiatria rebelde”, de Luiz Carlos Mello;

[2]ttps://www.horizontesaosul.com/single-post/2018/08/02/rebeli%C3%A3o-e-revolu%C3%A7%C3%A3o-nise-da-silveira-e-os-destinos-da-sa%C3%BAde-mental-no-brasil.

Liliam Beatris Kingerski é professora de filosofia. Graduada em Filosofia, História e Sociologia, com pós-graduação em Política e Sociedade, História e Sociedade. Mestranda do programa PROF-FILO da UNESPAR. Pesquisadora da Filosofia Feminista, apaixonada por escritas de mulheres e Filosofia. Colunista do Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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