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Um tempo para as ilusões

Por Eliane de Fátima Camargo

Todas as pessoas possuem peculiaridades. Eu tenho tenho algumas. Não sei se são boas ou ruins, mas são o que me fazem ser eu. Dentre estas, tenho uma que me fez chegar ao texto de hoje: Gosto muito de observar as pessoas e imaginar o que elas estão pensando… Hoje, minha memória pousou sobre uma tarde dessas em que de longe pude ver como os sentimentos podem ser tão transparentes.

(o passado, o presente…As ilusões)

Era dezembro, as férias se aproximavam, eu estava em uma padaria simpática perto da Universidade, de posse de um livro que já me chamou a atenção pelo nome: Filosofia de Boteco: no Reverso das Ilusões. O livro cheio de ilustrações me fez lembrar minha doce Alice: E de que serve um livro sem figuras e nem diálogos?[1]

Tenho que compartilhar com vocês ao menos uma imagem do livro:

Uma moça de cabelos longos entrou e sentou em uma das mesas que estavam vagas. A garçonete se aproximou e perguntou o que ela iria pedir. Ela respondeu que estava à espera de alguém. 

Volta e meia olhava para a porta. A julgar pelos seus gestos parecia que estava ansiosa. Depois de alguns minutos um rapaz entrou e se aproximou da mesa. Os olhos da moça brilharam e ela abriu um sorriso, parecia que a felicidade lhe abraçava. (Era óbvio, eram mais que amigos) Ele, de sorriso largo e voz rasgada, parecia alegre de também vê-la. Conversaram alguns instantes, pediram duas cervejas e ambos tomaram rapidamente.

Não pude deixar de notar que durante toda a conversa o rapaz sempre estava  com o celular nas mãos, vendo algo ou respondendo alguém. Parecia que a frase no livro caia como luva naquele momento: “Não há como esperar que, na atualidade, pessoas em estado de sobriedade, atropeladas pela labuta cotidiana, tenham algum interesse em meditar filosoficamente sobre o sentido da vida.”[2]  Nem sobre o sentido da vida, nem sobre o fato de vivê-la.

Depois de pouco tempo se despediram com um abraço apressado.

(As lágrimas… ilusões?)

Ela, por alguns minutos, ficou parada, parecia perdida em pensamentos, olhando para o nada. Não sei o que esperava com aquele encontro, que ilusões tinha criado em seu imaginário, mas era visível, as lágrimas que escorriam em sua face, me faziam crer: As ilusões desfeitas machucavam.

Pegou sua mochila, pagou a conta e foi embora. Eu também, arrumei minhas coisas e saí com pressa, já era hora de pegar o ônibus e voltar para casa.

(A janela, o livro… as ilusões diárias)

– Qual tempo dedicamos às nossas ilusões?

Hoje, o encontro daquele casal (não sei se eram) martela meus pensamentos. Parece que aquela imagem reflete na janela do meu quarto, mexendo com o íntimo de meu ser, talvez, com as expectativas que já tive com tantas coisas e que hoje me parecem tão banais.

Talvez soe clichê, mas durante a pandemia passei a entender o quanto um encontro é importante… Deixei de compreender esse jeito que as pessoas costumavam se ver. Nunca estavam inteiramente no lugar ou com as pessoas. Valia mais uma foto, um story, do que o próprio estar junto. Sempre no automático, na superficialidade, sempre com pressa.

– Como se pode sentir as pressas?

Os pensamentos que se misturavam com a leitura do livro naquela tarde, hoje me fazem sentir como se fosse o próprio  personagem, me perguntando sobre os dilemas da vida. Igual ele: “Desejando, dentre muitas coisas, compreender, nas minhas circunstâncias, quais são os tipos de homens que entornam a minha realidade”.[3]

– Quem sou eu nessa realidade?

– Quem somos nós… A moça com seu tempo de ilusões ou o rapaz com seu tempo capitalizado?

Estou me reconstruindo nesse tempo, reaprendendo a estar junto. Junto de quem sempre esteve aqui e junto de  quem está longe. Desejo muito que, quando essa pandemia acabar, as pessoas de fato, sejam outras. Que se olhem mais devagar, abracem com vontade, conversem sem pressa… Não se envergonhem de sentir, se amem sem culpa.

Que as circunstâncias não sejam somente imaginadas, mas, realmente vividas.

Devo dizer: É de coração apertado que termino… Queria muito que o tempo fosse outro. Não é!

Hoje, me entrego às ilusões de minhas ilusões.


[1] CARROL, Lewis Carrol. Alice: Aventuras deAlice no país das maravilhas e Através do espelho e o que  Alice encontrou por lá. Trad. Maria Luiza X. de A. Borges.Ilustrações: John Tenniel, Sd,p,16.

[2] ALMEIDA, Antônio Charles Santiago. Filosofia de Boteco: No Reverso das Ilusões. Ilustrações: Pâmela Bueno Costa.Curitiba-CRV, 2019. p. 17

[3] ALMEIDA, Antônio Charles Santiago, p.47-48.

Eliane de Fátima Camargo, Graduada em Filosofia e Sociologia. Mestranda em Filosofia. Feminista. Colunista do Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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