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Em frente à janela… um delírio

Por Pâmela Bueno Costa

(E se soubessem quem é, o que saberiam?),

♫♩♪♫

Da sua janela uma vaga estrela

E um pedaço de lua

Chego à  janela,  “- chove lá fora, e há abismos de silêncio em mim.”  Ao fundo toca uma triste melodia…Pego uma cadeira e sento para contemplar a chuva, nesse momento alguns delírios saltam: – Há tempos que um  fio de esperança, como um grilo verde que pousa e irradia a alma desapareceu. Mas, é preciso dizer que,  mesmo com tantas coisas ruins, a notícia que o Instituto Butantan oficializou o uso emergencial da CoronaVac (aprovada pela Anvisa) trouxe uma alegria que outrora não fazia mais parte da vida de nós brasileiros. Depois de tanto negacionismo, tanta violência, um governo totalmente insano, covarde e hipócrita, depois de tudo isso e apesar disso, a ciência, a pesquisa e os trabalhadores públicos envolvidos nesse trabalho despertaram o sorriso que  estava oculto e silenciado. É tempo de esperançar…

Estamos em um mar de tristezas, tantas mortes e tantas perdas, ainda é possível sonhar? Já diria o poeta, nada é tão nosso como nossos sonhos.

Então, sonhar é o que nos mantêm vivos, mesmo que a vida real seja muito pior. Nossas experiências, nossas marcas é o que nos constituem enquanto Ser. Sentimos e sentimos muito –  o peso do mundo.  Não é  mesmo Drummond?  Temos apenas duas mãos, mas o sentimento do mundo!

Em reconstrução, seguimos, mesmo em uma crise sanitária, política, econômica e social. Como sonhar?  transver o mundo? Quando a vida é o contrário daquilo que sonhamos, como dói o não realizado, o não concretizado, mas mesmo com tantas expectativas frustradas, como continuar a nossa travessia? Precisamos nos agarrar naquilo que ainda nos tira o riso frouxo e nos traz as pequenas alegrias.

É janeiro, mas faz frio, da janela do meu quarto, sinto um aperto no peito, um silêncio perturbador, lá fora chove. Tem chovido muito nos últimos dias, é como se a água viesse para limpar e trazer vida. Mas, em demasia ela é também perigosa, aliás como tudo na vida, precisamos de equilíbrio, de uma mediania.

Viver é muito perigoso.

Mas, aqui no meu ombro esquerdo, do lado esquerdo de peito – (aquele que tem sangrado) pousou uma esperança:

esperança é sempre secreta e costuma pousar diretamente em mim, sem ninguém saber” (2016, p. 411). Ela não tem corpo, apenas alma! Senti um vento suave, um toque no ombro. Devagar e urgentemente olhei, mas nada vi. Tem coisas que os olhos não enxergam. Mas que conseguimos sentir. Sentada em frente à janela, ecoa os versos de Fernando Pessoa: “Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora; E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse” (2016,p.65).

ah, como um grito preso, os versos do poema Tabacaria se tornaram vívidos: – “Janelas do meu quarto, do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é.” (2016, p. 243)E se soubessem? Talvez, nada saberiam. Chegou, pousou e voou. Não deu tempo para ver, tocar e, para a despedida,  apenas  um vento gélido e um leve sussurro: “é, eu preciso dizer que eu te amo!”.

Trouxe um sopro bom. Rapidamente, absorveu meu ser. Senti como um abraço circundante, forte e intenso. O coração bate rápido, escuto-o – “ e no meu coração um grande pasmo soluça” (2016, p.305). Mas, foi tão rápido, que em poucos minutos não sabia se tinha sido real ou ilusão – “Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa”; um delírio bom, de fato, a esperança pousou em mim.

Devaneei… Assim como o amor,  a esperança também chega sem avisar, nos pega sem jeito, é linda como uma nota musical, mas também deixa o gosto amargo da sua entonação e sua escala cromática. E ali, em frente a janela adormeci – “ fiquei extremamente quieta como se uma flor tivesse nascido em mim” (2016, p.413). Sorri, dormi, sonhei…

sonhei que o mundo e o amor eram coisas boas.

Referências

LISPECTOR,Clarice. Todos os contos. Rio de Janeiro: Rocco, 2016.

PESSOA, Fernando. Obra poética – vol 2. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016.

Pâmela Bueno Costa, professora de filosofia na rede estadual e particular de ensino – SC. Graduada em Filosofia. Pós-graduada em Ensino da Filosofia. Mestre em Ensino da Filosofia PROF-FILO. Cursando terceiro ano de Letras: Português/Espanhol (UNESPAR). Ilustradora amadora e aprendiz de aquarela. Colunista do Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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