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A vida: uma andarilhagem analfabeta

Por Eliane de Fátima Camargo

“…Tô na fila da morte, todos nós.

Só não sabe quem é que vai primeiro,

e esse tempo que passa tão ligeiro

é o mesmo que cala minha voz[1]

Sou uma pessoa alegre, mas muitos textos que fiz durante o ano passado foram salgados por lágrimas. Ainda que meu lado freireano não me permita desesperançar, as opressões, ainda mais escancaradas durante a pandemia, não me deixaram fugir da realidade. Que este texto não seja marcado pelas lágrimas, mas pelo desejo de mudança…

Em 2020, a morte se fez tão presente, que a vida me pareceu ainda mais valiosa. Lembro do ano de 2007, quando minha mãe foi diagnosticada com leucemia, das mais severas. Em sete meses presenciei a doença definhar seu corpo. Ela não se alimentava direito, tinha frequentes hemorragias. Mas nunca desistiu da luta, apesar de todo sofrimento, era alegre. Acho que herdei isso dela: a alegria, o amor pela vida. Em janeiro de 2008 ela morreu. O tempo apagou das minhas memórias o som da sua voz, mas não apagou de mim a saudade. Imagino que a saudade seja isso: Amar a pessoa, para além dela.

Uma vez, ela me contou que eu não engatinhei, que um dia, para alcançar um livro, levantei e comecei a andar. Durante toda a minha vida os livros foram os meus melhores amigos. Amigos que moravam na biblioteca da escola e que toda semana entravam em minha mochila e iam conhecer a minha casa. Alguns, me apeguei tanto que queria deixar eles morando comigo. Um sonho luxuoso para uma infância pobre: ter uma biblioteca.

Apesar de adorar ler, não sou uma boa escritora, sou péssima  com as vírgulas, com os pontos, sou cheia de erros ortográficos. Mas por outro lado, quando escrevo, me liberto, sinto que meu coração está nas pontas dos dedos. Sou a minha escrita, já não posso mais fugir de mim. Lembro a vocês, Patativa do Assaré: “É melhor escrever errado a coisa certa do que escrever certo a coisa errada”.

É certo, em um país, onde as desigualdades ecoam em números alarmantes e somamos  mais de 11 milhões de analfabetos[2]. Ler e escrever, necessidades que deveriam ser básicas, passam a ser privilégio de alguns. Quantas pessoas brilhantes deixamos de conhecer, encobertas pelo sistema opressor.

Há meses que leio e escrevo entre o barulho. Dentre tantas opressões que a pandemia escancarou, descobri que o não silêncio pode ser uma delas. O silêncio pode ser privilégio de alguns. Salvo raras exceções, ele é privilégio dos homens. Onde estavam os filhos e filhas dos filósofos mais famosos, enquanto eles escreviam? Quem lavou roupa, fez comida enquanto eles escreviam? É muito provável que foram mulheres que não puderam escrever. Silenciar é também não ter silêncio.

Filosofia se faz com silêncio. Mas, quem tem direito a filosofar?

Ouvindo Leonardo Bastião, nordestino, poeta, agricultor e analfabeto, que usando da oralidade, faz versos a partir da simplicidade da vida, me dou conta que o analfabetismo ultrapassa o saber e ler escrever. E, com isso, não romantizo o analfabetismo, que continua sendo uma violência. Porém, nenhum diploma é capaz de tirar  o embrutecimento humano. De quantos títulos precisamos, para nos tornarmos mais humanos?

Ano passado descobri que silenciamentos são feridas abertas. São gritos que poucos ou ninguém consegue ouvir. A pergunta que me dilacerou: o que  fazemos com nossos gritos silenciados?

Os silenciamentos estão presentes na realidade de quem não tem direito de voz. Silenciamento é quinze dias de aulas de filosofia em uma única folha impressa. Silenciamento é abandonar a escola para ajudar no sustento da família. Silenciamento é ouvir um presidente banalizar a morte dizendo : -“E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê?”- Silenciamentos são: Educadores (as) em oito dias de  greve de fome, para mostrar para a sociedade, que viver é direito humano. De todos os humanos! Que a educação é importante.

Dói ter que dizer o óbvio, porque por trás dele existe o choro, o medo, a negação de direitos. Só nega ou romantiza a luta, quem do alto de seus privilégios não precisa lutar.  As opressões não deveriam ser romantizadas, elas deveriam ser combatidas.

Hoje, não tenho respostas, nem sei se tenho algo a ensinar. Tenho apenas perguntas e barulhos que me inquietam. Estou tomada de gritos, não só meus, mas de tantas pessoas que diariamente são sufocadas pelas opressões.

O nó na garganta, se desata com lágrimas, mas a realidade não se modifica… Me pergunto: Por que ainda esperamos grandes revoluções, quando poderíamos fazer algo a partir do nosso lugar? Por que falamos de feminismo e não levamos mulheres para nossos estudantes lerem? Onde estão os autores e autoras negras, indígenas, camponeses? Por que ainda usamos uma língua binária, se a identidade de gênero é diversa? Para além de nossos discursos bonitos e de nossas pesquisas na estante, o que temos feito para lutar contra as opressões?

Que em 2021 possamos abraçar as mudanças, sem medo de nos desconstruir, pois só assim, poderemos construir novas realidades. Que sejam elas, menos opressoras.


[1] Poema de Leonardo Bastião, disponível no you tube.

[2] Segundo dados do PNAD, 2019.

Eliane de Fátima Camargo, Graduada em Filosofia e Sociologia. Mestranda em Filosofia. Feminista. Colunista do Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

2 comentários em “A vida: uma andarilhagem analfabeta Deixe um comentário

  1. Parabéns, teus textos sempre são emocionantes, mas esse excepcionalmente, por tratar do amor aos livros e a dificuldade do acesso à leitura pelos mais pobres, e sobretudo as mulheres pobres que automaticamente precisam fazer tantas outras coisas que acabam deixando de lado esse prazer, que poderia ser o seu momento de fuga, aprendizagem e auto conhecimento.
    Que em 2021 ousamos nos permitir.

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