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“A outra da outra”: repensemos o feminismo branco

Por Liliam Beatris Kingerski

Por que o feminismo precisa considerar a interseccionalidade para avançar  em questões fundamentais? - Revista Glamour | Lifestyle

“Então, por que eu escrevo?

Eu escrevo quase como uma obrigação,

para me encontrar.”[1]

Tenho me sentido só. Sou eu e meus pensamentos e eles nunca foram tão meus! Me penso, me percebo e me perco em minhas contradições, buscando o tão procurado eu, a cada dia me sinto uma construção em pleno andamento, sou o que já fui e o que sou agora; e me reconheço neste processo de afirmação e reconhecimento de mim mesma. Sou também as negações de mim, nem sempre me sinto satisfeita.

Nas leituras que faço de textos e escritos de mulheres, sempre procuro questionar:

-O que podemos aprender com essas mulheres? o que elas nos ensinam? Qual a atualidade dos seus escritos? Por que devemos ler estas mulheres?

E neste trajeto de buscar o conhecimento, é como retirar o véu, e, em meio a leitura, a imagem dessas mulheres se mostram; a escrita foi e continua sendo uma forma de resistência, através dela lutamos contra a invisibilidade…Me sinto parte de cada mulher sobre a qual escrevo, talvez por que somos ou pelo menos devemos ser um pouco de suas lutas, somos a continuidade!

Há algumas semanas atrás, falando com minha amiga Eli, pessoa que devo dizer, conheci mais nesse período difícil, cujas conversas sempre foram de muito aprendizado e que sempre soube de meu apreço pelo tema voltado às mulheres, aliado a necessidade de dar visibilidade a elas enquanto produtoras de conhecimento. A amiga então me disse: – No teu próximo texto, escreva sobre uma mulher negra. Daquele dia até então, este tem sido um desafio que resultou nessas reflexões.

Enquanto observava as redes sociais, me deparei com uma postagem que questionava a existência de um feminismo conservador… pensando no feminismo enquanto movimento que acolhe a todas as mulheres. Sabemos que nem sempre foi assim e que já existiu um tempo em que as mulheres negras se entenderam fora desse movimento, que priorizava as mulheres brancas e, as opressões sofridas, que não eram as mesmas das mulheres negras, conforme nos fala Lélia Gonzalez:

 “Ser negra e mulher no Brasil, repetimos, é ser objeto de tripla discriminação, uma vez que os estereótipos gerados pelo racismo e pelo sexismo a colocam no mais alto nível de opressão […] Enquanto empregada doméstica, sofre um processo de reforço quanto à internalização da diferença, da subordinação e da ‘inferioridade’ que lhe seriam peculiares. Tudo isso acrescido pelo problema da dupla jornada, que ela, mais do que ninguém, tem que enfrentar”.[2]

Não posso deixar de lembrar: Jounerth Truth, que foi uma mulher negra, que foi escravizada e que lutou pelos direitos das mulheres negras. Foi pioneira na luta do feminismo negro, muito antes deste movimento ganhar força.

Na mesma linha, segue Lélia Gonzalez, filósofa, antropóloga, professora, escritora, intelectual, militante/ ativista do movimento negro e feminista brasileira. Trabalhou como babá e empregada doméstica. Escreveu alguns livros e textos para revistas denunciando as opressões contra o povo negro.

Lélia Gonzalez, de forma crítica, disse:“o lixo vai falar, e numa boa” [3]  ironizando a sociedade em que a pessoa negra sempre foi vista como “lixo”, mas que de forma hipócrita, esta sociedade tenta velar o racismo.

Teve um tempo em que Lélia rejeitou suas origens. E, seus traços negros fortemente marcados, deram lugar a uma mulher de cabelos lisos e a pele esbranquiçada pelas maquiagens utilizadas; Lélia não queria ser negra…

Lembro que meus alunos tiveram que responder a um questionário certa vez e nele solicitava que informassem a cor de pele; ao recolher esse documento, não pude deixar de observar que um aluno negro, se identificava como branco; lendo Lélia e conhecendo sua história, é impossível não associar…

Meu aluno queria ser branco, talvez tivesse vergonha da sua cor, assim como Lélia…

Ela viveu na pele o preconceito quando se apaixonou pelo homem que depois viria a ser seu marido, homem de pele branca; a família dele foi cruel, a tal ponto que ele não resistiu às pressões e se suicidou… Depois disso Lélia passou por um processo de enegrecimento, reconhecendo-se enquanto negra,assumindo sua identidade; não apenas isso, mas travando uma luta que ultrapassou as barreiras da universidade; Lélia foi militante e para além disso, suas batalhas foram travadas nas ruas e aos gritos!

