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Em diálogo com Mary Wollstonecraft: Quem tem “direito” a falar?

Por Liliam Beatris Kingerski

Tudo começou com a Mary Wollstonecraft!

Escrevo este texto, embalada pelas angústias provocadas pelo professor Charles Santiago, na disciplina de Laboratório do Ensino de Filosofia. Devo dizer: A ausência das mulheres na Filosofia têm sido a grande inquietação dos meus escritos…Escrevo enquanto mulher e feminista, enquanto ser consciente de que as mulheres e suas escritas foram silenciadas ao longo da história.

Percebo que ao falarmos em Filosofia, logo nos vêm à cabeça nomes de filósofos como Sócrates, Platão, Aristóteles, dentre outros. A Filosofia que conhecemos ainda se veste de uma perspectiva predominantemente masculina. Estudamos uma Filosofia produzida por homens, feita de maneira universal durante séculos. Foram muitas as mulheres que foram silenciadas na filosofia, pelos escritos dos próprios filósofos.

Minhas inquietações me perseguem: As mulheres fizeram Filosofia? Existiram filósofas?

Penso que devemos ressaltar a existência de “Filosofias”, que busquem desconstruir pensamentos, que pretendem incluir, descolonizar e refletir sobre outras formas de pensar, que não unicamente, formas baseadas na Europa. Que possamos lutar por uma forma de pensamento livre.

Não posso deixar de trazer a fala de Magali Mendes de Menezes, quando diz:

“Gostaria de falar desde o que alguns autores chamam de pensamento fronteiriço, ou seja, aquele pensar que afirma o espaço onde o pensamento foi negado. Para tanto é preciso problematizar o espaço onde está localizada a fala, quem fala e o que se decide falar. Estes pontos delimitam as questões que gostaria de desenvolver aqui para analisar as contribuições das filosofias feministas e interculturais na experiência de outros modos de se pensar e fazer filosofia.” [1]

Para complementar, Juliana Pacheco escreve em sua obra: Mulheres e Filosofia, sobre os desafios do uso do termo “filósofas”, o quanto falar filósofas é sinônimo de mudança e (des)construção do pensar que se mostra tão necessária na nossa sociedade: “…Falar em filósofas é “destruir” toda uma tradição filosófica machista e misógina, a qual silenciou e ocultou não só a presença das mulheres pensadoras, como a contribuição delas para a história da filosofia.” [2]

Foi trilhando um caminho cheio de obstáculos que encontrei a intelectual, escritora e filósofa inglesa, Mary Wollstonecraft (1759–1797), mulher que me fez refletir sobre a educação e o papel das mulheres na sociedade. Sua história, também é a de muitas mulheres, história de uma mulher apaixonada e sonhadora, que desafiou o seu tempo,  suas ideias superaram as barreiras do silenciamento, causadas por vezes pelos próprios filósofos da época Iluminista.

Através da obra de Mary Wollstonecraft, A Reivindicação dos Direitos da Mulher, de  1792,  onde contestou a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, documento que embasou a Revolução Francesa  e, percebeu a ausência das mulheres, anseio contribuir para  tornar visível a produção de conhecimentos das mulheres.

Mary, ficou conhecida como a precursora do feminismo, “reivindicou” o direito das mulheres de poderem escolher seus destinos, o direito de poderem ser elas mesmas, visto que as mulheres não podiam fazer nada por vontade própria, dependendo da autorização dos homens a quem “pertenciam”.

Sua história foi marcada pelo silenciamento. Aprendeu, ainda menina,  o que as mulheres não deveriam fazer e, falar,  era uma dessas coisas. Viu seu pai, preso ao vício do álcool, violentar sua mãe e perder todo o dinheiro da família. E, mesmo apesar de tentar defendê-la, nas muitas vezes em que isso acontecia, sua mãe nunca foi muito amorosa com ela, enquanto Mary se esforçava cuidando dos irmãos, não recebia da mãe nenhuma gratidão: 

“Por desobediências insignificantes, ela forçava Mary a ficar três a quatro horas sentada ao lado da lareira, “sem ousar dizer uma única palavra”. Já adulta, Mary escreveu que, se tivesse sido punida por fazer algo errado, ela teria aceitado.”[3]

Apesar dos percalços da vida, Mary não desanimou e, quando foi a escola, não demorou para perceber o quanto de coisas não teria o direito de aprender, sendo que a educação das mulheres tinha em vista torná-las dependentes e submissas, isso a deixava angustiada e a ambição por liberdade guiava seus pensamentos:  sonho de uma mulher que cresceu cuidando da casa e dos irmãos mais novos para a mãe.

Mary cresceu nesse ambiente, até virar dama de companhia. A luta pela tão sonhada independência continuava. Ela sentia na pele o poder dos homens, tendo sofrido com o trágico desfecho do casamento da irmã, que foi declarada louca pelo marido e sujeita a ser presa em um manicômio; injuriada, Mary, escreveu:

“a esposa não tinha permissão para possuir nada”…”sendo a esposa uma propriedade do homem, tal como é seu cavalo , ou seu burro, ela não tem nada que possa chamar de seu. Sem proteção legal, as mulheres ficavam vulneráveis a toda sorte de abusos. O marido podia bater na esposa e declará-la insana. Se a mulher tentasse fugir, o marido tinha o direito de trazê-la de volta à força. Um homem podia privar a esposa de alimentos e mantê-la  trancada em casa. Também podia impedi-la de procurar cuidados médicos ou de receber visitas que pudessem ajudar a aliviar o sofrimento. Para a maioria das mulheres , a morte e a deserção eram as únicas maneiras de fugir de um casamento infeliz.”[4]

A filósofa não se deixou vencer pelas adversidades do período, que apesar de distantes no tempo, nos fazem refletir sobre as situações que ainda continuam a acontecer… As mulheres deveriam se preocupar mais com sua independência, pois somente assim, podem ajudar a construir uma sociedade melhor e mais justa.

