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Todas as letras serão “castigadas”: Entre o erotismo e a escrita

Por Eliane Camargo e Josemi Teixeira Medeiros

Erotismo mundano, erudito e sacro » Tibério Vargas Ramos

“Não me olhe como se a polícia andasse atrás de mim…
Cale a boca e não cale na boca notícia ruim.”

(“Dom de Iludir”de Caetano Veloso)

Um texto começa antes mesmo de ser escrito. Começa no aconchego daquilo que virá a ser. Este, que publico hoje, teve início em uma das conversas que tive com meu amigo Josemi Medeiros, parceiro de discussões e das palavras escritas. E, que muito gentilmente se colocou a escrever comigo. Aqui se mesclam não somente frases, mas, pensamentos que se permitem ao atravessamento e se complementam em ideias.

No celular, um diálogo:

  • “Escrever é desnudar”.
    Em seguida, sem titubear, a resposta:
    -“Então vamos para uma praia de nudismo”. (risos)
    Tão logo, o complemento:
  • “Na praia de nudismo não há pudor porque “todas/os” estão em formato de letras”. (mais risos)

Sem demora, chegamos a uma conclusão: Naquele espaço onde a nudez é permitida, as pessoas não se enxergam como corpos sexualizados, mas como expressões daquilo que cada um pode ser. No contexto de nudez, se desconstrói as fantasias eróticas, em troca de uma vivência com a busca de outros significados. 

Escrever é um ato de desnudamento. Tirar a roupa é desfazer daquilo que nos protege.  É expor-se ao mundo como somos. Para alguns, um exercício agradável, desde que estejamos na nossa zona de conforto, que significa dizer: quando escrevemos para nós é como se tivéssemos promovendo um banho de palavras. Ao contrário disso, a vista de todos é sempre mais constrangedor tirar a roupa. Talvez por isso, muitas pessoas escondem escritas maravilhosas por medo de não se enquadrarem em padrões opressores. Mas, é preciso dizer: Assim como os corpos, a escrita foge aos padrões.

Ao escrever revelamos o erotismo do nosso imaginário, expomos o corpo para fora, nos jogamos ao vento e deixamos que os outros nos vejam. Na praia de nudismo, as pessoas se permitem serem vistas, assim como na escrita, permitimos que as pessoas adentrem em nossos corpos letrados por meio da leitura.
 
Escrever e mostrar-se são exercícios de coragem e liberdade. Diríamos mais: Um ato de safadeza mesmo. Assim como transformamos a escrita em sonhos e desilusões, o ato também pode ser libidinoso, um agir revolucionário, onde expomos nossas vísceras e fragilidades.  

No filme “Amarelo Manga”, de Cláudio de Assis, aparece a seguinte frase:  “o pudor é a forma mais inteligente de perversão”. Se os livros fossem proibidos, como já foram no período medieval, talvez o despertar do imaginário erótico de acesso as partes intimas de uma obra, fosse mais instigada. O proibido, o que se permite velar, sempre causa mais curiosidade. No entanto, os tempos são outros, vivemos no momento de acesso e rapidez da informação e ao mesmo tempo: o culto da ignorância. O que se caracteriza mais por numa prostituição das letras, do que uma relação consensual.

Na peça de teatro de Nelson Rodrigues: “Toda nudez será castigada”, somos “agraciadas/os” pela seguinte fala: “Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. […] E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico. […] Deve-se ler pouco e reler muito. Há uns poucos livros totais, três ou quatro, que nos salvam ou que nos perdem. É preciso relê-los, sempre e sempre, com obtusa pertinácia”. O texto desconcertante, instiga “leitoras/es” e “escritoras/es” ao desejo em buscar minuciosidades, que encontram-se nas entrelinhas do corpo do texto. É um exercício do desejo, onde buscamos tocar as palavras como se as folhas dos livros fossem a pele que arrepia quando é tocada com afeto.  

Uma pausa.
Pensamentos (…)

  • E, se considerássemos o banheiro e a cama como sendo ambientes filosóficos?

Ainda que esta ideia pareça loucura, são nesses ambientes que despimos das nossas vestes, é lá que expomos nossos corpos sem censura ou julgamento. Entre as duas linhas não existe pornografia, mas, apenas palavras que são expressões de uma língua. A indecência está mais no julgamento mental “daquelas/es” que preferem a condenação, ao invés de viver: a delícia de ser o que se é .

  • O que desejamos com esta escrita?

Que tenhamos um tempo de depravação com as letras, que possamos despertar fantasias e erotismos. Sonhar um mundo que ainda não existe, com sonhos que ainda não foram adormecidos, que a sensualidade não seja reprimida, mas, seja exposta naturalmente para ser entendida e não entediada.

Queremos a escrita que se mostra, pensa e sente sem pudor. Uma busca para entender a nós e aos outros. Entender o que os corpos querem dizer.

Talvez seja por isso, que nós amantes das letras buscamos o tempo inteiro o corpo letrado, aquele que se entrega à escrita com paixão. Não aquele que se esconde atrás de do excesso de citações, do dizer que é sempre de outros e nunca é de quem escreve, por medo ou por não se atrever a se mostrar. Afinal, escrever o que se pensa é sempre um risco.

Por fim, o nosso desejo: Que possamos desnudar das vestes que nos padronizam, que tanto nos aprisionam e que tenhamos coragem de sermos nós “mesmas/os”.

Para além… Ousemos escrever!

Eliane de Fátima Camargo, Graduada em Filosofia e Sociologia. Mestranda em Filosofia. Feminista. Colunista do Factótum Cultural.

Josemi Teixeira Medeiros, em exercício poético, graduado em Filosofia, com especialização em Filosofia da Educação . Mestre em Filosofia.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

2 comentários em “Todas as letras serão “castigadas”: Entre o erotismo e a escrita Deixe um comentário

  1. “Escrever é um ato de desnudamento”. Escrever é se expor, e muitas vezes não o fazemos por medo.
    Concordo plenamente com vocês, Eli e Josemi, e os parabenizo por se exporem assim, desnudarem-se desta maneira.
    Amei cada virgula deste texto.
    Parabéns!

    Curtir

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