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Ler filosofia no Brasil e a experiência do pensamento

Por Daniel Santos da Silva

Filosofia no Brasil e seus autores - Resumo de Filosofia para o Enem

Vulgarmente nos apegamos a uma imagem do tempo como um fluxo ininterrupto e homogêneo que, em uma única direção, envolve-nos a todas e a todos e de que somente escapamos saindo – de alguma maneira – do mundo; antes mesmo de Newton formalizar um conceito de tempo absoluto, grande parte da história do pensamento já aperfeiçoava certa compulsão pelo ser imóvel como uma tentativa de não ceder a esse fluxo que nos torna comuns numa finitude geral, que nos impõe um fim e nos dá a perceber somente o que em certo momento deixará de ser. Assim, se algo de eternidade nos cabe, é porque existe uma saída desse fluxo, e em geral é a racionalidade a atividade humana destinada a acessá-la, quando não a fé; seria a saída do imperativo da temporalidade (e, contiguamente, da espacialidade) que distinguiria nosso destino daquele do resto da natureza e que não nos deixaria contentar com a mera existência como é dada “naturalmente”.

Trabalhei muito, na filosofia, a partir dessa história hegemônica do pensamento, acreditando que poderia ter esse olhar-além, e era então quase uma obsessão metódica querer abstrair de um fato qualquer que demandasse reflexão o espaço-tempo que o envolvia, tal qual abstraímos quase todas as variáveis em um exercício de física no ensino médio. Com a “posse” de alguns elementos metafísicos e a capacidade de deduzir de alguns princípios e estruturas ideias mais particulares, alegrava-me sentir que podia aplicar meu entendimento a qualquer questão que se apresentasse filosófica – e, para isso, o que importaria a localização de tal ou qual problema no tempo e no espaço? Paralelamente a essa satisfação egoica – percebo melhor hoje – corria o medo de que todas as minhas certezas se despedaçassem no dia seguinte: com efeito, sem os contraditos da experiência mundana, tais certezas se sedimentariam em fórmulas que me esgotariam juntamente a elas.

Da experiência mundana a que me refiro, um dos elementos mais oportunos para minha mudança gradual de postura diante da relação tempo/espaço/pensamento foi a convivência com pessoas que, educadas ou não em escolas e padrões semelhantes aos meus, sentiam-se constantemente incomodadas (nos cursos de filosofia e fora deles) com o sentimento de que se lhes impunha uma pertença territorial e espiritual que imobilizava seus seres em vez de desenvolvê-los. Na filosofia, especialmente, viam uma Europa altiva que descarregava bibliografias em nossas copiadoras e uma América Latina engessada em alguns poucos nomes que insistiam em se destacar; o tempo forçado era então linear, homogêneo e europeu (e a eternidade, um sonho que daí nascia), e foi preciso muito trabalho para que as pessoas incomodadas incomodassem a mim e a tantas outras pessoas.

O incômodo veio profundo: essa linha do tempo demarcava nossos espaços como excludentes, em que discussões filosóficas desprezavam solenemente toda a herança cultural, física e mental de antepassada(o)s indígenas, negra(o)s, árabes, tantas diversas, como se nosso tempo fosse outro – de uma eternidade europeia – e nossas ideias de uma debilidade inata a quem não raciocina em grego, alemão, francês ou inglês (deixando de lado um incômodo insistente no Brasil: não seríamos da latinoamérica, nossos problemas não seriam latinoamericanos). Porém, como se contentar que nossas línguas sejam línguas destinadas ao comentário (mensageiras temporais da eternidade)? Que centenas de outras línguas nem para isso sirvam? Assim, a vivência de incômodos que se espalharam dentre nós me possibilitou enxergar um pouco melhor a relevância de ler filosofia no Brasil (mesmo filosofias não brasileiras e mesmo em lugares que não o Brasil) como modo de constituição filosófica de experiências e pensamentos.

Já não era questão de fronteira, não se tratava de discernir o Brasil e filosofias brasileiras, mas de valorar a partir do que vivenciamos como Brasil. Fato é que a comunicação é mais clara se o que valoramos também expressa vivências semelhantes: acaba sendo fundamental que nos compreendamos melhor quando participamos efetivamente da modulação desse nós, isso nos dá escudo tanto contra as forças de fora que nos dizem quem somos como contra qualquer espécie de ufanismo filosófico – há certa consciência de que se resiste contra toda redução das temporalidades que nos constituem a um só (além)tempo, passa-se a cobiçar essa pluralidade como “objeto” mesmo de pesquisa filosófica, reencontrando heranças e forjando novas possibilidades de entendimento e de experiência das coisas.

Então, o ler filosofia no Brasil enceta o desejo de filosofar com filosofias brasileiras e latino-americanas, preenchendo de sentido histórico-filosófico a geografia – depois de tanto estudar o conceito de experiência em filosofias que a relativizavam (muitas vezes, negativamente), havia um sentimento de experiência filosófica policamente engajada na contracorrente da eternidade e da linearidade do tempo que seria sua degradação; um sentimento de que filosofar a partir dessa experiência era condição para um concreto pensar – pensar, por exemplo, as configurações que nos inibem de refletir a partir daquelas contradições e belezas que carregamos aonde quer que caminhemos.

Para mim, essa experiência me exigiu muito do que eu trazia de gosto pelas artes musicais feitas por quem carrega consigo a tensão entre o fado e o samba de ser brasileira(o) e latino-americana(o) (não é agora que escreverei um texto sobre Clara Nunes, mas sinto que terei de fazê-lo); essa experiência foi especialmente requerida em momentos que estive por longos períodos fora do Brasil e de nosso continente. Tudo exigiu que eu fosse incomodado por quem se incomodava com a facilidade – histórica, não é questão de escolhas pessoais, apenas – de nossa absorção necessariamente mutilada de experiências de pensamento que não apenas ocultaram, mas que muitas vezes incentivaram violências que nos submeteram à “naturalidade” da dominação, do sexismo, do racismo, da pobreza e de sua consequente criminalização, enfim, de quase tudo que é europeu em nossa herança.  

O aprimoramento qualitativo de uma bibliografia filosófica brasileira já ocorre e continua a depender dessas percepções relativas a experiências que se assemelham e se tensionam porque existem tempos e lugares múltiplos que constituem comunicações efetivas de problemas e soluções, uma matéria comum que instiga a reflexão. Dessa perspectiva, uma segurança – qualitativa – em nossas ideias pode encarar faces norte-eurocêntricas do pensamento como aliadas ocasionais ou razões de crítica conforme critérios que forjamos a partir da resistência cotidiana às forças de colonização que persistem e se modificam, já que nenhum território é dado pronto a quem o deseja. Mais importante: os critérios assim forjados têm a consistência que só pode ter a reflexão caracterizada por um engajamento histórico com as dores e as alegrias que nos movem em comum – no Brasil, por exemplo, é incontornável para o trabalho filosófico compreender as causas que facilitam a violência como resposta a quase todos nossos problemas e, não menos, quais criatividades respondem  a essa facilidade e provocam um incômodo necessário sobre o próprio significado do “ser” brasileiro.

Daniel Santos da Silva, Professor da Licenciatura em Filosofia da Unespar e do Prof-Filo. Doutor pela Usp e mestre pela UECE, pesquisa Filosofia Moderna, Filosofia da educação, ética e política. 

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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