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Poética feminista é mais que poesia, é política, é trangressão

Por karine Bueno Costa

Todas: poética feminina e feminista - Vós

“On ne naît pas femme, on devient femme”
(BEAUVOIR, S.)

A  historiografia literária pertence canonicamente aos homens.  E às mulheres lhes foi legado, por muito tempo,  o silêncio. Porém, foi justamente pelo fato de poder escrever, mesmo escondidas, inicialmente,  atrás de pseudônimos, que conseguimos, aos poucos,  conquistar direitos mais igualitários e voz literária. Assim, defendo a tese de que a escrita de mulheres carrega não só a questão literária/poética, mas também que falar e estudar textos de mulheres é uma questão de resgate histórico, de fazer política e transgressão.

 Elaine Showalter (1987), em“Toward a Feminist Poetics”, categoriza em três fases esse percurso histórico:  Femenina (Feminine): até por volta de  1880, escrita por meio dos pseudônimos masculinos porque não podiam escrever; após literatura feminista (feminist), fase até 1920, em defesa dos direitos sufragistas. Por fim, a ficção da mulher (female), de 1920 até hoje,  escrita com sátira e  ironia  declaradas aos discursos patriarcais. Showalter aponta Virgínia Woolf como a que inaugura essa fase com Um Teto Todo Seu, de 1928: “A mulher precisa ter dinheiro e um teto todo dela se pretende mesmo escrever ficção” (WOOLF, 2014, p. 07).

Desde então, a mulher busca espaço no campo literário. Poetas como Alejandra Pizarnik, na Argentina, (anos 60) e  Ana Cristina Cesar, no Brasil, (anos 70) fizeram literatura e usaram-na também como ferramenta de luta e  de desconstrução. As quais rompem com a opressão sexista e com a ideologia supremacista masculina por meio da linguagem poética.  Uma emancipação da voz e consciência coletiva: “Soy mujer. Y un entrañable calor me abriga cuando el mundo me golpea. Es el calor de las otras mujeres, de aquellas que hicieron de la vida este rincón sensible, luchador, de piel suave y tierno corazón guerrero”[1] (Alejandra ìzarnik, Diários).

 Um texto de grande influencia para essa nova poética desmedida de tabus foi o Segundo Sexo, de Simome de Beauvoir, de 1949, em Paris.  Após a publicação de  teorias feministas, de   pensamentos libertários, surgiram escritoras viscerais, muitas foram caladas pela história, devido ao racismo e à desigualdade econômica. Contudo, mesmo de um ponto elitizado, a voz de muitas que escreviam começou a ser ouvida e reconhecida, como das poetas citadas, que conseguiram ganhar prestígio no campo universitário e literário.

Há na poética delas o  desejo de transgressão, não se trata apenas de fazer literatura, mas  política  também.  Não são mais Penélopes que tecem sua mortalha à espera de seu amado e salvador, pelo contrário, são aquelas que enxergam seu mundo, têm consciência da poética existencial que fabricam, e não esperam mais. O tecer é a sua própria literatura, desconstroem o bordado para criar um novo roteiro. São  mulheres que vão  para o mundo viver suas próprias experiências e aventuras. E Ulysses? É só um  iludido pelo canto das sereias, e é justamente esse canto que as poetas buscam entonar com sua poética, para serem ouvidas e respeitadas, em um universo até então dominado pelo discurso patriarcal opressor.

Como a escrita de mulheres, muitas vezes, é subjugada como intimista, usaram  justamente da intimidade para quebrar o estereótipo, com aspectos de diário, do eu autobiográfico,  reformularam o modo de ver a poesia intimista e até o eu lírico, usando o feminino como um ato de rebeldia à hegemonia masculina. Desse modo, em seus poemas, as distorções do statu quo para um  modus operandi, na apresentação de um eu poético (ficcional) e  um real (o escritor), revelam que o poeta não tem gênero, é realmente andrógeno, é universal, é há um desejo pela igualdade nessa voz, que ainda hoje  não temos em grande proporção, pois impera no meio acadêmico a ideologia supremacista de que escrita de mulher é piegas e ínfima de valor e  há também a desconstrução de idiossincrasias postuladas para a poética  feminina.

