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Olympe de Gouges, a feminista francesa que foi condenada à guilhotina

Por Leila de Paula Zulkiewicz

Olympe de Gouges, a pioneira do feminismo que foi parar na guilhotina -  Geledés

A grande feminista francesa Marie Gouze, conhecida pelo pseudónimo de Olympe de Gouges (1748-1793), filha de uma família modesta, casou-se aos dezesseis anos com um homem mais velho, tornando-se mãe e viúva logo em seguida. Com uma história de vida comum aos padrões de vida das outras mulheres de sua época, se recusou a utilizar o sobrenome paterno e o do marido, e declarou possuir mais interesse  pelos assuntos públicos do que nos do coração. Não silenciou diante da indignação do que viveu e via outras mulheres repetindo as mesmas histórias, não se  calou à vida regrada e submissa. Fiel leitora de Rousseau, por quem nutri enorme admiração em seus escritos, vanguardista, conclamava seus próprios ideais, mesmo cedendo à pressão do sistema, fazendo seu pensamento revolucionário ganhar espaço, autora da Declaração dos Direitos da Mulher, foi condenada à morte em plena Revolução Francesa. Proclamava a frase, através de panfletos (ela gostava de se expressar, escrevendo): “Ó mulheres! Mulheres, quando deixareis vós de ser cegas?”, uma crítica à desigualdade entre os sexos em Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789, em que pouco dizia sobre os direitos da mulher.

Considerada “perigosa demais”, foi presa e encarcerada, lutou pela vida e pela possibilidade de seguir com suas manifestações, justamente por pensar que a Revolução Francesa deveria permitir a liberdade de expressão, mesmo assim, conseguiu que afixassem seu último pedido: um panfleto descrevendo as condições em que estava. Em Novembro de 1793, sem direito a advogado, foi julgada e condenada à morte pelo Tribunal Revolucionário, por questionar os valores republicanos, foi guilhotinada. Antes de ser executada, repetiu outra frase que costumava divulgar em seus panfletos:  “Se a mulher tem o direito de subir ao cadafalso, ela deve ter igualmente o direito de subir à tribuna”, ela não se conformava com a contradição, o fato das mulheres não terem seus direitos garantidos em um contexto onde o lema liberdade, igualdade e fraternidade eram apresentados, pois defendiam o papel social da mulher lutando para que as mulheres permanecessem em seus lugares (o ambiente doméstico). Cutrufelli (2009) buscou retratar a mulher decidida, idealista que era, mas que decepcionada com a Revolução, sentiu-se traída e movida por um sentimento de força interior, a qual  fez escrever e lutar por aquilo que acredita: “E aqui estou, manca no corpo e na alma. Porém ainda tenho momentos de firmeza, em que a realidade recobra peso e retoma seu lugar. Os momentos de escrita” (p. 47). Toda força, coragem e vigor que representam essa personagem, em alguns momentos, dividem o espaço com as fragilidades femininas: – A condenada chorava. Sim, são lágrimas que abrem caminho em meio a frios riachos de chuva, minhas faces as reconhecem pela morna docilidade, pelo modo como correm e deslizam consoladoras até o pescoço, por dentro da camisa, até o esterno. Choro. Por que não deveria? Sou uma mulher, Henri Sanson. Uma mulher que quis ser alguém. É pela beleza deste sonho que eu choro. E porque teria preferido morrer num dia de sol, com os braços soltos e meu pequeno chapéu azul posto maciamente sobre a fronte (p. 302). Estas foram as últimas palavras de Olympe que “encerram” o livro.

