Ir para conteúdo

Pedagogia do tambor: a alegria como forma de resistência

Por Pâmela Bueno Costa

Odeir Santos — M A N U A L

“nós que somos das encruzilhadas,

desconfiamos é daqueles do caminho reto”

(Simas e Rufino)

“se a chibata é o grito de morte, o tambor é discurso de vida

(Simas e Rufino)

“a linha reta não sonha”

(Manoel de Barros)

É tempo de ressignificar. Note,  este tempo deveria ter sido ontem. Vivemos marcados por um passado e um presente de negação e negacionismo. Por um desencantamento epistêmico. Precisamos voltar a bater os tambores. Precisamos voltar a encarar a alegria como forma de resistência. Eu sei, nosso tempo de hoje está marcado pela tristeza, pela fome, miséria e morte. Já não sorrimos com frequência. A Pandemia do Covid-19 vem matando inúmeras pessoas, os números são tão altos que cortam nossa carne todos os dias. É difícil esperançar, sendo ainda mais difícil fazer a alegria presente, estamos cansados e tristes, mas os cantos dos pássaros, o azul do céu, o sorriso das crianças nos ajudam a sonhar. Ainda é permitido sonhar, é possível ainda pegar o delírio do verbo. Sonhar que os raios de Oxumaré vão colorir o céu e o tambor de Zaze vai ecoar trazendo o canto (en)canto novamente. O encantamento é fundamental para que possamos continuar a viver. Buscar leveza e serenidade em tempos tão sombrios, pois, algumas coisas estão fora do nosso círculo de controle.

Luiz Rufino, grandiosamente juntando os cacos, buscando nos escombros aquilo que permanece vivo, apresenta a Pedagogia das Encruzilhadas: cantando que os caminhos são inacabados. O que podemos entender como uma nova concepção de educação, aquela que gira, ginga e brinca, que nos mantém vivos, um saber praticado nas margens que abre caminhos. Exu é aquele que guia as encruzilhadas. Aquele que nos ensina a refletir sobre os atos, “é o radical da vida, que nos interpela sobre a capacidade de nos inscrevermos como beleza e potência”[1] (RUFINO, 2019, p.7). É isso que precisamos!Brincante, transgressor, pregador de peças, é força vital, é aquele que faz o erro virar acerto e o acerto virar erro.

Luiz Simas e Rufino, em Fogo no mato: a ciência encantada da macumba, afirmam que Exu: “vive no riscado, na fresta, malandreando no sincopado, desconversando, quebrando o padrão, subvertendo no arrepiado do tempo, gingando capoeiras no fio da navalha” (SIMAS, RUFINO, 2018, p.114). As encruzilhadas são lugares de encantamento para todos os povos. Para os gregos e romanos, para os povos tupis, africanos, do povo do Congo ao Brasil caipira: esses povos fizeram oferendas nas encruzilhadas. Primeiramente, nos tempos antigos, reza a lenda que os gregos e romanos faziam oferendas à deusa do fogo e da lua nova Hécate. Dos tupis podemos destacar as oferendas nas encruzas para o curupira. Para muitos dos povos africanos, Exu mora nas encruzilhadas e faz sua morada. É nesse contexto, que o encantamento brota. E os batuques anunciam uma nova forma de ver o mundo. O tambor é filho das encruzas[2]. Lançando a primeira pedra, pedrinha miudinha: – de acordo com Simas, o nosso país nasceu da melancolia de Zâmbi.  Você deve ter ouvido falar na história de um certo tempo, onde o mundo estava marcado pela tristeza, pela solidão e não existia alegria. Para que não desistisse do mundo, Zambiapungo, o senhor supremo que andava muito triste, e não via mais sentido para o curso do mundo, queria algo que o despertasse alegria e sentido para as coisas (coisa bem comum no nosso cotidiano).

 Zâmbi, sábio e criador das coisas necessárias à vida, também entristeceu, porém, recorreu aos seus inquices, voduns e orixás. Os primeiros a apresentarem um sentido, uma alegria, um encantamento da/para natureza, provocaram admiração, contudo, não o sorriso de Zâmbi. Katendê mostrou o poder das plantas, Matamba, senhoras das ventanias mostrou a força dos furacões, Vunji trouxe as crianças, Angorô coloriu o céu, inventando o arco-íris, Gongobira deu aos rios vários peixes. Zâmbi agradeceu a todos que trouxeram e produziram novidades, no entanto, ainda não estava alegre. Diante de uma melancolia, foi Zaze que espantou a tristeza com o batuque do tambor! Aquecendo o couro, pegando um tronco e deixando oco, esticou o couro no tronco seco e oco, e inventou, assim o Ingoma, isto é, o tambor. E o som ecoou, atingiu o ser de Zâmbi que gingou, rodopiando, ao batuque sincopado todos fizeram a primeira festa da manhã do mundo: Zâmbi sorriu[3].

