Ir para conteúdo

Entre pirulitos, bombons e balas: o doce e amargo cheiro da liberdade

Por Maicelma Maia Souza

A ESCRAVIDÃO QUE TRAZ LIBERDADE! – Blog do Pinha

“Ai, gente, ainda ‘tô’ nervosa, tudo tão lindo… e o melhor, ele é cheiroso!” Eu, contando as minhas amigas, os primeiros momentos de quando fui encontrar pela primeira vez meu último namorado à distância. Era realmente tudo bonito, como a gente tinha sonhado virtualmente. E eu me recordo que, o que eu mais pedia ao Universo é que ele fosse cheiroso. Tinha receio de tudo ser estragado por um detalhe que, aparentemente, era pequeno e, naquele momento, eu não sabia de onde vinha tanta importância. Ah! Certo! Mas quem não quer estar perto de gente cheirosa?! Isso é normal.

Quando eu tinha 09 anos, uma professora contou que, um dia, quando ela era adolescente, ela teve um desmaio na escola. Marcada por uma infância pobre, onde muitas vezes não tinha o que comer no café da manhã, ela enfatizava que naquele dia, por incrível que pareça, ela havia tomado café com pão. E sua mãe sempre a advertia para usar roupas limpas. Então, quando ela caiu, não passou vergonha porque sua calcinha estava alva. Ela falava disso com orgulho de sua limpeza. A pergunta que todos fizeram quando ela acordou foi a clássica: “Você comeu antes de sair de casa?” Eu já tinha me feito essa pergunta quando ela começou a falar do desmaio. Eu tinha 09 anos de idade.

No nosso terceiro encontro, quando ele chegou do trabalho, tomou banho e, já na cama, colocou um perfume para dormir. Eu: “huuum.. que cheiro bom!” Ele disse: “Aah! Que bom que você gosta! Eu não sinto cheiro de nada, por causa dessa bendita rinite. Mas eu sempre uso perfume, sabe que tem aquela história de que ‘preto fede’ neh? Então ‘tô’ sempre com perfume, mas não sei o cheiro.” A gente se abraçou, mas eu paralisei. Achei estranho não sentir cheiros mas precisar ter a sensação de estar cheiroso.

Tempos depois, o quebra-cabeça foi se encaixando. Carolina de Jesus narra que ela descobriu que era negra porque as crianças brancas, quando brigavam com ela, diziam: “Negrinha! Negrinha fedida!” Os demarcadores sociais estão aí, na cara de todo mundo. Os sentidos sentem na pele, literalmente, os enquadramentos raciais. Sempre que vou a um espaço majoritariamente feito pela e para branquitude, eu sinto como se tivesse que ir, além de certamente cheirosa, mais bonita, mais arrumada, ou mais “alinhada”, como ouvi recentemente, quando perguntei sobre o clima da cidade: “está quente, mas traga roupas mais alinhadas!”.

As experiências vão se amontoando pela memória e um dia, de repente, despencam todas de uma só vez. Em 2010, precisei comprar dólares para uma viagem e meu namorado, daquela época, me acompanhou ao aeroporto. Quando cheguei ao guichê, eu disse: “bom dia, quero comprar dólares.” O rapaz respondeu: “Vou precisar do RG dele, ele fala português?”, e olhou para o meu namorado. “Ele quem? É para mim.” “Ah, passa pro guichê ao lado, por favor!” Não sei se é preciso dizer, mas não custa desenhar: na situação estavam 4 pessoas, 3 homens brancos, sendo 2 atendentes, 1 meu namorado, e uma mulher negra, no caso eu. A única que não poderia ter dinheiro para comprar dólares, ou para viajar por conta própria, ou ainda, a única que poderia “se vender” para os gringos, o que é muito comum no turismo das grandes capitais.

Então, sinto que preciso disfarçar a pele suspeita de ser pobre ou de estar com fome, suspeita de estar suja/fedida ou de ser vulgar/puta… só para evitar os constrangimentos que essa sociedade criou sob o argumento de “procedimento padrão para segurança local.” E, diante de tantos acontecimentos, fico me questionando até quando esse procedimento padrão matará, simbólica e fisicamente, com o aval do Estado e da sociedade brasileira, corpos livres, como os das primas Emilly e Rebeca (04 e 07 anos), o de Miguel (05 anos), o de Micael Silva (11 anos), o de João Pedro (14 anos), o de Ágatha (08 anos)… crianças de pele preta brincando na rua, na porta ou dentro de casa, precisam disfarçar que são suspeitas de quê? Precisam de que para serem respeitadas em suas existências? O cheiro de suas liberdades não agrada a quem? Entre brincadeiras, pirulitos e bombons, as balas sempre matam os pequenos corpos pretos para proteger qual liberdade?

Achille Mbembe é certeiro em sua análise sobre a Necropolítica. Para segurança de alguns, o Estado vai regular a morte de tantos outros, em torno da falácia de guerra às drogas. Se permanecemos vivas, os estereótipos e o não-lugar seguem na tentativa de fazer o brilho de nossa existência desaparecer. Nosso corpo está carregado de culpas históricas. Pessoais e coletivas. As injustiças coloniais delegaram aos povos marginalizados a responsabilidade de consertar o passado, para sonhar futuros melhores. E nessa missão, o Agora fica preso às urgências e emergências do capital. Liberdade, igualdade e fraternidade embalam os sonos de quem sempre deitou em berço esplendido, de quem sempre soube gozar o presente de realizações felizes e promissoras, materialmente. Enquanto isso, a gente continua inventando jeitos de matar o pássaro ontem com a pedra que lançar hoje, como fez Exu, que inspirou o AmarElo de Emicida. A democracia normalizou a pobreza e o racismo, e a gente vai normalizar a liberdade.

Sim, porque não é normal que, em diferentes lugares do Brasil, desde a infância de Carolina de Jesus, as pessoas pretas conduzam suas existências movidas pelo medo de confirmar os estereótipos dos quais nunca se enquadraram. Não é normal! Normal é poder ser. Não há o que disfarçar:  somos produtos e produtores dessa história. Toda a sociedade é responsável por essa barbárie, seja com seu silêncio diante da TV ou do celular, seja pelo grito de indignação. Quem entende sobre evolução, que avance duas casinhas no jogo da vida, e retire seus conceitos colonizadores da leitura de sentidos. No dia 14 de maio de 1888, primeiro dia pós-abolição da escravatura, não houve distribuição de casas, nem de terras, nem de direitos, muito menos de sabonetes, ou roupas limpas e perfumes. Portanto, o cheiro da nossa pele é o cheiro insurgente da nossa existência livre.

Maicelma Maia Souza é Professora, Psicopedagoga, Pedagoga. Mestra e Doutorando em Educação. Coordenadora do Programa de Extensão CAfUNé – Cozinha dos Afetos para Universitárias Negras. Colunista do Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

Um comentário em “Entre pirulitos, bombons e balas: o doce e amargo cheiro da liberdade Deixe um comentário

  1. É exatamente isso que acontece com nós, pretos e pretas desde a infância. Mas diante disso nos enriquecemos com informações, como nesse texto magnifico, que nos fortalece e nos ensina como lidar com as adversidades da vida pra quem vive dentro de um corpo preto.

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

%d blogueiros gostam disto: