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Mulheres do Contestado

Por Paulo Braciak

As mulheres no Contestado (Accessibility view)

Primeiramente, se faz necessário realizarmos uma breve contextualização da Guerra do Contestado, para, em seguida, abordarmos a visibilidade da mulher em meio a este conflito. A Guerra do Contestado é considerada um dos maiores movimentos sociais que já aconteceu no Brasil. O conflito, ou melhor, o massacre das forças militares brasileiras contra o povo sertanejo, estendeu-se de 1912 até 1916.

Para o historiador Thomé (1992), várias foram as origens da guerra. Ele destaca que, de alguma forma, a região do Contestado acabou reunindo diversas circunstâncias específicas que, juntas, levaram a eclodir o confronto armado e a guerra civil entre moradores e as forças policiais.

Um dos principais motivos é a construção da estrada férrea pela empresa norte americana, Brazil Railway Company. A concessão feita à empresa, pelo governo brasileiro, previa benefícios, como a utilização de terras, para serem exploradas, em toda a margem da linha férrea, sendo delimitado um raio de 15 quilômetros para cada lado da obra. Esta gratificação, concedida pelo governo brasileiro ao empresário americano, para explorar por muitos anos todos os recursos naturais desta região, principalmente a madeira, impactou diretamente na vida dos caboclos nativos, que passaram a ser desapropriados sem receber nada em troca. Caso houvesse resistência, os verdadeiros proprietários das terras eram mortos e suas propriedades destruídas. Nesse sentido, percebemos que o falso nacionalismo e uma atração, que alguns cultivam pelos americanos, são o que nos vem trazendo problemas há um bom tempo já.

Juntamente com a empresa que ficou responsável pela construção da ferrovia, a partir de 1909 se instalaram a Southern Brazil Lumber Company e a Colonization Company. Dessa forma, além da ação predatória dos recursos naturais, se instalou na região contestada um processo de limpeza cultural, o branqueamento. Assim,  o caboclo é expulso ou morto, para estas terras férteis poderem ser colonizadas pelos europeus, pessoas que trariam o progresso, pois para a nação estes são civilizados.

Nesse cenário, a irmandade cabocla incorporou diversas frentes de lutas, entre elas a posse de terra, a preservação dos valores culturais e religiosos, a sobrevivência e a luta contra a imposição de um novo modelo econômico, na vida do caboclo. Estamos diante de um povo que não se apequenou diante do inimigo, foram mulheres homens, velhos e crianças, que buscaram um sentido, agindo, falando, pensando, orando e transgredindo para não simplesmente estar no mundo e sim ser o mundo, mesmo que custasse a própria vida.

A participação das mulheres na Guerra do Contestado que pretendemos destacar aqui não é em relação à segurança familiar, o cuidado com os enfermos e com as crianças e na retaguarda da batalha. Isso qualquer um, sem a necessidade de pesquisa conclui que a mulher camponesa assumiu e desenvolveu com maestria durante os quatro anos de guerra. O que pretendemos é ressaltar alguns nomes de mulheres que atuaram como guerreiras no campo de batalha e comandaram o conflito por um longo período. Mas tal atividade exige de nós um olhar e uma sensibilidade, para irmos além das narrativas e histórias registradas pela imprensa da época e por historiadores que se propuseram contar a Guerra do Contestado. Para o historiador Luiz Alves (2016), a mulher cabocla, de modo geral, não é lembrada pela imprensa. Diante das 440 edições investigadas, em nenhuma se menciona o nome das guerreiras Maria Rosa e Chica Pelega, ou mesmo de outras mulheres que tiveram postura de liderança.

A primeira mulher que assume um papel determinante na organização do primeiro reduto, identificado pelos Caboclos como Cidade Santa, é a virgem Teodora. De acordo com Auras (2001), Teodora tinha 11 anos quando relatou para seus familiares ter visto três pessoas, incluindo José Maria, em um celeiro. Diversas pessoas dirigiram-se para o local, onde rezaram e entoaram cânticos, no entardecer, todos testemunharam uma luz que subia ao céu. A notícia logo se espalhou pelo sertão e muitos milagres começaram a acontecer, por intermédio de Teodora, os quais são atribuídos ao monge José Maria. “A intervenção mediadora inicial de Teodora foi importante porque aglutinou pessoas” (Auras, 2001, p. 75). Essas visões de Teodora levou o povo sertanejo a organizar-se no Taquaruçu, iniciando a primeira Cidade Santa.

