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Sejamos nós mais que antes

Por Gisele de Souza Gonçalves

Design Humano – Entenda e aceite seu verdadeiro eu interior | Dicas de  Artesanato

Sentir nosso íntimo, às vezes, é doloroso. Perceber as angústias de nosso interior nos proporciona certa insatisfação. A pandemia não acaba e vai levando nossos sonhos, planos e pessoas. Dói tanto. É preciso muito tempo para entender que a vida é uma troca de ausências.

            Mesmo em silêncio, não estamos quietos, nossos pensamentos vão longe, pensam e repensam o que temos vivido com muito mais dúvidas que certezas. Até quando ficaremos à deriva? O que resta é viver o agora, já que o cenário é duvidoso. A pandemia só confirma o que tínhamos esquecido: não estamos no controle.

            Mas este silêncio, que há em mim e em muitos de vocês, está em movimento, observando o mundo e o nosso interior, lembrando pessoas, ações e omissões, relembrando as memórias e nossos sonhos do passado, entristecendo ao lembrar, agradecendo por estar. Sejamos nós. E o que fica quando somos nós? Quem realmente nos ama, quem realmente amamos para além do aceitar. Amar é muito mais que agradar, aceitar, resignar. Amar é ser. Sejamos.

            Há muita dor e indignação, mas ainda há amor e humanização. Sendo professora, em tempos de desvalorização e de um certo orgulho pela ignorância, tenho recebido provas de que ainda é possível esperançar. Palavras, lágrimas, solidariedade, acolhimento e olhares se comunicam a certa distância.  Entre lutos e doença, entre vitórias e perdas, entre cansaços e descobertas de nós, há uma transparente humanização em alguns. Dia desses, a mãe de uma aluna ligou sabendo que nossa família está de luto, ela disse “se cuida, precisamos de você”. Foi bom ouvir aquilo naquele momento. Em tempos como este, toda palavra afetuosa traz um acalento para nossa humanidade.

            Entre nossos dias – alguns mais animadores, outros nem tanto – vamos reaprendendo a viver e a valorizar os detalhes mais do dizíamos. Vamos observando melhor aqueles que nos confortam, aquilo que é profundo ou que é superficial. Até a maldade passa a ser mais perceptível, possivelmente, alguns de nós já identificam as más intenções, estamos amadurecendo com as discrepâncias que se evidenciam menos camufladas, pena que ainda há tantos que não as percebem e continuam a defendê-las. Por isso tenho mais dúvidas: o que fazemos é por influência ou quem somos influencia as escolhas que fazemos? Pensar sobre isso me faz lembrar Manoel de Barros: “Tentei fazer primeiro o desvelhamento das palavras para não copiar as que eu aprendera. As palavras não tinham comportamento. Então inventei desver o que via para ver novas coisas” (2017, p.186). Ver novas coisas sem copiar as velhas é um desafio para nossas escolhas.

            E para findar o texto que com dificuldade me fez sentar e escrever – ando confusa e cansada, escrever tem sido um grande desafio – deixo aqui as palavras da grandiosa Conceição Evaristo (2016, p.99), que representa a fala do personagem Dorvi, para que seja nosso mantra: “A gente combinamos de não morrer”. Sejamos nós e sigamos.

Referências:

BARROS, M. Manoel de Barros por Douglas Diegues. In Cult 20 anos: melhores entrevistas/ Daysi Bregantini, Welington Andrade (orgs.). 1ª ed. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2017.

EVARISTO, Conceição. Olhos d’água. Rio de Janeiro: Pallas: Fundação Biblioteca Nacional, 2016.

Gisele de Souza Gonçalves. Professora e Doutoranda pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE). Mãe.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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