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São tempos sombrios para os sonhadores, mas tenho em mim todos os sonhos do mundo

Por Karine Bueno Costa

Jornal A Bigorna - Dos tempos sombrios à esperança_ Chatô

“A arte e nada mais que a arte! Ela é a grande possibilitadora da vida,

a grande aliciadora da vida, o grande estimulante da vida” (Friedrich Nietzsche).

Após um período de bloqueio escritural, resolvi escrever, porque  não desejava externar meu pessimismo diante das situações mundanas em que vivemos, queria falar “das flores”, até que percebi que escrever sobre o poder que a arte tem despertar a sensibilidade, em tempos sombrios, é uma maneira de sonhar. Em O fabuloso destino de Amélie Poulain, filme de 2001, a mensagem cinematográfica é a de que se deve encontrar prazer nas pequenas coisas da vida, mesmo em tempos obscuros. Após contrair Covid-19, as  coisas mais simples, de ínfimo ou nenhum valor monetário, passaram a despertar, em mim, o prazer pela existência mais do que nunca, porque tempos sombrios, são também tempos para a ternura. Hannah Arendt,  filósofa alemã, ao falar de um dos períodos mais sombrios da humanidade, o nazismo,  no prefácio da obra Homens em Tempos Sombrios, postula que:

Mesmo no tempo mais sombrio temos o direito de esperar alguma iluminação, e que tal iluminação pode bem provir, menos das teorias e conceitos, e mais da luz incerta, bruxuleante e frequentemente fraca que alguns homens e mulheres, nas suas vidas e obras, farão brilhar em quase todas as circunstâncias e irradiarão pelo tempo que lhes foi dado na Terra. Olhos tão habituados às sombras, como os nossos, dificilmente conseguirão dizer se sua luz era de uma vela ou a de um sol resplandecente. Mas tal avaliação objetiva me parece uma questão de importância secundária que pode ser seguramente legada à posteridade.

Desse modo, essa luz há de existir, e, para mim, provém, quase sempre,  da arte, independente do tempo histórico no limiar do “eterno retorno”. No filme francês,  o vizinho pintor de Amélie,  Raymond Dufayel, o “homem de vidro”, que vivia enclausurado e solitário no apartamento, pintando e criando telas, diz à protagonista parisiense, que passa a infância isolada do mundo:  “São tempos sombrios para os sonhadores”. Tenho usado muito essa frase ultimamente, não como alusão retórica, mas, sentindo-a, diariamente, ao ouvir os números de mortes no noticiário e nem flores esses mortos podem receber. Recebem apenas o luto com falta do ritual cultural de despedida. Contudo, o artista diz para Amélie que ela não tem ossos de vidros e pode suportar um ou dois baques da vida. Repito, então, para mim, o conselho, numa espécie de conformidade com  a inércia, de que posso suportar, e, quiçá, assim, sonhar.

Álvaro de Campos, em Tabacaria, de Fernando Pessoa,  nos versos introdutórios apresenta uma das estrofes mais dilemáticas e complexas da poética portuguesa:  “Não sou nada/ Nunca serei nada/ Não posso querer ser nada/ À parte isso tenho em mim todos os sonhos do mundo”. Outro sentimento insurgente em tempos pandêmicos, não somos nada perto de um vírus aniquilador, mas temos  todos os sonhos do mundo. Sonhos de abraços, de despedida, de encontros com amigos, de brindes à vida. E o mesmo  eu lírico diz que a vida é para quem nasce para a conquistar e não para quem sonha com isso. Em divagação filosófica pessoana, como é possível  sonhar e realizar  sonhos, se a existência é tão ínfima,  em tempos tão sombrios?

Assim, deparo-me, em uma aula de teoria poética, sobre a origem da arte e da poesia,  que, para Aristóteles, em Arte Poética,  possibilita a  kátharsis (purificação e cura), em um momento de apreciação pela vida, pelo belo e pela essência humana com a visão de uma luz no fim do túnel.  No decorrer da explanação dialógica, apresento a escrita como um momento de epifania humana e terapêutica, como sempre enfatizo. Após traçar  um  percurso histórico de como a escrita foi determinante para a construção sociológica de todos os saberes e fundamental para a explanação da “luz” à humanidade, e a base de todas as expressões artísticas, observei que pouco impacto e convicção as minhas afirmações e ponderações causavam, decidi comprovar que somos feitos de ternura e sentimentos. Declamei, então, Vinicius de Moraes, Soneto de fidelidade. Como mágica, os olhinhos brilhavam e se impressionam ao ver o texto frio e estático ganha vida. Sorrisos delicados e brilho no olhar foram a resposta. Toca ou não toca? Sentimos a poesia?  Em uníssono sim, tive a constatação de  que, de fato, encontramos luz na escuridão, nos pequenos momentos prazerosos da vida, na arte como a possibilidade de sonhar e realizar. Na poesia.

 No final dessa aula, enquanto desligava o aparato tecnológico,  uma aluna veio me segredar que, após uma aula,  em que eu  disse que escrever era uma forma de externar o que sentíamos, de nos curar do que nos causava angústia,  ela escreveu 18 páginas, nunca havia escrito tanto e se sentiu bem melhor, como se tivesse criado um “eu amigo”. E, assim, o Universo inteiro se reconstituiu para mim. Sorri e, nesse momento resplandecente, constatei que, é tempo de falar das flores e,  sim, é tempo de sonhar, mesmo em tempos tão sombrios:  “Soh Ar”.  E como dizia Nietzsche:  “a arte existe para que a realidade não nos destrua”.

Referências

ARENDT, H. Homens em tempos sombrios. São Paulo: Editora Schwarcz, 2010.

ARISTÓTELES. A Poética.  Disponível em: A “Poética” de Aristóteles: tradução e comentários (usp.br). Acesso em: 16 de junho de 2021.

JEUNET, Jean-Pierre . O fabuloso destino de Amélie Poulain. Filme de 2001.

NIETZSCHE, F. In. Zero Hora – ANO 53 – N° 18.724 – 14 de março de 2017 – Pág: 48

PESSOA, F. Tabacaria. In.  Revista Presença, 1933.

Professora de produção textual no Colégio São José-PU. Graduada em Letras: Português/Espanhol. Pós-graduada em Língua Portuguesa e Literatura. Colunista do Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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Karine Bueno Costa-
Professora de produção textual no Colégio São José-PU. Graduada em Letras: Português/Espanhol. Pós-graduação em Língua Portuguesa e Literatura.
Karine.costa@hotmail.com
42- 999591893

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