 Em Ana C., várias facetas, com uma escrita pop, de intertextos, desfaz a imagem de mulher delicada, e apresenta-se pecadora, com luvas de pelica e batom vermelho. Para ilustrar,  selecionei um poema em que a visão de mulher como ser frágil é desconstruída. O poema faz  intertextualidade com “Variações sérias em forma de soneto”, de  Manuel Bandeira, em que postula o olhar angelical das mulheres sérias, como as que não ousam. Uma mulher séria, eis uma definição extremamente limitante para o ser no mundo, as sérias são as para casar, dizem. No entanto, a poética feminista faz política quando descontrói pensamentos machistas como esses.

 Numa vertente antropofágica, Ana C. apresenta uma mulher nada angelical e responde o que há por trás dos olhos das meninas sérias: atrás dos olhos das meninas sérias:  Aviso que vou virando um avião./ Cigana do horário nobre do adultério. Separatista protestante. Melindrosa basca com fissura da verdade./ Me entenda faz favor: minha franqueza era meu fraco.  o primeiro sidecar anfíbio nos classificados de aluguel./ No flanco do motor vinha um anjo encouraçado, Charlie’s Angel rumando a toda para o Lagos, Seven year Itch, mato sem cachorro. Pulo para fora (mas meu salto engancha no pedaço de pedal?), não me afogo mais, não abano o rabo nem rebolo sem  gás de decolagem. Não olho para trás. Aviso e profetizo com minha bola de cristais que vê novela de verdade e meu manto azul dourado mais pesado do que o ar. Não olho para trás e sai da frente que essa é uma rasante: garras afiadas, e pernalta  (Ana Cristina César, 1984).

 Nessa visão poética, de confabulações polissêmicas,  a mulher é ousada e dona de si, usa o termo pejorativo de avião, muito usado na época para a  mulher símbolo sexual como de Marilyn Monroe, de Seven year Itch (O Pecado mora ao lado) ou para as protagonistas de  Charlie’s Angels. Assim, a poeta adota o vocativo sensual para desafiar e apresentar uma visão de ousadia, que a mulher  deve voar em liberdade, ousar e não se contentar com a imagem sublime e sonhadora, de cabeça baixa e olhos para o chão, nem com as vozes estereotipadas, que dizem o que fazer e pensar.  Como cigana, separatista, basca com fissura de verdade, decola, ainda que em voo rasante, pois o salto prende-a, mesmo assim, salta. Avisa:  a  fraqueza era seu fraco, agora é de força cigana, de bruxa e com garras afiadas, nada de “mulher séria”, é pernalta, ave de pernas longas e voa em liberdade. Dessa maneira, faz uma subversão  e,  com os versos,  uma desconstrução do arquétipo de mulher frágil.

 Alejandra Pizarnik, também, em múltiplas facetas, com vertentes surrealistas e de terror em sua obra, usa do prestígio adquirido na  literatura para dar voz e desconstruir essa mulher “bela, recatada e do lar”. Márgara Russsotto ressalta que: “A constituição da voz feminina, enquanto construção discursiva revela a identidade do sujeito feminino, e sua problemática específica na literatura do continente herda esses plurais de enfoques e reajustes à luz do contexto cultural latino- americano” (1994, p. 812): Yo soy:  mi alas? dos pétalos podridos/ mi razón?/ copitas de vino agrio/ mi vida?/ vacío bien pensado/ mi cuerpo?/ un tajo en la silla/ mi vaivén?/ un gong infantil/ mi rostro?/ un cero disimulado/ mis ojos?/ ah! trozos de infinito (La tierra más ajena ,1955) [2].

 Um poema curto, mas com muitas  indagações filosóficas e com respostas ácidas e transgressoras. Asas geralmente remetem à ideia metafórica  de um ser angelical e perfeito, porém,  pétalas podres é a resposta do eu lírico “imperfeito”,  que choca o leitor de imediato. Ademais, a razão é taça de vinho  azedo e a vida um vazio bem pensado. As respostas quebram a expectativa do sublime. Numa visão feminista, há nos versos a eliminação da imagem  de “perfeição”, ideia sempre ligada às mulheres.