O modo de vida dos redutos era de cooperativismo e partilha, tudo era dividido entre todos com o ideal de construir um mundo melhor, em um cenário de pobreza, miséria e opressão. Este espírito caboclo é fruto das pregações dos monges João Maria e José Maria, “quem tem moi, quem não tem moi também” (Auras, 2001, p. 88). Desenvolveu-se a consciência da justiça e do bem-estar. Esse modo de vida vai incomodar e será um grande empecilho para o sistema econômico alimentado pelo coronelismo da época e também para a ordem de progresso e desenvolvimento que na época se estabeleceu nesta região. Durante o bombardeio de Taquaruçu, dia 08 de fevereiro de 1914, no sertão contestado, mais uma guerreira caiu por terra e também no esquecimento. Francisca Roberta foi uma heroína, onde deu a própria vida para salvar crianças e inocentes, diante do massacre do Taquaruçu.

Francisca, mais conhecida como Chica Pelega, conquistou os caboclos do Taquaruçu pelo coração compassivo e generoso, atraiu todas e todos, principalmente, as crianças e os enfermos. Existem relatos que Chica era auxiliar de José Maria nas curas e orações, pela intimidade que cultivava com os chás, as infusões e ervas medicinais.

Chica Pelega ficou conhecida como curandeira e enfermeira na primeira Cidade Santa, a procura pelas receitas e rezas eram constantes não só pelos integrantes do reduto, mas infelizmente ela não tem a mesma visibilidade que os três monges que o antecederam. De acordo com Felippe (1995), a missão de Chica se encerra dentro de uma igrejinha da comunidade, que havia feito de hospital, quando o local foi atacado e bombardeado pelas tropas do governo. Muitas mulheres e crianças morreram sob a proteção de Chica, que também não resistiu ao ataque.

No reduto de Caraguatá, outra jovem se destacou, sendo reconhecida e aclamada pelos caboclos como a “Heroína dos Sertões”, é uma das personagens mais importantes de todo o conflito. Maria Rosa, Conforme Queirós (1981), comandava não somente o reduto de Caraguatá, que era composto por cerca de 2 mil pessoas, mas também os demais que passaram a se formarem em todo o território contestado, através de expedições e despachos “oficiais”, designando quem seriam os comandantes.

Era uma adolescente dos seus quinze anos, loura, cabelos crespos, pálida, alegre, de extraordinária vivacidade. Sobre o pai, Elias da Serra, ficou apenas a informação de que era antigo lavrador pelas redondezas. Maria Rosa não sabia ler nem escrever, mas falava com desembaraço (QUEIRÓS, 1981, p. 151-152)

O papel assumido e desempenhado por Maria Rosa foi fundamental no desenrolar das batalhas e nas organizações do povo sertanejo, principalmente por ser o período que crescia rapidamente o número de pessoas  adeptas ao movimento. O preconceito comum da época – que perdura mascarado nos dias atuais – em relação à mulher não impôs à Maria Rosa a lei do silêncio, mesmo sendo muito jovem, ela é reconhecida por diferentes autores como uma guerreira destemida que encorajava os sertanejos, empunhando a “bandeira santa” e participando das batalhas.

Ameaçada pelo preconceito, não se intimidou em desafiar as leis, as normas e as ordens determinadas por um sistema patriarcal, que impunha à mulher desde o berço até à sepultura, o toque de silêncio. A vida lhe negara a oportunidade para dedilhar as cordas da “rabeca”, mas lhe oferecera a chance de apertar o gatilho do “mosquetão”. Indômita guerreira, que no calor das batalhas, encorajava seus comandados empunhando a bandeira da igualdade (SCAPIN 2005, p. 48).

               Diante dessas mulheres, que rapidamente rememoramos, percebemos a importância e o papel que as mulheres desenvolveram durante todo o período da Guerra do Contestado, mas também se evidencia o desprestígio e repulsa que elas sofreram e sofrem diante da história contada e defendida, principalmente pelos vencedores.

REFERÊNCIAS:

AURAS, Marli. Guerra do Contestado: a organização da irmandade cabocla. Florianópolis: Cortez, 2001. 

FELIPPE, Euclides J. O último jagunço: folclore na história do Contestado. Curitibanos: Universidade do Contestado, 1995.

QUEIRÓS, Maurício Vinhas. Messianismo e conflito social: a Guerra Sertaneja do Contestado. 1912-1916. 3ª ed. São Paulo: Ática, 1981.

SCAPIN, Alzira. Uma guerreira em busca de liberdade. In: DOLBERTH, Aldo. (Org.) Maria Rosa – a ‘virgem’ comandante da guerra sertaneja do Taquaruçu. Curitibanos: Thipograf, 2005.

THOMÉ, Nilson. Sangue, suor e lágrimas no chão contestado. Caçador, SC: INCON/UNC, 1992.

Paulo Braciak, aluno do mestrado em filosofia da Unespar e professor da educação básica do Estado de Santa Catarina.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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