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Respeitosamente: uma e mais bilhões

Por Euliene da Silva Gonçalves

POR VICK BACON: Bailarina da Praça e seus 25 anos na cultura de Porto Velho  - Rondoniaovivo.com

Com a intencionalidade de destacar os pressupostos da reflexão, eis, inicialmente, o lugar de fala, a abordagem epistemológica e a principal ideia do texto.

Primeiro, apresento um dos meus lugares de fala: sou um machista tentando me converter cotidianamente a um não machismo. Confesso: é difícil não cair em contradição, mas não desisto. Nesse processo, tem me ajudado muito a tentar ler mulheres. Ler mulheres para além do que há no papel escrito: eis o desafio para a humanidade.

Segundo, manifesto que minha abordagem do mundo passa pela fenomenologia. Nisto, procuro suspender o máximo possível meus juízos para captar o essencial da realidade.

O principal nesta reflexão é compreender que precisamos, todas as pessoas, aprender a ler a genialidade de criação de sentido com as mulheres para viver mais humanamente.

Muito maior numericamente que os homens, as mulheres escrevem a vida cotidianamente de forma genial e singular. Contudo, não são identificadas, ao contrário, são desprezadas em sua relevância para uma sociedade mais humana.

Paulo Freire (1989) lembra que a leitura do mundo precede a leitura da palavra. O educador destaca que o mundo que se movimenta para o sujeito em seu contexto pode ser diferente do mundo da escolarização. E, ao resgatar esse princípio, para nortear a reflexão, pode-se entender que para ler melhor as mulheres é preciso ir além do escrito, pois sua colaboração para com a humanidade transcende em muito a palavra escrita. Mas não basta ler ingenuamente, é preciso uma percepção crítica para retirar o véu do preconceito, especialmente o machista, para então vislumbrar a genialidade da criação de sentido que realiza a vida mesmo quando ameaçada e subjugada. Ou seja, é preciso saber ler o mundo com respeito: do latim respectus, particípio passado de respicere, “olhar outra vez” (ROCHA, 2020).

Respeitar é olhar novamente após um primeiro olhar. O primeiro olhar capta primeiramente o que o status quo deseja que vejamos. Se não nos esforçarmos entenderemos o mundo a partir da opinião dos outros e especificamente de quem tem o poder de divulgar de forma ampla sua opinião. Este, difundi ideias que favorecem seu interesse de se perpetuar na utilização exagerada das benesses do que é produzido por todos. Propaga noções que favoreçam um estilo para permanecerem no poder econômico, político, social, cultural. Este grupo é pequeno. No Brasil, especificamente em 2020, possuem como modelo uma elite que chega a 1% da população, dominam 49,6% da riqueza nacional segundo relatório do Banco Credit Suisse (PT, 2021). Não é vantagem para eles que a genialidade na produção de sentido da própria vida da maioria das pessoas seja reconhecida, neste caso concreto, das mulheres. Isto causaria uma revolução cultural, econômica, social, religiosa que sairia do controle deles para se manterem no controle.

Não apenas os homens, mas, inclusive as mulheres são impedidas de “de novo olhar” para si mesmas e se reconhecerem como força transformadora da realidade, sujeitas criadoras de sentido. Tanto a maioria dos homens quanto a maioria das mulheres estão limitados à superficialidade de uma primeira abordagem sobre o grande potencial feminino de humanização da humanidade.

Destaco apenas uma mulher como uma bomba nuclear devastadora da realidade conhecida, pois, semelhante a ela, há bilhões a serem desveladas da ingenuidade de um primeiro olhar por um segundo olhar crítico: o respeito. Quero vos apresentar: Elielza Bailarina Ramos Freire (BACON, 2019). De alguma forma é lida, pois registrou sua produção de sentido durante 27 anos na cultura de Porto Velho, Rondônia (RO), e conseguiu se enraizar na identidade cultural contemporânea local.

Sua figura é normalmente lembrada por invadir shows de artistas e ser encontrada nas esquinas das principais praças do centro da cidade com uma caixa de som, tocando música alegre, usando roupas exclusivas e coloridas, coreografando com muito movimento, sorrindo, organizando doações para eventos abertos que ela organiza no centro da cidade e para ajudar pessoas necessitadas de alguma ajuda financeira.

