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O resgate da humanização sob as lentes e os likes da desumanidade ocidental

Por Maicelma Maia Souza

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Exu é o dono do mercado. Mercado é lugar de trocas, com movimentações intensas e de comunicação. Você costuma entrar no mercado e sair sem o que foi buscar? Por meio da internet, tive acesso ao perfil do Pai Zezé Ifatolá Olúkemi no Instagram. Todos os dias, ele chama a gente pra tomar café com macumba. Sempre que posso, eu aceito, e, numa dessas lives, ele lançou essa provocação.

As últimas movimentações em torno da presença massiva de pessoas negras no mundo causaram agonia no juízo de quem assiste TV sem a noção do que é a TV. É secularmente tão errado que a TV brasileira não tenha pessoas negras em suas programações, que gerou notícia ver um reality show refletir quantitativamente os dados do IBGE (56% da população brasileira se declara preta e parda, logo, maioria negra). Diante desta novidade, esqueceram que qualquer programa televiso, inclusive o reality show, tem um roteiro a ser seguido. Enfim, não é objetivo aqui entrar nesses detalhes, mas é preciso lembrar, já que a TV utiliza de uma linguagem para vender seus produtos, inicialmente ideológicos. Se a gente for traduzir estas palavras inglesas tão repetidas ultimamente, vamos notar que estamos falando de um “espetáculo da realidade”, uma “demonstração dos fatos”. E, só para lembrar de novo, a mídia sempre foi racista, sempre produziu e reforçou estereótipos e sempre favoreceu às ideologias das classes dominantes, logo, a realidade demonstrada na TV que ela comanda, está em nosso cotidiano, mas não é tudo sobre os fatos sociais.

O primeiro capítulo da obra Pele Negra Máscaras Brancas, de Frantz Fanon, trata exclusivamente da linguagem. É por meio dela que acessamos e assumimos uma cultura, o que nas palavras do autor, significa, “suportar o peso de uma civilização”. Ora, para a civilização ocidental, a pessoa negra ainda é “o meio de caminho no desenvolvimento do macaco até o homem.” Ao constatar essa realidade, Fanon conclui que, quanto mais o sujeito colonizado assimilar os valores culturais da metrópole, sua linguagem e seus comportamentos, mais branco ele será, uma vez que a ideia de homem e de civilizado diz respeito ao homem branco.

Diante de toda essa movimentação no mercado midiático, relendo os estudos de Fanon e ouvindo os guardiões da tradição africana, lembrei-me de um episódio que ocorreu lá em casa, durante as reportagens sobre o currículo do Ex-Ministro da Educação, Carlos Alberto Decotelli. Painho assistia o jornal e replicava com a TV: 

– Mas que cara mentiroso!!

– Mas no governo de Bolsonaro todo mundo mente, painho, os ministros mentem o tempo todo, e mentiram sobre seus diplomas também… (eu disse)

– Mas, Maicelma, ele é negro, (falou isso passando o dedo na pele do braço), tem que dar exemplo. Oxente!!

Painho nunca disse que era negro. Ver ele passando o dedo na pele para se referir a nós, me causou certo orgulho. Cresci o vendo enaltecer suas características “finas”, pra não fugir a regra do efeito padrão branquitude de beleza. Dá pra ver que é notadamente um negro mestiço. Mas negro ele nunca disse que era. Lembro que sempre andei com ele de moto, mas nunca gostei de capacete, porque bagunça meu cabelo. E, nessas aventuras, duas vezes fomos parados pela polícia por eu estar sem capacete. Na segunda vez, depois que chegamos em casa, ele, muito sério e chateado, me disse: “essa foi a segunda vez que a polícia me para por sua causa. Eu não ando mais com você sem capacete.” Eu vi o peso do meu erro nos olhos dele. Ele nunca gostou de ser chamado atenção, nunca gostou de atrasos, nunca gostou de andar sem camisa pela rua, nunca saiu sem combinar o sapato com a meia… nunca quis estar errado. Hoje entendo que toda essa cobrança com ele mesmo sempre foi precaução. Mas ele nunca foi negro. O racismo-colonial vai promover essa proeza: fazer as pessoas negras rejeitarem sua negritude, ao mesmo tempo em que elas vão construir estratégias para não serem pegas pelo racismo institucional.

