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Afinal, quem é Tobias Barreto?

Por Ari Paulechen Junior e Giulliane Fernanda Juraszek Sard

Tobias Barreto celebra 178 anos do patrono da cidade | Sergipe | G1

Afinal, quem é Tobias Barreto? Essa foi uma das primeiras questões com que nos deparamos (no conforto de nossos lares, com um gato no colo ou talvez uma caneca de chá nas mãos) em uma aula de filosofia da América Latina, por meados do mês de abril.

Alguns encontros mais tarde, descobrimos que esse sequer era seu nome completo, chama-se Tobias Barreto de Meneses, brasileiro, nordestino, nasceu no ano 1839 e, ao lado de Silvio Romero, Clóvis Bevilacqua e Joaquim Nabuco, liderou o movimento que ficou conhecido como Escola do Recife.

Entrou na faculdade de Direito aos 25 anos e foi amplamente influenciado pela filosofia espiritualista de Cousin, com quem mais tarde rompeu para alinhar-se ao positivismo de Comte, ainda que com algumas ressalvas. Defendeu o monismo, pensamento de Hegel e Heackel, e finalmente o culturalismo filosófico.

No Google, associado a ele encontramos a breve definição: “foi um filósofo, poeta, crítico e jurista brasileiro e fervoroso integrante da Escola do Recife, um movimento filosófico de grande força calcado no monismo e evolucionismo europeu. Foi o fundador do condoreirismo brasileiro e patrono da cadeira 38 da Academia Brasileira de Letras”.  É importante mencionar que a singularidade de seu estudo advém da relevância dada às suas posturas, sempre críticas e em mudança, que influenciavam o movimento filosófico da Escola do Recife e dos juristas em geral,  por isso, entender a evolução de seu pensamento é também assimilar as mudanças políticas e sociais que aconteciam no Brasil e compreender sua importância na construção da nossa filosofia. 

Tobias, em um primeiro momento, utiliza do positivismo, corrente que surgiu junto com o iluminismo, após a idade média, como uma arma para combater o espiritualismo, o positivismo, liderado por Augusto Comte, pregava que o único conhecimento verdadeiro era o científico.

  Oportunamente, reconhecendo a existência de outros tipos de conhecimento além do científico, como o conhecimento religioso e o prático, Tobias Barreto propõe uma nova corrente filosófica, denominada por Miguel Reale de culturalismo. A qual afirmava que a metafísica não estava morta, como asseguravam teóricos da época ao adotar um positivo exacerbado.

Do ponto de vista Epistemológico, defendia-se o Empirismo, que propõe que tudo o que sabemos é conhecido através dos sentidos, como o tato e a visão,  e na contravia, o Racionalismo, o qual indica que existe algo além dos sentidos e isso nos permite conhecer, e que estes, muitas vezes, nos enganam, como quando olhamos para o céu e achamos que o Sol tem o tamanho de uma bola de futebol, quando na verdade seu diâmetro tem aproximadamente 1.392.700 km.

A crítica de Barreto, contudo, buscou um meio termo entre os dois posicionamentos. Uma ideia muito palpável, pois o conhecimento pode prover das duas fontes, tanto dos sentidos, como saber que o concreto é áspero por tocar nele, como também da razão, ao saber que após um raio virá um trovão, algo que Kant explica em sua famosa obra, Crítica da Razão Pura.

Um de seus primeiros trabalhos teve o título de Deve a metafísica ser considerada morta?. Essa é uma pergunta que assola os filósofos, em especial, desde que Kant, em sua obra Crítica da Razão Pura, explica o porquê da metafísica não poder ser considerada uma ciência. Então, qual seria o papel da “filosofia primeira” de Aristóteles, considerado por muitos o precursor da metafísica, um conjunto de conhecimentos que não depende de qualquer dado sensorial? 

Após alguns estudos para descobrir qual seria o verdadeiro objeto de estudo da filosofia, Tobias argumenta que seria uma crítica ao conhecimento. Não como um novo campo do conhecimento, mas pelo estudo e determinação de questões que já estavam pressupostas pelas ciências particulares.  Essa redução da filosofia a apenas o estudo das ciências não aumentava o conhecimento, já que era necessário, sempre que possível, perguntar como e o porquê de as coisas serem como são. Desse modo, enquanto as ciências particulares, com base em seus dados obtidos, se contentam com um resultado limitado pelos sentidos, a metafísica vai além. 