Ela nasceu em Porto Velho, Rondônia, no dia 14 de dezembro de 1969, no Hospital São José. Seus pais são amazonenses. O pai (falecido) era jardineiro e a mãe, aposentada, era zeladora. Esta sempre a ajudou. Viveu a infância e ainda vive em Nova Porto Velho, um dos bairros da capital do Estado. Como a maioria das mulheres, negras, da classe baixa, na periferia, de uma região periférica de um país escravizado pelo egoísmo dos detentores do poder econômico, estudou pouco e foi conseguir aprender a ler só aos 13 anos de idade e foi encaminhada para a constituição da família tradicional, foi viver no município vizinho e teve duas filhas e um filho.

Mas… como ela escreveu? Sua escrita foi fruto da manifestação de sua leitura. Aprendeu a ler para aprender com os ensinamentos de livros clássicos que ela tinha acesso. O efeito foi a liberdade de simplesmente ser mais ela, dizia: “[…] vou aprender a lê para seguir o que esse livro ensina e assim fui me soltando cada vez mais. […]”. Algumas de suas aprendizagens estão no fato de compreender que as coisas não são fáceis de conseguir como normalmente se pode transparecer por meio do marketing; que um dos problemas a serem superados na atualidade é o medo do outro, causado por uma violência insensível até na morte das pessoas. Algo que encontra superação no cultivo de uma vida mais amorosa. Ou seja, capaz de querer o bem do outro.

Ela escreveu por meio da vida, usando a expressividade corporal, de figurinos da própria autoria, das relações com as pessoas, do artesanato e das artes plásticas, da promoção de eventos, de parcerias comerciais, de luta, de suor.

Indo contra aos que reservam o adjetivo genialidade para algumas pessoas na história, tenho que afirmar: ela foi ge-ni-al! Uma mulher que conseguiu assumir a própria existência para si e pediu a separação do esposo, numa sociedade machista, por escolher conduzir a vida de seu próprio jeito. Rompeu com o modelo de mulher preparada para o casamento. Rompeu com o modelo de mãe tradicional. Pois os filhos a admiram, mas foram criados pela mãe e irmã. Rompeu com a proposta reducionista capitalista acerca do trabalho que limita o ser humano ao homo economicus, pois investiu sua vida no trabalho cultural artístico e interativo, mesmo que isto não correspondesse ao sonho de consumo financeiro contemporâneo ocidental.

Rompeu com a ordem jurídica para ajudar as pessoas. Uma destas vezes levou crianças que moravam na rua para a própria casa e cuidou delas até quando aceitavam a ajuda dela. Hoje as crianças são rapazes se virando no cotidiano da cidade.

Há pessoa que a acusam de débil mental, (penso que este é um fardo comum a todas as mulheres que resolvem desobedecer o padrão do autoritarismo machista) perante isto ela reflete dizendo: “[…] se você procura fazer a coisa certa é considerada doida, é assim que a maioria das pessoas pensa. A única coisa que é boa na vida é você ter consciência daquilo que faz e não praticar o que as pessoas falam a seu respeito e, também, não ter raiva das pessoas. O importante é se sentir feliz e tratar as pessoas com respeito”.

Segundo Elielza, a discriminação é fruto do egoísmo e do orgulho, nisto a necessidade de se abrir ao outro por meio do amor e concretamente tratar bem qualquer pessoa. Entre os preconceitos sofridos na pele, o qual estava presente no dia a dia do trabalho, entre estes como garota propaganda, era o machismo um dos marcantes. Homens queriam usá-la como objeto. A possiblidade do abuso sexual era um absurdo potencializado com o fato de que, se isto viesse acontecer, provavelmente não iriam aceitar a denuncia feita por ela acusando-a de problemas mentais.