Numa conversa com ele sobre o afastamento dos dentes frontais em minha sobrinha, eu expliquei que a diastema é muito comum na população negra, que, em geral, não gera problema na dentição, e daqui de casa, só eu que nasci com isso, mas nunca precisei de aparelho. Aí ele passou a língua entre os dentes e sentiu as falhas. Olhou pra mim e ficou quieto. Eu, que não perco a piada, disse: “relaxa, ‘tu tem’ mas tu não é negro não.” “Sai daí que ninguém te perguntou nada.” – Devolveu ele em meio às nossas risadas…

É difícil falar sobre o que é o racismo no Brasil, mas é fácil saber o que ele faz. A gente não pode errar, porque é o erro o que se espera de nós. A gente vai tentar assimilar os valores dos ditos civilizados, mas não vamos mudar o tom da pele e nem o tipo de cabelo, muito menos, vamos desfazer o racismo que alimenta os privilégios de classe. E você, pessoa, sentada diante da tela, ainda acha que, quem faz a TV brasileira não sabe disso? Você ainda acredita que um reality show, expondo o comportamento “civilizado” de pessoas negras está fazendo um programa de puro entretenimento? Sob os holofotes do mundo virtual, sob a onda de “vidas negras importam!” e considerando o fato de sermos uma nação deseducada acerca do funcionamento do racismo no mundo, você acredita realmente que a escolha das vozes negras para este reality foi aleatória?

Os estereótipos são reforçados com base em nossa alienação. Por exemplo, ser branco é ser limpo, mesmo errando nas piores coisas do mundo. Mesmo errando na formulação de humanidade, de civilização. Mesmo acertando a mira das “balas perdidas”. Já ser preto não! Preto vai sujar em algum momento, “se não for na entrada, vai ser na saída”. O Ex-ministro da educação, animado por fazer parte do circo dos horrores dos brancos, não se deu conta que seus erros são imperdoáveis socialmente, esqueceu que o racismo mostra o que a branquitude suja esconde. Uma nação que se constitui escondendo seus erros, amedrontada pela ideia de alteridade, vai poder ensinar a quem sobre ser correto? Faz sentido exigir que negros se pareçam com brancos, se foram os brancos que inventaram o racismo antinegro?

No final, a mesma sociedade que cobra a perfeição de corpos negros, produz nestas personalidades o desejo de se mostrar competente e habilitado para alguma coisa, nem que para isso seja preciso usar os aparatos de dominação colonial, como mentir, roubar, traficar, vender a alma, rejeitar os seus e se aliar aos piores (cada qual com suas escolhas). Entretanto, assumir o modus operandi da branquitude nunca vai significar tornar-se branco/humano/civilizado. Depois, na exposição dos erros, são as pessoas de pele negra que receberão as chicotadas sociais por terem tentado acertar, dentro de uma lógica forjada pra dar errado para todo mundo. Sim, porque se só a branquitude tira vantagem diante dos seus erros históricos, ela também falhou. E falhou muito como ser humano, como expressão de humanidade.

Ailton krenak, líder indígena da etnia krenak, chama atenção para o fato de sermos o único grupo de seres vivos que perde a vida pra Covid-19, e ainda assim, não entendemos que negar a pluralidade das formas de vida, de existências e de hábitos, é o que nos descola do organismo que é a Terra. O jeito dominante de ser civilização não deu certo. E, diante deste caos provocado, ele questiona a quem aqui permanece: qual o sentido de estarmos viv@s? Têm pessoas negras organizadas em Movimentos Sociais reivindicando direitos humanos e fomentando ações político-educativas; em partidos políticos construindo um parlamento em defesa de políticas públicas efetivas para toda população; em rodas de capoeira aprendendo a ginga regional e o fundamento de Angola; em associações comunitárias desenvolvendo ações sócio-educativas nas periferias; em organizações civis enfrentando o racismo no sistema prisional; em comunidades afrocentradas realizando uma economia autônoma e para crescimento coletivo; em comunidades tradicionais e quilombolas defendendo a terra e a liberdade; organizando campanhas contra a fome pelo mundo… qual o sentido de fazer espetáculo, justamente, com as pessoas que assimilaram os piores valores da dita civilização ocidental?

Sorte a nossa que, apesar de tantas mentiras contadas sobre nós, a sabedoria ancestral nos guia, e não nos abandona. Exu, como dono do mercado, regente da dinâmica, não permite desequilíbrio nas trocas. É a comunicação, em meio aos conflitos, que expressa o seu propósito. Você costuma entrar no mercado e sair sem o que foi buscar? Pois então, sem conexão com seu ser, você se perde nos conflitos e assimila os valores autodestrutivos. Se este sentido de humanidade não corresponde à abundância de ser humano da qual originamos, é tempo de descruzar os caminhos e assumir os valores e comportamentos que nos aproximam de nosso melhor, em comunidade.

Maicelma Maia Souza é Professora, Psicopedagoga, Pedagoga. Mestra e Doutoranda em Educação. Coordenadora do Programa de Extensão CAfUNé – Cozinha dos Afetos para Universitárias Negras. Colunista do Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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