 Esse movimento de perguntar “o porquê de algo” convergia até certo ponto com a questão científica, mas a extrapolava, à medida que a ciência, por meio da experiência, não conseguia mais retirar dados de seu objeto de pesquisa, enquanto que a metafísica, como uma ciência que não possui seu objeto de estudo no meio material, estava então em seu campo de conforto. 

Nesse viés, podemos pensar a ciência como a responsável por explicar, com base em dados obtidos, como o universo surgiu e como se desenvolveu, portanto, como todos nós surgimos. Em seguida, aparecerá a metafísica para questionar: “Mas o que existia antes do Universo?”

Tobias, então, para afastar essa ideia do positivismo, que tem como único conhecimento verdadeiro o científico, aponta a cultura como o novo objeto da metafísica. Essa seria responsável por analisar as ciências que as outras ciências estudam. Talvez um lugar privilegiado, como dito por Aristóteles, essa filosofia se encarregaria por  explorar “a experiência como seu objeto de estudo, assim como a física tem como objeto a dinâmica dos corpos”. Desse modo, Tobias indaga se essas ciências poderiam, então, explicar a si mesmas, caso contrário, seria necessária uma ciência maior, que englobasse todos estes tópicos, que é chamada metafísica. 

Segundo Kant, na Crítica da Razão Pura, estamos limitados a conhecer, pois não temos acesso ao objeto em si, apenas às “impressões” que ele nos proporciona, as quais nosso aparelho cognitivo transcendental tem acesso. Esse conhecimento científico é determinado pela experiência, e essa limitação é o que nos impede de conhecer o objeto verdadeiro, conhecemos apenas aquilo que somos capazes de observar, sentir, ou ouvir sobre ele, e assim criar uma representação em nossa imaginação.

 Descartes, um pensador que coloca a razão acima de tudo em seu exercício da dúvida hiperbólica, suspeitando até mesmo das verdades matemáticas e a sua própria existência, por meio da metafísica chegou a algumas conclusões, que do ponto de vista Kantiano, ultrapassam os limites da experiência, como a existência de Deus e a concepção de que o espírito é mais fácil de ser compreendido que o mundo material.

A metafísica parece ser uma ciência que, se munida de lógica, pode chegar a conclusões impressionantes, mas que estão longe de entrar em consenso com a experiência. Mesmo após levantar perguntas capciosas, parece-me que, quando o método científico consegue um meio de ligá-las à experiência, são respondidas de forma satisfatória, tendo em vista isso, até qual ponto podemos considerar o culturalismo de Tobias algo realmente metafísico? Como ver e interpretar além do que está sendo mostrado.

 Com o advento de Marx, por exemplo, e principalmente com o surgimento da sociologia, conseguimos compreender,  com a experiência, como os mecanismos culturais de um povo estão complexamente dispostos, algo que se apresenta como cultura, pode ser algo pautado na experiência e, portanto, passível do método científico, o que afasta cada vez mais a metafísica de seu campo de familiaridade.

Nesse sentido, é importante relembrar que Tobias Barreto, influenciado por sua origem e analisando a sociedade em constantes mudanças, questiona o poder senhorial vigente à época, baseado predominantemente na força e na subordinação. Discute com sua escola original, ao duvidar dos ensinamentos puramente religiosos, desconsidera os pensadores franceses e se volta para os alemães, em busca de argumentos. Duvida tanto da razão como do empirismo puro, tentando adotar um meio termo, e encontra no populismo e condoreirismo brasileiro o norte para seus estudos. Suas palavras eram, portanto, uma brisa fresca para os pensamentos libertários e, em contrapartida, um espinho nos olhos conservadores.  

Ari Paulechen Junior, Estudante de Filosofia UNESPAR.

Giulliane Fernanda Juraszek Sard, Estudante de Filosofia UNESPAR.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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