Numa sociedade hedonista, que reduz o prazer à utilização da genitália, Elielza é um questionamento vivo, pois testemunha que largou tudo pela alegria. E é alegre! Ela nunca foi vista sem sorrir. Não há ninguém que diga que chegou perto dela e não encontrou um sorriso sincero. Mesmo quando ela mesma estava se dilacerando por dentro.

Elielza, a Bailarina da Praça, invadia shows e começava a dançar no palco. Fora do padrão social. Entre os vários shows, que subiu no palco para dançar, apenas nos dos cantores Daniel e Reginaldo Rossi foi convidada. Nos demais… Superando os obstáculos por iniciativa própria e sem autorização. Mas tinha convicção de quê, com esta ação, estava questionando a desvalorização dos artistas locais. Esquecidos, não eram nem chamados para fazer uma abertura ou pré-show com o artista de fora. Ela acabava se tornando a voz da vida local num espetáculo.

Aprendeu artesanato e artes plásticas vendo as pessoas confeccionando e exibindo os próprios trabalhos. Conseguiu realizar uma exposição em um local regional de referência para os artistas, a Casa da Cultura. Denominou a exposição de “Filtros do Sonho”. Nela intencionou demonstrar para as pessoas que o ser humano é capaz de fazer qualquer coisa, basta ter boa vontade e querer.

Em meio a tantos acontecimentos do cotidiano, há um que não podemos negligenciar: é a criação da vida por mulheres que transformam sua realidade e a circundante. Quantas jazem, especialmente durante este período de má gestão da pandemia no Brasil? Quantas ainda vivem? A resposta às duas questões retóricas não é quantitativa, é qualitativa: basta ler com uma percepção crítica, basta olhar novamente ao redor, elas ultrapassam numericamente os homens e vivem mais que eles (IBGE, 2019). Qual o medo de viver mais e melhor? Pobres de todos nós que não respeitamos as mulheres.

BACON, Victória. Bailarina da Praça e seus 25 anos na cultura de Porto Velho. 2019. Disponível https://www.rondoniaovivo.com/geral/noticia/2019/06/03/por-vick-bacon-bailarina-da-praca-e-seus-25-anos-na-cultura-de-porto-velho.html acessado 10/06/2021.

IBGE. Quantidade de mulheres e homens. 2019. Disponível https://educa.ibge.gov.br/jovens/conheca-o-brasil/populacao/18320-quantidade-de-homens-e-mulheres.html acessado 10/06/2021.

FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. São Paulo: Autores Associados: Cortez, 1989.

ROCHA, Jorge Henrique Teixeira da. Origem da palavra respeito?. 2020. Disponível https://origemdapalavra.com.br/palavras/respeito/ acessado 17/06/2021.

PT. Brasil é um dos países mais desiguais do mundo, aponta relatório. 2021. Disponível https://pt.org.br/brasil-e-um-dos-pais-mais-desiguais-do-mundo-aponta-relatorio/ acessado 28/06/2021.

Euliene da Silva Gonçalves, Migrante, residente em Porto Velho, RO, casado, pai de um menino e uma menina. Há 22 anos na educação como Filósofo Educador. Graduado em Filosofia e Pedagogia; especialista em Metodologia do Ensino Superior e Filosofia Clínica; mestre em Educação, PPGE/MEDUC/UNIR. Profº EBTT de Filosofia, IFRO, pesquisador do Grupo de Pesquisa em Educação a Distância (GEPD) e do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre o Ensino de Filosofia (NESEF). Áreas de interesse: currículo, práticas pedagógicas, ensino de filosofia, educação filosófica, educação profissional, trabalho. Projeto atual: o ensino de filosofia no IFRO. http://lattes.cnpq.br/4941273797552731. https://orcid.org/0000-0002-9154-2926

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Um comentário em “Respeitosamente: uma e mais bilhões Deixe um comentário

  1. Obrigado pelo texto Euliene. Eu também parto da leitura de mulheres, especialmente de mulheres pretas pra aprender a repensar minha masculinidade no mundo. A bailarina é uma figura brilhante da cultura porto velhense e eu também a guardo com carinha na memória … Sua reflexão me ajudou a pensá-la a partir de um outro olhar e reaprender com ela. Obrigado.

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