Enquanto mulher reconheço que sofro muitas opressões na sociedade, mas também tenho que reconhecer os privilégios que tenho enquanto mulher branca, pois não tenho como saber o quanto uma mulher negra sofre na pele o racismo, a violência, a história marcada pela violência contra o povo negro. 

Falo através deste texto, por mais uma mulher, mulher negra que gritou resistência em nome do povo negro nas ruas, que denunciou e questionou a questão da democracia racial. Para Lélia: “Na verdade, o grande contingente de brasileiros mestiços resultou de estupro, de violentação, de manipulação sexual da escrava. Por isso existem os preconceitos e os mitos relativos à mulher negra: de que ela é “mulher fácil”, de que é “boa de cama”.[4]

Quando leio Lélia Gonzalez lembro logo das palavras: luta e resistência!

Queria ser um pouco do que esta mulher foi, e do que representa para o feminismo negro no Brasil e na América Latina, para a luta contra o racismo e o sexismo; marca de um passado histórico que nos persegue e que ainda é negado por muitos!

E por vezes, sinto vergonha da cor que meu corpo carrega, branca e opressora. Devo aqui assumir meu lugar de fala de mulher branca, que nunca irá vivenciar na pele as violências enfrentadas pelas mulheres negras, mas que por outro lado, sempre ouvirá suas vozes.

 A voz de Lélia ecoa em meus ouvidos, cada vez que leio suas palavras de revolta, sua escrita que clama por justiça! Posso dizer que esta mulher me representa…

Para ela, ser mulher negra e se reconhecer enquanto tal é um processo de abandonar padrões estéticos, que infantilizam e objetificam, e passar a se reconhecer enquanto sujeito : “A gente não nasce negro, a gente se torna negro. É uma conquista dura, cruel e que se desenvolve pela vida da gente afora. Uma pessoa negra que tem consciência de sua negritude está na luta contra o racismo.[5] – Não sou negra, mas seguimos de mãos dadas… Nossas lutas se atravessam!


[1] https://www.youtube.com/watch?v=UKUaOwfmA9w&ab_channel=GradaKilombaEnquanto eu escrevo– (Grada Kilomba): “WHILE I WRITE” is the first draft of a three act video installation by the international artist Grada Kilomba, titled “THE DESIRE PROJECT”, presented at and commissioned by the 32. Biennial de São Paulo 2016, in Brazil.

[2]GONZALEZ, Lélia. A mulher Negra na Sociedade Brasileira. In. LUZ, Madel T (Org.). O Lugar da Mulher: Estudos sobre a Condição Feminina na sociedade atual. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1982.

[3] __________, Lélia. Racismo e sexismo na cultura brasileira. In: Primavera das rosas negras: Lélia Gonzalez em primeira pessoa. Diáspora Africana: Editora Filhos da África, 2018.

[4] ____________, Lélia. Primavera para as rosas negras: Lélia Gonzalez em primeira pessoa… Diáspora Africana: Filhos da África, 2018.

[5] Trecho de um depoimento de Lélia de Almeida Gonzalez, publicado em 1988.

Liliam Beatris Kingerski é professora de filosofia. Graduada em Filosofia, História e Sociologia, com pós-graduação em Política e Sociedade, História e Sociedade. Mestranda do programa PROF-FILO da UNESPAR. Pesquisadora da Filosofia Feminista, apaixonada por escritas de mulheres e Filosofia. Colunista do Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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Professora de filosofia. Graduada em Filosofia, História e Sociologia, com pós-graduação em Política e Sociedade, História e Sociedade. Mestranda do programa PROF-FILO da UNESPAR. Pesquisadora da Filosofia Feminista, apaixonada por escritas de mulheres e Filosofia. Colunista do Factótum Cultural.

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