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Sobre palavras, sentidos, tempo e redes sociais

Por Gisele de Souza Gonçalves

O que são Redes Sociais? Saiba tudo sobre Instagram, Linkedin, Facebook e  mais

Ser, parecer

Entre o desejo de ser

E o receio de parecer

O tormento da hora cindida

Na desordem do sangue

A aventura de sermos nós

Restitui-nos ao ser

Que fazemos de conta que somos

Poema publicado no livro “Poemas Escolhidos”, de Mia Couto.

As palavras têm um certo poder de acelerar o coração ou de indigná-lo. É interessante que uma mesma palavra, dependendo de quem a usa, pode nos fazer abraçá-la ou repudiá-la. Palavras dançam, guerrilham, consolam, aproximam, afastam. Elas são um bom dosador sobre teoria e prática. Há pessoas que dizem palavras de outras que, justamente, sempre disseram coisas das quais o sujeito que as usa de empréstimo se quer defenderia, mas, ali, fora de contexto, elas servem muito bem. Isso é contraditório e um pouco cômico, mas não muito, porque mostra justamente uma certa ignorância sobre alguém ou algumas ideias e ignorar certas coisas é um tanto nocivo.

            O uso da palavra empatia, por exemplo, muitíssimo aproveitada atualmente, talvez não tanto quanto a palavra gratidão – de que gosto muito por ser tão bela e profunda, mas até me cansa, algumas vezes, pelo uso exagerado e vazio -, traz em si muita contradição. Se pensarmos pelo viés de uma análise do discurso retórico onde temos pathos, logos e ethos, poderemos entender tais contradições. Lembramos aqui estas três categorias de acordo com Aristóteles:  ethos, que se relaciona à imagem do orador; logos, referente a questões lógicas dos argumentos apresentados no discurso; pathos, quefaz referência às emoções no discurso.

            Falo (escrevo) aqui considerando um cenário: redes sociais, pois não tenho tido muitas experiências presenciais em virtude da pandemia. Muitas pessoas gostam da palavra empatia, talvez não muito de seu significado, mas da sonoridade e das curtidas que são atribuídas a esta palavra, pois como Aristóteles comenta “a boa reputação consiste em ser respeitado por todos ou ser detentor de alguma qualidade desejada por todos” (ARISTÓTELES, 2013, p.62). A contradição é esta palavra ser usada por pessoas que não são muito empáticas com determinados grupos, pois também gostam da expressão “mimimi”. Se pensarmos no ethos do orador e naquilo que ele publica expondo sua opinião via comentários, postagem, stories e outras possibilidades nas redes sociais, talvez eu e você poderemos perceber os paradoxos. Não entendam isso como julgamento, mas como categorias de análise para que não sejamos influenciados por modismos vazios. A palavra empatia é muito importante, gosto da sonoridade dela também, mas precisa ser bem entendida – na teoria e na prática -, e sinceramente, estou buscando aprender sobre isso, pois temos o hábito de sermos empáticos apenas com aqueles que pensam próximos dos nossos ideais. Ser empático é um grande desafio.

            Há ainda uma outra situação muito recorrente: apelar para a empatia aplicada do outro para si, um bom exemplo do uso do pathos, induzindo a uma certa afetividade. Assim, a empatia serve para justificar o quanto preciso ser compreendida, no entanto, quando a empatia é solicitada para aplicar a este outro, muitas vezes, tende a ser uma questão de mimimi (que sonoridade desagradável).

            Enfim, é bom, além de curtir lindas frases sobre empatia ou qualquer outro tema, analisar o que está exposto e por quem está, assim perceberemos melhor os argumentos e sua consistência, identificando ethos, logos e pathos nestes discursos em que somos espectadores.

Fazermos essa autoanálise também é necessário, pois este tempo precisa de mais análise, de si e do outro, pois é a nossa criticidade que poderá construir ações mais sólidas e menos superficiais. Eu acredito que o ato de ler e de interpretar pode, inclusive, nos fazer mais empáticos, aceitando questionar e dialogar sobre posturas, palavras e sentidos.

Referências   

ARISTÓTELES. Retórica/ Aristóteles; tradução, textos adicionais e notas Edson Bini. São Paulo: EDIPRO, 1ª ed. 2011, 1ª reimp. 2013.

COUTO, Mia. Poemas escolhidos/Mia Couto. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

Gisele de Souza Gonçalves. Professora e Doutoranda pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE). Mãe. Colunista do Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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