O contrário da vida não é a morte, mas o desencanto.  É preciso que, do mesmo modo que Zâmbi, possamos inventar e recriar formas de subverter o mundo, trazendo novamente a alegria para fazer morada. Com isso, buscamos pensar que, apesar de tudo, a vida é bonita, e é preciso erguer-se diante do soterramento, do esquecimento, dos escombros e assombros de uma história que insiste em silenciar e entristecer. Mas, o que desejamos é barulho, é o som dos tambores. Burlar a morte, dessa maneira, podemos fazer isso pelo encante, ou seja, rompendo com uma lógica colonial, que provoca o desencantamento da vida. E isso só é possível a partir da arte do cruzamento: “os encruzamentos emergem como princípios éticos e estéticos, poéticos e políticos de ressignificação da vida nos cotidianos forjados na fornalha do racismo/colonialismo” (SIMAS, RUFINO, 2018, p.29). Que o som possa atingir o corpo e a alma, e as vozes e saberes silenciados passem a ecoar.  Não é somente pela máxima de Descartes – “Penso, logo existo” –  que devemos seguir nossas encruzilhadas, mas sim: danço, logo existo, canto, logo existo, toco, logo existo, gingo, logo existo. É através da ginga e do canto que podemos subverter a pedagogia do silenciamento e desencantamento da vida e  do corpo.

Simas e Rufino são kumbas, “são poetas do feitiço, que reconhecem a plenitude da beleza, da sofisticação e da alteridade entre as gentes.” É de gente que precisamos, de gentes no plural, com seus saberes, ritos e encantamentos. A encruzilhada é incerta, ela desconforta, eis o seu fascínio. Portanto, formas de encantar novamente nossa vida é preciso. Driblar a tristeza, é um ato transgressor, pois a lógica do sistema é monopolizar o saber (monoracional), dessa forma, a pedagogia das encruzilhadas, nos convida ao cruzamento, a dançar, e escutar o som que ecoam dos batuques dos tambores em uma visão poliracional.

 Ao pensar pelas gramáticas dos tambores: se a chibata é o grito de morte, o tambor é discurso de vida (SIMAS, RUFINO, 2018, p.58), são eles que expressam aquilo que as palavras não conseguem dizer e narram as histórias que nunca contaram. E nessa coreografia dos afetos:  temos uma nova forma de interpretar a vida, aprender, reconhecer suas falas e um alargamento do presente. Nesse sentido, descortinar os véus e reinventar a vida: na travessia de pensar e descortinar o mundo, gingando com os saberes, somos convidados a fazer um giro e, nessa gira de-colonial, anunciamos novas formas de interpretar a vida, pois, há no idioma dos tambores: “um potencial educativo vigoroso de elucidação dos mundos e interpretação da vida”[4], assim como Zâmbi, é preciso driblar a tristeza, cantar o canto da alegria e não da morte.

O tambor tá batendo…

O tambor tá chamando…


[1] Abordagem realizada por Luiz Rufino em Pedagogia das encruzilhadas, 2019, p. 7.

[2] Reflexão a partir da obra de Simas e Rufino: Fogo no mato:  a ciência encantada das macumbas, 2018, p. 18.

[3] Com base na crônica de SIMAS,l. Pedrinhas miudinhas: ensaios sobre ruas, aldeias e terreiros, 2019 p. 131.

[4] SIMAS.L. Corpo encantado das ruas. 2020, p. 32.

Pâmela Bueno Costa, professora de filosofia na rede estadual e particular de ensino – SC. Graduada em Filosofia. Pós-graduada em Ensino da Filosofia. Mestre em Ensino da Filosofia PROF-FILO. Cursando terceiro ano de Letras: Português/Espanhol (UNESPAR). Ilustradora amadora e aprendiz de aquarela. Colunista do Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

2 comentários em “Pedagogia do tambor: a alegria como forma de resistência Deixe um comentário

  1. O contrário da vida não é morte, mas o desencanto. Que lindo Pâmela!
    É preciso mostrar que estamos vivos, bater tambor, fazer barulho, fazer florir!
    Vamos bater tambor, espalhar conhecimento, alegria, dançar e envolver, fazer ecoar nossa voz.
    Parabéns elo teu texto, pela tua fé, força e coragem.
    Laroyê.

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

%d blogueiros gostam disto: