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Escrever, claro

Por Iara Aparecida Dams

Dicas para escrever uma boa redação | EPTV na Escola Sul de Minas | Rede  Globo

Escrevo porque encontro nisso um prazer que não consigo traduzir. Não sou pretensiosa. Escrevo para mim, para que eu sinta a minha alma falando e cantando, às vezes chorando…[1]

Escrever é doar-se ao papel, é pôr em palavras pedaços de si, expondo-se ao mundo como se fosse um diário publicado em jornal. É preciso ter uma enorme coragem para fazê-lo, mesmo que com a esperança de nunca ser lido, afinal ao escrever estamos dando vida e significado aos nossos pensamentos e abstrações.

Clarisse escrevia para traduzir os sentimentos que se acumulavam em alma e, creio eu, ser uma excelente definição. Sentimentos agem como um turbilhão, misturam-se e escondem-se, mentem e são sinceros. Ao colocá-los no papel os definimos, talvez não conseguimos abranger tudo que sentimos, mas é um ótimo exercício para a alma.

Exercício que pode ter vários resultados, alívio, alegria, dor, raiva. O que mais me ocorre é a frustração. É tão complicado definir em palavras sensações que muitas vezes nem compreendemos ao certo. Seria como definir o gosto de um beijo apaixonado, o calor de um abraço acolhedor, explicar as milhões de ideias que passam pela nossa cabeça em um minuto.

Fernando Pessoa costumava dizer que “a literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida.[2]Existe um efeito que ocorre quando lemos, a verossimilhança, que  é como um acordo entre leitor e escritor, onde ambos aceitam que os fatos que se desenrolam no livro são reais. E uma das melhores sensações que existem é quando aceitamos este contrato, mergulhamos fundo no enredo e vivenciamos a história.

Esse ato de ignorar a vida também é uma maneira de compreendê-la. A literatura não é apenas um ponto de fuga mas de aprendizagem, um romance não deixa de ser uma uma história que ainda  não aconteceu. E escrever é sonhar com essas possibilidades para a vida.

Mas então, por que é tão difícil escrever? A sociedade vem impondo limites para a escrita, exigindo do autor meios e fins que comprovem o que o move. Eu, escritora, escutei muitas vezes me questionarem sobre quem eu era para afirmar ou negar minha teoria, quem eu sou para ter uma posição sobre determinado assunto? Para escrever tem que ter nome e renome.

Não basta ter opinião, ter articulação de palavras, deve-se ter voz para defender-se. A imaginação e a criatividade vão sendo sufocadas aos poucos, e vemos cada vez mais a folha em branco… e continua em branco. Entende-se muito bem quando Luís Fernando Veríssimo diz: “A sintaxe é uma questão de uso, não de princípios. Escrever bem é escrever claro, não necessariamente certo. Por exemplo: dizer ‘escrever claro’ não é certo, mas é claro, certo?”[3]

Logo pode-se compreender o motivo das crianças terem tanta facilidade para escrever e inventar, pedir a elas para criar uma história com um elefante azul e um leão marciano não é desafio, é diversão! E a criatividade delas é tamanha que supera todas as expectativas.

Mas a criança  cresce, fica à sombra de uma montanha de regras impostas e a criatividade, não se perde, mas fica tímida e temerosa. Erro fatal. A folha colorida de ideias vai desbotando e perdendo o brilho. As mais teimosas insistem nos tons alegres das palavras, mas tem aquelas que optam pelo preto e branco. Triste realidade que maltrata a imaginação.

Enfim, chego a conclusão que escrever é doar-se. Ler é abstrair-se. Fazê-los é apenas para quem está realmente vivo.

REFERÊNCIAS

PESSOA, Fernando. Livro do Desassossego. Vol.II. Lisboa: Ática, 1982.

VERÍSSIMO, Luís Fernando. O gigolô das palavras. 8. ed. Porto Alegre: L&PM, 1982.


[1]Clarice Lispector

[2]Fernando Pessoa, “Escrever é esquecer”.

[3]Luís Fernando Veríssimo, “O Gigolô das Palavras”.

Iara Aparecida Dams, professora de Língua Espanhola no Colégio São José – PU. Graduada em Letras: Português/Espanhol (UNESPAR). Pós-graduada em Alfabetização, Letramento e Literatura Infantil (UNINA). Cursando Pedagogia (UNIASSELVI). Poetisa e escritora. Colunista do Factótum Cultural. 

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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Professora do ensino fundamental I no Colégio Santos Anjos – PU. Graduada em Letras: Português/Espanhol (UNESPAR). Pós-graduada em Alfabetização, Letramento e Literatura Infantil (UNINA). Cursando Pedagogia (UNIASSELVI). Poetisa e escritora. Colunista do Factótum Cultural.

4 comentários em “Escrever, claro Deixe um comentário

  1. Belo e singelo texto-depoimento. Me permitiria apenas acrescer – a título de corroboração e reconhecimento – que, como escritor contumaz, louvo o esforço, o desprendimento e a saudável ousadia em aventurar-se por caminhos às vezes espinhosos e quase nunca compensadores, seja no aspecto que for. Afinal, o escritor é um eterno frustrado – e não raro incompreendido – pensador solitário que, na maioria das suas criações, se confunde em meio à multidão crescente de alienados e hipócritas “seres racionais” (sic) que contaminam este castigado planeta.
    Congratulações! E não esmoreça! Persista nesta ingrata missão de festejar a cultura!

    Curtido por 1 pessoa

    • Caro Juan Koffler, agradeço suas ponderações.
      E sou honesta, concordo contigo sobre o escritor ser um eterno frustrado, afinal, as palavras tornam-se poucas para expressar os universos de pensamentos que temos em nós.
      Mas continuamos na caminhada, escrevendo cada dia mais e mais. Nada de desistir.
      Afinal, cada escrita nova é um mundo que abre as portas para nos receber.

      Curtir

  2. Obrigado por suas singelas palavras, cara Iara! É difícil conviver com as ignaras posições assumidas por nossa sociedade (cada vez mais alienada). A mim, particularmente (como professor de mestrado e de doutorado) causa-me profunda decepção observar a deterioração dos nossos alunos (lato sensu), associada ao menosprezo pela cultura, pela história e conhecimento ampliado, sempre.
    Agradeço novamente suas sinceras palavras e me coloco à disposição para que, sempre que assim o desejar, troquemos opiniões enriquecedoras sobre “a arte da pena” e a sociedade em sentido amplo.
    Grande abraço!
    Juan

    Curtido por 1 pessoa

    • Caro Juan Koffer.
      Agradeço seu retorno.
      Compreendo tuas ponderações e venho a concordar com elas. Também vejo muito desta “deterioração” nos meus alunos e nas crianças como um todo, perdeu-se a sede por conhecimento.
      Enfim, podemos sim trocar mais opiniões e conversar sobre os assunto.
      Agradeço pelas tuas ponderações, é sempre bom ter um feedback!

      Grata!
      Iara

      Curtido por 1 pessoa

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