Dessa maneira, ao se descrever, o eu lírico feminino se despe dos  dogmas pré concebidos ao seu gênero. Ainda, coloca o corpo e o vai e vem como algo sem valor, tão apreciados para apelação sexual, mas que para o eu lírico são apenas um corte na cadeira e um gong infantil. O rosto, parte que se espera tão sublime e angelical, é mais sem valor ainda: um zero dissimulado. Contudo, os olhos, popularmente,  as janelas da alma, que deveriam ser tímidos de moças comportadas, são pedaços de infinito. Representam o incomensurável, afinal, é  pelo olhar que os poetas descrevem o mundo de modo diferente, assim,  é o que mais  tem valor para um escritor. Não seu gênero, seu corpo, seu rosto, mas a alma poética. Em versos de beleza subversiva, criticou os rótulos e expôs de modo sutil uma visão transgressora.

Dessarte, nessa nova perspectiva poética, de mulheres que reivindicam direitos, igualdade e respeito, que fazem da poesia não só literatura, mas política também,  abriu-se um caminho para outras vozes, de muitas mulheres. Como diz bell hooks: “o movimento feminista é vital, tanto por seu poder de nos libertar das terríveis garras da opressão sexista quanto por seu potencial para radicalizar e renovar outras lutas de libertação” (2019, p. 77), por isso que a poética feminista é mais que literatura: é trangressora.

REFERÊNCIAS

BANDEIRA, M. Estrela da tarde. 3ª Ed.  São Paulo: Global,  2012.

CESAR, A. C. Antigos e soltos: poemas e prosas da pasta rosa. São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2008.

______. A teus pés. São Paulo: Ática, 1999.

bell. h. Teoria feminista. Tradução: Rainer Patriota. São Paulo: Perspectiva: 2019.

BEAUVOIR, S. O segundo sexo: a experiência vivida. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1960.

GASPARINI, E. ; HOLLANDA, H. B.  de; VENTURA, Z. Poética Feminista – Poética da Memória In Cultura em trânsito – da repressão à abertura. Rio de Janeiro: Aeroplano Editora, 2000.

PIZARNIK, A. Diários. 4ª Edição. Barcelona: Lumen, 2016.

______. Poesía Completa. Edição de Ana Becciu. Barcelona: Lumen, 2016.

ROSSETO, M. Constituição da voz feminina. In PIZARRO, A. (Org.) América Revista Igarapé. Porto Velho (RO). V.12, N. 3, p. 137-149, 2019. 149 Latina: palavra, literatura e cultura. São Paulo: Fundação Memorial da América Latina, 1994. t.2, p.807-29.

SHOWALTER, E. “Toward a Feminist Poetics”. In The New Feminist Criticism: Essays on women, literature and theory. Edited by Elaine Showalter. London: Virago Press. 1985. Labrys Estudos Feministas, nº 4, Brasília: Montreal: Paris – Agosto/Dezembro de 2003. Disponível em: http://www.unb.br/ih/his/gefem. Tradução disponível em: (PDF) Welcome Elaine Showalter Towards A Feminist Poetics The Summary | amee karunya – Academia.edu

VIANNA, L. H. Poética Feminista. Poética da Memória. In Poéticas e Políticas Feministas. Organizado por Claudia de Lima Costa e Simone Pereira Schmidt. Florianópolis: Editora Mulheres. 2003.

WOOLF, V.  Um teto todo seu. São Paulo: Tordesilhas, 2014.


[1]  Sou mulher. E um estranho calor me abriga quando o mundo  me golpeia. É o calor das outras mulheres, daquelas que fizeram da vida esse rincão sensível, lutador, de pele suave e terno coração guerreiro. (tradução minha)

[2] Eu sou/ minhas asas?/duas pétalas podres/ minha razão?/ taças de vinho azedo/ minha vida?/ vazio bem pensado/ meu corpo?/ um corte na cadeira/ meu vaivém?/ um gongo  infantil/ meu rosto?/ um zero dissimulado/ meus olhos?/ ah! pedaços de infinito. (Tradução minha)

Professora de produção textual no Colégio São José-PU. Graduada em Letras: Português/Espanhol. Pós-graduada em Língua Portuguesa e Literatura. Colunista do Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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