 O medo real era de que as mulheres ocupassem o território masculino, espaço que permitia a superioridade na hierarquia dos sexos, época esta em que as leis eram criadas única e exclusivamente pelos homens. Nesse contexto, a mulher passaria a ser civil, política e atuante em seu lugar, segundo os direitos apresentados pela Revolução, mesmo que limitadamente. Olympe via na Revolução uma possibilidade transformadora contra as atrocidades cometidas às mulheres, por meio de uma luta incessante pela liberdade, pela justiça, pelos oprimidos, pelos negros, pelas mães solteiras, pelos desempregados, pelo direito ao trabalho, pelo direito à propriedade para as mulheres casadas e a reforma das leis matrimoniais, pela igualdade salarial, ou seja, para os que não tinham voz, presença.

Humanista, independente e atenta às mais diversas causas, como a emancipação das mulheres, a instituição do divórcio, a abolição dos escravos, que a fez escrever peças de teatro que denunciava a escravidão, deixando os traficantes de escravos furiosos. Ainda, saiu em defesa de meninas em que os pais obrigavam a se tornarem freiras, a intenção era não lhes permitir vir a casar e posteriormente perder parte do patrimônio familiar. Há quem diga que ela tinha o dom de arranjar inimigos, justamente por suas ações inovadoras, capazes de destruir valores enraizados na sociedade da época. Olympe era consciente de seu papel na sociedade, pois buscou realizar uma tomada de consciência histórica e de cidadania ao romper com o modo repressivo que deixavam as mulheres em uma condição submissa e de inferioridade.

Dois séculos depois, a memória de Olympe foi homenageada com um busto em mármore, no Salão da Assembleia Nacional de Paris, juntamente com outros personagens históricos, todos homens.

Dados apresentados pela ONU nos mostram que a cada dez minutos um homem mata uma mulher, a qual geralmente trata-se de sua companheira ou ex-companheira, esses dados cruéis demonstram a violência que infelizmente existe em grande escala, seja ela física ou sexual. E infelizmente ainda hoje, países como a Rússia, Irã e o Egito, não possuem leis específicas para combater esse mal.

O dia 25 de novembro é considerado o Dia internacional contra a violência de gênero e precisa sensibilizar a todos que a tirania dos homens deve ser combatida pela militância das mulheres contra as injustiças.

As mulheres do século XXI ainda não são reconhecidas, a luta pelo reconhecimento e respeito ao direito das mulheres é longa e secular. O pensamento, a luta e a voz genial e corajosa da primeira manifestante feminista Olympe deve ecoar o universo nos dias atuais, enchendo as mulheres de luz, coragem e esperança sem esquecer que aos homens cabe a reflexão.

FILMOGRAFIA:

1. Olympe de Gouges. Vídeo centrado na sua defesa do feminismo.

2. Olympe de Gouges e os Direitos da Mulher (Olympe de Gouges and the Rights of Woman). Vídeo em que se comenta a sua declaração sobre os direitos da mulher

3. Dia Internacional da Mulher: Conheça Olympe de Gouges.

AS SUAS INOVADORAS IDEIAS:

 “A mulher nasce livre e é igual ao homem perante a lei. A mulher tem o direito de subir ao cadafalso; deve ter igualmente o de subir à tribuna”.

“Homem, sabes ser justo? É uma mulher que te pergunta: não quererás tolher-lhe o direito. Dize-me, quem te deu o soberano poder de oprimir o meu sexo?”

Referências

CUTRUFELLI, Maria Rosa. Eu vivi por um sonho. Tradução de Maurício Santana Dias. Rio de Janeiro: Record, 2009.

DALLARI, Dalmo de Abreu. Os Direitos da Mulher e da Cidadã por Olímpia de Gouges. São Paulo: Editora Saraiva, 2016.

DE GOUGES, OLYMPE. Tradução DA SILVA, LEANDRO CARDOSO MARQUES. Avante Mulheres, Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã e outros textos. Edipro, 2020.

Leila de Paula, Formada em Letras Português/Espanhol, Filosofia e Psicologia. Atualmente cursa Pedagogia. Pós graduada em Língua Portuguesa e Literaturas. Apaixonada pelo conhecimento, pois viver é um eterno aprendizado.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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