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Não dizer, também diz muito

Por Eliane de Fátima Camargo

Queridas leitoras e leitores.

Cada dia descobrimos novas formas de opressões. Hoje, inicio estas linhas com uma inquietação minha sendo leitora e pesquisadora: a escrita enquanto forma de silenciamento.

É muito comum lermos textos onde a escrita se volta para o masculino, sendo tida como neutra. Ou seja, que o discurso se direciona a homens e mulheres. A tradição opressora é tão forte que nós mulheres, ou nem pensamos sobre isso, ou nem ousamos questionar, apenas abraçamos a escrita, nos sentindo representadas.

No entanto, quando a escrita se volta para palavras femininas, os homens não se sentem representados. É fato, a minha inquietação não é mi-mi-mi, mas a constatação da realidade. Não consigo acreditar em neutralidade nas palavras, aliás, não acredito em neutralidade em nenhum espaço.

Uma vez que os poderes hegemônicos se perpetuam, as palavras também podem ser a afirmação de direitos ou a negação deles. Por isso, a partir desta coluna vou escrever textos com palavras femininas, direcionando tanto a mulheres, quanto a homens e pessoas que escapam a essa construção binária. Espero muito que todas, todos e todes se sintam dentro da escrita.

Entendo que toda ação é política, mesmo quando não nos posicionamos e pensamos estar isentos de qualquer responsabilidade. Ainda assim, estamos tomando uma posição. Basta olharmos para os números da última eleição presidencial, os números de brancos, nulos e ausentes são enormes. Essas pessoas, que se enganam e dormem com a “consciência tranquila”, por não terem se posicionado, possuem sim, muita culpa. Se eximir da responsabilidade, não é ser libertária. Vivemos em sociedade, não temos uma ilha que caiba o egoísmo de cada pessoa. A nossa ação é permeada por consequências que atingem outras pessoas.

É muito provável que em algum de meus textos tenha deixado a entender, mas, em nenhum deles realmente me posicionei. Hoje, senti a necessidade de dizer:

– Sou feminista e libertária.

Talvez esta afirmação soe contraditória para aqueles que se consideram anarquistas, considerando que, enquanto libertária, não deveria estar associada a nenhuma outra ideia, que não fosse a liberdade total, a exclusão do Estado e de qualquer instituição. Mas, até na luta pela liberdade, nós mulheres, somos vítimas do sistema.

Confesso que em minhas ideias utópicas um mundo anarquista é perfeitamente possível. Todavia, a realidade está aí para nos dizer que nem todas as ideias podem se concretizar.  Penso a anarquia, na realidade capitalista brasileira, apenas como ideia.

É preciso dizer, não existe apenas um feminismo, somos várias mulheres, com lutas e causas diferentes, por isso existem “os feminismos”. A ideia do senso comum é sempre acreditar que feministas são mulheres que não se maquiam, não se depilam, odeiam homens, não querem ser mães. Essa pode até ser uma ideia que representa algumas, mas não representa todas. Como já disse, somos múltiplas e ao mesmo tempo únicas.

De fato, a ideia que une todos os feminismos é a luta para que as mulheres sejam respeitadas como gente. É horrível dizer isso, mas ainda hoje, não temos a nossa humanidade respeitada.  

Me dói quando o discurso alienado e machista sobre o feminismo, resume toda uma luta em: Feministas precisam de um homem que “as pegue de jeitopara pararem de mi-mi-mi.

Sexo nunca foi o problema. Aliás, homens, deixem esse ego competitivo de lado, nem precisamos de vocês para termos orgasmos. Quem dera vocês fossem tão livres, como imaginam ser. Em uma sociedade patriarcal, machista e capitalista, ninguém é livre. Apenas reproduzimos o que a sociedade impõe, somos o que ela diz para sermos. Como diz Emma Goldman: “O homem só conhecerá a verdadeira liberdade, individual e coletiva, quando se libertar da autoridade e de sua fé nela.”[1]

Estou me construindo feminista e tentando ser revolucionária, pois, até pouco tempo, tinha uma visão feminista liberal e branca, que hoje tento ao máximo desconstruir. Mas, não me culpo, pois sei que existe um sistema opressor que nos constrói dessa forma. Infelizmente, assim como vocês, sou fruto dele.

As pautas de grupos ainda mais marginalizados dentro do próprio feminismo, precisam ser sim, muito discutidas, pois enquanto algumas mulheres precisam lutar para não serem silenciadas dentro de espaços universitários, políticos. Outras, não possuem nem o direito de estarem nesses espaços.

Quantas mulheres negras, indígenas sequer têm o direito de ler, de estudar, pois a realidade é mais a de sobrevivência. Sei que, enquanto mulher, preciso lutar todos os dias para minha liberdade, mas reconheço que só por poder ler e escrever sobre isso, já me faz ser uma privilegiada.

A verdade é essa: O capitalismo é branco e machista.

Antes da tão aclamada “consciência de classe” tão discutida por uma esquerda de gabinete, a fome; a falta de oportunidades aperta. É fácil falar de empoderamento feminino, quando temos alguém para lavar, cozinhar, cuidar dos filhos. Quisera eu, que a única forma de sair da violência fosse a  “consciência de classe” e o “empoderamento”. Mas, deixemos de hipocrisia, a realidade é outra. E, essa, certamente é bem mais cruel do que nossas fantasias de liberdade permitem ver.

Por fim e sem nem ter tocado a superfície da discussão, acredito que a sociedade só será mais justa, quando vozes silenciadas forem realmente ouvidas, sem que a sua luta seja deslegitimada, vista como algo ultrapassado, ou apenas como mi-mi-mi.

Afinal, mi-mi-mi, é tudo aquilo que não nos dói, não é mesmo?


[1] GOLDMAN, Emma. ( 1869- 1940) O indivíduo, a sociedade e o Estado, e outros ensaios. Org. e Trad. Plínio Augusto Coelho. Hedra, São Paulo, 2007, p.42.

Eliane de Fátima Camargo, Graduada em Filosofia e Sociologia. Mestranda em Filosofia. Feminista. Colunista do Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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