Na sua obra “Reivindicação sobre o Direito da Mulher”, influenciada por ideias iluministas, Mary crítica grandes pensadores que reservavam para a mulher um lugar inferior na sociedade, pois elas não tinham acesso a uma educação baseada na racionalidade, o que as mantinha submissas e resignadas; seu livro se torna um documento que fala por todas as mulheres, é a voz de mais uma filósofa e mulher que não se calou e que continuou a ser ouvida depois de tanto tempo. 

Mary debateu com grandes pensadores da época, filósofos como Jean-Jacques Rousseau e Denis de Diderot, que tratavam de escrever sobre as mulheres em suas obras. Através de obras como o livro Emílio, de Rousseau e do texto: Sobre as mulheres, de Diderot, eles são tidos como referências para analisar a figura feminina relacionada ao período das Luzes. Para esses pensadores, a mulher é diferente do homem devido a sua natureza; o que define a mulher como naturalmente inferior ao homem; Segundo Diderot: “A mulher traz dentro de si um órgão susceptível de terríveis espasmos, que dispõe dela…[5], a função principal da mulher é ser mãe, isso a faz ser o que ela é. Já de acordo com Rousseau: 

“A mulher é feita especialmente para agradar o homem. Se o homem deve agradar-lhe por sua vez, é necessidade menos direta: seu mérito está na sua força; agrada já, pela simples razão de ser forte(…) Se a mulher é feita para agradar e ser subjugada, ela deve tornar-se agradável ao homem ao invés de provocá-lo. Sua violência está nos seus encantos; é por eles que ela deve constrangê-lo a encontrar sua força e empregá-la. Daí nascem o ataque e a defesa, a ousadia de um sexo e a timidez do outro, finalmente a modéstia e pudor com que a natureza armou o fraco para escravizar o forte. “[6]

De acordo com seus escritos, percebemos que alguns pensadores tentaram legitimar a inferioridade feminina a partir da sua própria natureza e, entendem a mulher como dependente do homem, remetendo a esse a posse da faculdade da razão, afinal estas fariam uso da razão diante de algumas necessidades perante o marido e os filhos, essa seria útil para ela usar suas virtudes, também devendo ser educada para esse fim. Mary fez várias críticas a essa educação que trata a mulher como diferente, ressaltando que a mulher deveria ter uma educação voltada para o exercício de suas capacidades intelectuais.

Para ela, essa falta de reconhecimento da igualdade da mulher se deve à disseminação dessas ideias e a uma construção cultural, a própria educação a qual as mulheres estavam submetidas. Conforme citou: “Não desejo que as mulheres tenham poder sobre os homens, mas sobre si mesmas”[7]. A  mulher deveria poder escolher e pensar por si, ser dona de suas escolhas e decisões. Defendeu a capacidade da mulher ser racional, afinal nem isso ela poderia ser. A educação era as bases, ela produzia e talvez ainda produza mulheres submissas, sem autonomia alguma diante do mundo. Ela nos diz:

“O entendimento do sexo feminino tem sido tão distorcido por essa homenagem ilusória que as mulheres civilizadas de nosso século, com raras exceções, anseiam apenas inspirar amor, quando deveriam nutrir uma ambição mais nobre e exigir respeito por suas capacidades e virtudes.”[8]

Ainda hoje reivindicamos às mulheres os direitos de serem elas mesmas, reivindicamos por espaços, por vozes, por leituras e escritas.

Meu desejo é: Que hoje, possamos usar nossa racionalidade, que por tanto tempo foi negada às mulheres, para que não permitamos mais que nos calem. A luta continua…


[1] EGGERT, Edla ; MENEZES, M. M. . A filosofia feminista desde os olhares da filosofia intercultural: uma reflexão entre margens. In: Juliana Pacheco. (Org.). Mulher e Filosofia: as relações de gênero no pensamento filosófico. 1ed.Porto Alegre: Editora Fi, 2015.

[2] PACHECO, Juliana; (Org.). Filósofas: a presença das mulheres na filosofia. [recurso eletrônico] / Juliana Pacheco (Org.). Porto Alegre, RS: Editora Fi, 2016.

[3] GORDON, Charlotte. Mulheres Extraordinárias: as criadoras e a criatura. Rio de Janeiro: DarkSide Book, 2020.

[4] GORDON, Charlotte. Mulheres Extraordinárias: as criadoras e a criatura. Rio de Janeiro: DarkSide Book, 2020.

[5]DIDEROT, D. Sobre as Mulheres. Obras I Filosofia e Política. São Paulo: Editora Perspectiva, 2000.

[6]ROUSSEAU, Jean Jacques. Emílio ou da Educação. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995.

[7] WOLLSTONECRAFT, Mary. Reivindicação dos direitos da mulher. Trad. de Ivania Pocinho Motta. São Paulo: Boitempo, 2016. 

[8] WOLLSTONECRAFT, Mary. Reivindicação dos direitos da mulher. Trad. de Ivania Pocinho Motta. São Paulo: Boitempo, 2016. 

Liliam Beatris Kingerski é professora de filosofia. Graduada em Filosofia, História e Sociologia, com pós-graduação em Política e Sociedade, História e Sociedade. Mestranda do programa PROF-FILO da UNESPAR. Pesquisadora da Filosofia Feminista, apaixonada por escritas de mulheres e Filosofia. Colunista do Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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Um Amante do Conhecimento e com o desejo de levá-lo aos Confins da Galáxia !!!

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